Betinho

Mário Roberto “Betinho” de Souza era um gênio. Na verdade, talvez tenha sido o maior gênio em toda a história da humanidade. Aos quatro anos, brincando com cubos de madeira, deduziu os princípios básicos do teorema de Pitágoras. Aos cinco, da fórmula de Bhaskara. E aos oito era capaz de citar e desenvolver com propriedade as falhas de argumentação nas meditações de Descartes.

Aos dezenove anos desenvolveu uma teoria do universo e das forças fundamentais belíssima na sua simplicidade. De maneira objetiva e didática, resolvia alguns dos grandes problemas da física moderna, reunindo em uma só as forças nuclear, eletromagnética e gravitacional, bem como dando ordem e previsibilidade ao mundo quântico. Não apenas isso, como ainda era dotada de uma espiritualidade quase religiosa – não no sentido de depender da fé para funcionar, mas sim de que, mesmo na sua racionalidade absoluta, não deixava de revelar um significado oculto na existência, que enchia a vida das pessoas de sentido e iluminação.

Com trinta e três anos seus interesses estavam voltados para as ciências humanas, e foi quando ele desenvolveu as bases do social-capitalismo, o sistema político e econômico que melhor atende às necessidades da sociedade como um todo, sem deixar de promover com grande eficiência o progresso científico e material. Sua dissertação sobre o tema trazia mesmo um planejamento simples, que, através de políticas públicas objetivas e de baixíssimo custo social e financeiro, era capaz de converter qualquer sociedade ao novo sistema no prazo de quarenta anos, independente dos seus antecedentes culturais e históricos.

Betinho também teve grande atuação no campo das artes. Músico auto-didata, compôs sua primeira sinfonia ao sete anos, em um piano velho na casa do avô. Sua obra conta ainda com outras dezessete peças musicais, mais da metade delas escritas longe de quaisquer instrumentos, apenas imaginando as melodias e escrevendo as notas em uma folha de caderno.

Escreveu seu primeiro romance – Da Vida dos Morcegos na Albânia – aos quatorze anos, e, embora tivesse todos os vícios típicos de um escritor iniciante, já trazia nele muitas qualidades que escritores renomados só desenvolveriam em idades muito mais avançadas. Sua obra prima, no entanto, é Morangos Silvestres e a Árvore do Mundo, que reunia elementos de romance psicológico, realismo mágico e mesmo da poesia épica em uma grande narrativa de quase mil páginas. Deixou para trás também mais de oitenta contos e poesias, de diferentes estilos e formatos.

Tudo isso ocupava mais de mil e quinhentos cadernos em que Betinho escrevia todo o dia, quando chegava em casa após a jornada de trabalho como frentista em um posto de gasolina. Sem saber o que fazer com eles, seus sobrinhos doaram todos para uma fábrica de reciclagem de papel, após o velho ter sido encontrado morto no pequeno apartamento onde morava, pendurado pelo pescoço por uma gravata velha no lustre da sala.

0 Responses to “Betinho”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 193,026 visitas

%d blogueiros gostam disto: