Final Fantasy X-2

Como todo mundo já deve saber, Final Fantasy X-2 veio para quebrar uma tradição na série Final Fantasy – a de que seus jogos nunca tinham continuações. E parece que a Square realmente gostou disso, considerando a quantidade de seqüências que se seguiram desde então – apenas está faltando a do meu preferido, o Final Fantasy VIII. E será que essa primeira seqüência faz jus a série? Como diria o velho Jack, vamos por partes… Tentarei colocar o mínimo possível de spoilers a seguir, para o caso de você ainda não o ter jogado, mas como eu não sou exatamente um bom resenhador, talvez isso acabe não sendo possível o tempo todo.

Em primeiro lugar, falemos sobre aquilo que você primeiro irá ver no jogo – os gráficos. Não tenho meios para fazer uma análise mais profunda, mas pelo menos aos meus olhos de leigo os de FFX-2 são bastante impressionantes para a época em que foi lançado. Não tanto, é claro, se você já estava acostumado com eles desde o FFX, mas ainda assim muito bonitos. As CGs continuam excelentes, com visais magníficos em algumas cenas. Eu notei, no entanto, alguns momentos em que o framerate diminui consideravelmente durante os combates (tá, é só quando há muitas animações ocorrendo ao mesmo tempo, mas igual…). A decepção mesmo fica por conta dos cenários novos com relação ao jogo anterior, especialmente as dungeons, que são muito simples e pouco interessantes.

Talvez seja só uma mania estranha, mas eu realmente presto muita atenção à música dos jogos – na verdade, sou capaz até de comprar um jogo só pela música (o Yasunori Mitsuda faz esse tipo de coisa a gente). E a de FFX-2 é, bem… Não muito interessante. As faixas em geral passam bem o clima do jogo, mas a maioria não passa de misturas de sintetizadores extremamente curtas, e são bastante esquecíveis. Dentre os poucos destaques, fica o tema da tela inicial em piano (eu tenho uma queda por solos de piano); o tema dos Gullwings (o que toca dentro do airship), que até é meio irritante, mas consegue passar bem o clima a que o jogo se propõe; e o tema da cidade de Zanarkand, que consegue passar um certo clima de mistério – não um mistério sombrio ou assustador, mas sim uma espécie de mistério exótico (ou talvez que talvez sejam as moças dançando que me dão essa impressão). Os temas de batalha e vitória também são legais, embora não especialmente destacáveis. As músicas cantadas não impressionam muito, pelo menos não a mim que não sou um grande fã de J-Pop; e, sinceramente, vai ser difícil fazer um canção-tema mais bonita do que Melodies of Life. Uma música especialmente irritante, no entanto, é a que toca nas Calm Lands, que conseguiu a façanha de me irritar mais que o tema do mapa-múndi do FFVIII.

Os efeitos sonoros também não deixam muito a desejar, com explosões, passos, rugidos e etc. A dublagem tem seus altos e baixos – os personagens principais são muito bem dublados (com exceção da Paine, mas talvez seja só implicância minha com a personagem mesmo), com destaque especial para as dubladoras da Yuna e da “vilã” LeBlanc; os secundários, no entanto, deixam muito a desejar, especialmente o anão Tobli e os irmãos Ronso, que quase me lembraram os piores momentos do Grandia original (um excelente jogo estragado pela péssima dublagem em inglês).

A jogabilidade também tem seus pontos altos e baixos. Há uma tentativa de colocar elementos de plataforma no jogo, como saltos sobre pedras e afins, mas no final a presença disso é pouco mais do que um pequeno extra sem grande impacto real (apesar de que eu gostei de ficar pulando sobre as escadas dos templos de Yevon; viva a blasfêmia!) – fora dos combates e mini-games, você ainda estará a maior parte do tempo apenas caminhando e conversando com NPCs. Mas há alguns puzzles e side quests interessantes para serem realizados, alguns muito bem bolados e inteligentes, outros nem tantos – uma dessas side quests é provavelmente a mais chata de toda a história dos Final Fantasies… E mesmo assim você vai precisar fazê-la até o fim se quiser conseguir os malditos 100% de Story Completion. Também gostei bastante da forma de organização do jogo, através de missões não lineares ao invés de um roteiro pré-definido – desde o início do jogo é possível ir a qualquer lugar do mundo, o que lhe dá uma liberdade incomum nos RPGs eletrônicos, pelo menos nos de origem nipônica.

O combate também tem suas características boas e ruins. Temos o retorno da barra ATB (Active Time Battle), agora muito mais active que antes. Os personagens não tomam mais turnos separados – com exceção de alguns ataques especiais, toda a ação ocorre ao mesmo tempo. Isso tem lados bons – é possível fazer coisas como atacar um inimigo enquanto ele corre na sua direção, e assim impedi-lo de agir – e ruins – a velocidade com que o combate ocorre lhe dá muito pouco tempo para escolher os comandos dos personagens, o que às vezes atrapalha de forma séria. O sistema de Garment Grids e troca de jobs durante as batalhas é bastante interessante, oferecendo uma grande variedade de habilidades para serem usadas, e há até alguns jobs especiais que de certa forma substituem os Aeons do jogo anterior. E esse é também o o ponto mais frustrante do combate no jogo: você tem todas essas opções, mas simplesmente não há oportunidade de usá-las. A dificuldade dos combates é tão ridícula que praticamente todos eles, incluindo os chefes, podem ser ganhos simplesmente com ataques normais, mesmo em níveis relativamente baixos, com as únicas exceções sendo alguns chefes opcionais e os monstros das áreas em que você não deveria estar visitando ainda. No final, o combate de FFX-2 é um conjunto de ótimas idéias terrivelmente aproveitadas.

Os mini-games, só pra variar, também tem bons e maus momentos. O cassino das Calm Lands, por exemplo, é um momento péssimo – seus jogos são apenas reaproveitamentos de gráficos de batalha, nem tão bem assim adaptados (caça-níqueis com monstros voadores? Por favor!). Com muita boa vontade, pode-se salvar o Reptile Run, jogo estilo Froggy usando monstros de FF, e o Gull Force, só porque eu adoro jogos de tiro com naves / aviões / coisas voadoras em geral com visão lateral / traseira. Eu também me viciei durante alguns minutos na corrida de lupinos, mas isso é porque eu tenho um pequeno probleminha com apostas. Mesmo assim, você provavelmente vai manter distância depois de realizar as side quests correspondentes e conseguir alguns prêmios especiais. Outro momento que poderia ser apagado do jogo é o mini-game de tiro estrelado pela Yuna, especialmente a sua versão em primeira pessoa.

As coisas começam a melhorar, no entanto, com o Sphere Break, o único mini-game que recebeu um tratamento cuidadoso. É um jogo matemático até bastante interessante, e capaz de prender a sua atenção por algum tempo. No entanto, como pode-se ganhar pouca coisa realmente útil através dele (exceto em uma única missão especial que ocorre durante um torneio), é bem provável que você perca o interesse logo, a menos que seja um daqueles que gostam obter absolutamente tudo disponível em um jogo, já que pode levar algum tempo até completar sua coleção de moedas (algo que eu não tive a menor paciência de tentar). Ah, e um detalhezinho que eu percebi: teoricamente, ele deveria ser um jogo para duas pessoas, mas há apenas um jogador ativo durante as partidas!

E por fim temos o Blitzball, a grande salvação dos mini-games de FFX-2. Diferente da versão de FFX, aqui você não controla diretamente o seu time durante o jogo, mas age como técnico, treinando seus jogadores e definindo estratégias de jogo – como em Eliffot, Football Manager e outros semelhantes. Pessoalmente, acho essa idéia muito melhor que a do jogo original, aquela mistura esquisita de mecânica por turnos e em tempo real, com partidas enormes e que ficavam muito fáceis e entediantes rapidamente. Desta forma ele ficou bem mais interessante, e pode prender a sua atenção por mais tempo. Na verdade, se tivesse sido feito com um pouco mais de cuidado – como a retirada de um pequeno bug na tela de treinamento e a inclusão de mais manobras especiais, opções táticas, times e comandos possíveis durante a partida -, ele sozinho poderia salvar todo o resto do jogo. Me deixou babando por um jogo exclusivamente sobre Blitzball!

Por fim, temos a história – e sim, ela também tem momentos bons e ruins. Provavelmente você já saiba disso, mas resumindo rapidamente: ela começa quando Yuna, dois anos depois de derrotar Sin no jogo anterior, recebe uma esfera contendo um vídeo com alguém muito semelhante a uma certa pessoa. Assim, junto com Rikku, sua nova companheira Paine e o resto da trupe dos Gullwings, ela resolve viajar por Spira em busca de esferas que desvendem os segredos do seu passado, e, quem sabe, reuni-la novamente com um velho amigo. É injusto avaliar esta história por um único ponto de vista, portanto acho que a melhor forma de fazê-lo é vendo-a de duas formas distintas: uma seqüência de FFX e uma história independente.

Como seqüência de FFX, a história de FFX-2 é, na pior das hipóteses, muito boa. Você pode ver tudo que aconteceu com Spira e seus personagens nos dois anos desde que Sin foi derrotado, e a forma episódica como a história é contada permite trabalhar com cada região, instituição e núcleo de personagens de forma praticamente distinta, evitando a armadilha de amarrar tudo em uma só trama de acontecimentos. A busca pessoal de Yuna, embora seja jogada a um segundo plano na maioria do jogo, também é bem interessante sob esse ponto de vista, dando a personagem principal bastante profundade. Na verdade, sob esse aspecto, o final incompleto do jogo consegue ser mais interessante que o melhor final (que, convenhamos, é só o final feliz que todo mundo queria ver), dando a história um significado maior e mais profundo.

É como história independente, no entanto, que aparecem os problemas de FFX-2. Ela até começa muito bem – talvez eu seja o único, mas eu realmente gostei daquele clima ação-pipoca das primeiras missões, algo meio As Panteras, e talvez eu achasse o jogo mais interessante se ele fosse mantido até o fim -, mas começa a desandar mais ou menos a partir do fim do segundo capítulo. Algumas situações e conflitos me pareceram um pouco forçadas demais, assim como as resoluções propostas – especialmente a desculpa para inclusão da canção-tema, que até rende uma CG memorável, mas colabora para retirar qualquer pretensão de seriedade do jogo (se bem que, pensando bem, seriedade até que não é algo tão necessário assim). Outro problema é que provavelmente você não irá desvendá-la por completo sem passar pelo jogo todo algumas vezes, já que é fácil perder algumas side quests com revelações importantes sobre ela.

Os personagens também não colaboram muito, a começar pelo Squall de saias, Paine – uma personagem sem qualquer emoção (se bem que eu fiquei em dúvida se era a personagem mesmo ou a dublagem que dava essa impressão), uma história clichê envolvendo “acontecimentos misteriosos no passado” e uma fixação pela palavra hurt que chega a irritar algumas vezes. E ela nem possui aquilo que tornava o personagem principal do FFVIII tão interessante, os seus momentos introspectivos, que em FFX-2 são todos reservados a Yuna.

A maioria dos personagens secundários também bem que poderiam ser descartados, a começar pelo anão irritante Tobli e os chorões Clasko e Baralai. E alguém mais acha estranho que um mundo inteiro entregue a sua liderança a três jovens de vinte e poucos anos? Bom, mais interessante é o núcleo de Sphere Hunters, como o LeBlanc Syndicate e, principalmente, a equipe dos Gullwings – estes de longe o melhor do jogo, reunindo uma história interessante, personalidades carismáticas e um visual legal, a começar pelo Rolls Roice voador Celsius. Chegaram a me dar vontade de começar uma campanha de 3D&T em busca de esferas que revelem o passado de Spira!

O maior problema da história, no entanto, é aquilo que é conhecido entre os RPGistas como “síndrome do NPC fodão”. A maior parte da trama central envolve muito mais um certo grupo de NPCs do que os personagens que você controla, que em muitos momentos importantes são meros espectadores do que está acontecendo. Isso o distancia bastante do palco central da história, e na verdade você acaba se sentindo em uma gigantesca side quest da verdadeira missão para salvar o mundo. O que é uma pena, pois essa parte de ameaça-de-destruição-mundial (e, afinal de contas, é um Final Fantasy, então tinha que ter algo assim) é até bastante interessante, envolvendo uma máquina devastadora e uma história de amor esquecida há mais de mil anos.

No fim, reunindo tudo isso, Final Fantasy X-2 é, na pior das hipóteses, um bom jogo. Não é uma grande obra-prima, mas também está longe de ser o desastre que algumas pessoas estavam anunciando. Em uma escala de 0 a 10, acho que conseguiria um 6 ou 7 sem muitos problemas, o que pode até ser pouco para um Final Fantasy, mas também não é uma vergonha inadmissível a série. E, honestamente, alguém realmente estava esperando mais do que isso?

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