Lar, Doce Lar

Olhou para a direita, para esquerda, e de novo para cada lado, cuidando para não sair das sombras do beco. Suspirou devagar e saiu, correndo até a rua e atravessando-a em uma cambalhota rápida. Vestia um sobretudo marrom que caía até abaixo dos joelhos, com uma gola alta que escondia parte do seu rosto. Na mão esquerda, com a qual segurava um chapéu sobre a cabeça, carregava um revólver; na direita, um pacote de papel apertado com força contra o peito.

Correu pela calçada, olhando constantemente para os lados e para trás. Em um movimento súbito, pulou para dentro de outro beco escuro; dois homens armados passaram ao seu lado, sem notar a sua presença. Seguiu sorrateiro novamente pela calçada, até avistar a casa poucos metros adiante. Suspirou, aliviado, e deu mais um passo em direção a ela… Mas foi interrompido pelo som de tiros, que o fizeram pular em um reflexo rápido para atrás de uma lata de lixo. Olhou por cima dela, procurando não expor-se demais, mas foi o que bastou para que um tiro atravessasse o seu chapéu, furando-o de um lado ao outro. Droga!, pensou, faltava tão pouco!

Suspirou outra vez. Engatilhou o revólver e pulou em uma cambalhota para o lado, disparando rapidamente para a frente; um grito de dor confirmou que um dos atiradores fora atingido, e revelou sua posição. Correu para frente, desviando dos tiros que vinham em sua direção, e se refugiou em outro beco escuro. Retomou o fôlego e abriu levemente o sobretudo, retirou uma pequena granada de mão, puxou o pino e a atirou para fora. Três gritos de dor foram abafados pela explosão.

Saiu do beco apontando a arma. Não vendo ninguém, pensou por uma fração de segundo que estava seguro; o som de um gatilho e uma dor perfurante na coxa esquerda logo revelaram seu erro. Pulou para trás e tentou se arrastar novamente para o beco, onde observou o ferimento. Não havia muito tempo para pensar; retirou outras duas granadas do sobretudo, puxou os pinos e as atirou para fora. Nenhum grito. Fez novamente com a última granada, e desta vez pôde ouvir uma voz ser abafada pela explosão.

Olhou discretamente para fora do beco e encontrou outro lugar onde poderia se esconder do outro lado da rua, poucos passos adiante. Pulou para fora e correu, segurando a perna ferida, que latejava de dor. Uma rajada de tiros o seguiu; acertou apenas o seu chapéu, que caiu no chão. Atirou-se para trás da banca de revistas fechada a tempo de evitar que os outros tiros o acertassem, e olhou para trás para o chapéu caído. Merda!, pensou, justo o meu melhor chapéu! Refletiu por alguns instantes, pesando a possibilidade de pular e pegá-lo de volta, mas uma nova rajada de tiros logo o fez mudar de idéia.

Sorrateiramente aproximou o rosto da borda da banca, tentando ver alguma coisa por trás dela. Conseguiu discernir os pés de duas pessoas; peguei vocês!, pensou. Calculou mentalmente a posição e altura deles e engatilhou o revólver; então, após outro suspiro profundo, pulou para fora e, em um par de tiros certeiros, derrubou os dois.

Esperou por mais alguns segundos que outros tiros fossem disparados contra ele, mas nada aconteceu. Então recuperou o chapéu, arrastou-se calmamente até a entrada da casa, retirou as chaves do bolso do sobretudo e abriu a porta. Nada como o lar, doce lar, dizia uma placa pendurada na parede no lado de dentro. Colocou o molho de chaves e o pacote em cima da mesa.

Depois de fechar a porta, voltou para o pacote e o abriu, observando o conteúdo. Pão, queijo, manteiga, leite… Droga!, exclamou em voz alta para ninguém, esqueci de comprar ovos!

Balançando a cabeça e suspirando de decepção, pegou novamente as chaves, recarregou-se de balas e granadas, e saiu mais uma vez de casa.

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