The Wind-Up Bird Chronicle

Qualquer um com um interesse um pouco mais do que básico em literatura certamente já ouviu falar na jornada do herói. Descrita no clássico O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, trata-se de uma estrutura básica que, segundo ele, estaria em todas as histórias criadas pela humanidade, de qualquer época ou civilização – desde os mitos religiosos até os filmes de Hollywood, passando por contos de fadas, clássicos da literatura, e o que mais houver aí no meio. A forma como ela foi adotada por alguns escritores e roteiristas, inclusive, tem algo de polêmica, pelo seu potencial para virar uma “receita de bolo” fácil, em que você só põe os ingredientes na ordem certa e pronto, tem um épico literário instantâneo.

Não cabe a mim fazer aqui uma crítica ou defesa da jornada em si, é claro, exceto para ressaltar que, quando feita por um cozinheiro habilidoso, que sabe como temperar e tirar o melhor de cada ingrediente, mesmo uma receita manjada ainda pode ser saborosa e única no seu resultado final. Esse é o caso de Haruki Murakami, que, em The Wind-Up Bird Chronicle, nos oferece a sua abordagem da jornada do herói temperada com bastante shoyu e teriyaki, em uma das suas formas mais puras, qual seja, a do conto de fadas.

Claro que estamos falando de um Murakami, e não de um filme Disney, então deve-se entender uma concepção bem particular de conto de fadas. O cenário é o Japão contemporâneo e globalizado, e os seus personagens e problemas iniciais também – Toru Okada, o protagonista, não é nenhum príncipe perdido, mas um mero adulto desempregado que passa seus dias bebendo cerveja e ouvindo discos de jazz na casa que divide com a esposa; e a sua jornada começa com a busca por um gato perdido, e não qualquer tipo de encontro sobrenatural. E cada ajudante místico que ele encontra pelo caminho possui uma história mais singular e única do que o anterior, muitas vezes envolvendo acontecimentos violentos e, em particular, a ocupação japonesa da região da Manchúria durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais do que uma paródia, o que o livro faz realmente é uma releitura e ressignificação dos símbolos e arquétipos tradicionais da jornada do herói e dos contos de fadas. Você possui lá o fiel escudeiro (e tanto faz se ele é uma colegial problemática ao invés de um garoto empolgado), a princesa enfeitiçada (presa em um quarto de hotel ao invés de uma torre inalcançável) e o feiticeiro maligno (que usa terno e gravata ao invés de mantos escuros); e nada disso está fora do lugar, em um ambiente sem contexto, ou meramente para constar.

Claro, não seria um conto de fadas deixando de lado a fantasia, e isso o livro também tem de sobra. É Murakami, afinal, e, como eu já disse em outro momento, há algo na forma como ele escreve que transforma a leitura em uma espécie de sonho, onde impera a lógica do surreal e do impossível, sempre andando em cima do muro entre o realismo e a magia. A linha entre os dois lados é muito sutil, e nunca há como saber com certeza até que ponto um diálogo é só um diálogo, ou uma metáfora é só uma metáfora.

Em todo caso, The Wind-Up Bird Chronicle é um livro excelente, um épico fantástico dentro dos seus próprios termos, e que utiliza a jornada do herói de uma forma bastante singular e cativante. Talvez seja o melhor livro do autor que eu li até o momento, o que não é exatamente pouco.

3 Responses to “The Wind-Up Bird Chronicle”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 12/08/2011 às 00:08

    Quer uma coisa curiosa? Esse é o romance de estreia dele…
    Nem comento ainda porque ainda lerei, então volto para fazer um comentário mais abalizado. Apesar de que todos os livros dele que li até agora tem um quê de conto de fadas, de onírico, de mágico, imagine então o que seria um livro que de certa forma assume ser um conto-de-fadas… Curiosa.

    • 2 Bruno 12/08/2011 às 00:19

      Acho que não é o primeiro livro dele não… É de 94 ou 95, acho, até o Norwegian Wood era de 87 já.

      Mas é um livro muito bacana sim. Todo o estilo dele é bom demais, essa coisa de mexer com o onírico e o surreal e tal…


  1. 1 Trilogia do Rato | Rodapé do Horizonte Trackback em 26/06/2015 às 18:00

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