Futebol, Torcida e Distanciamento Crítico

Não existe distanciamento crítico no futebol. Curto e grosso, é isso mesmo: o simples fato de se interessar pelo tema o bastante para querer falar algo a respeito já pressupõe no mínimo alguma simpatia por clubes, jogadores, cores ou o que for, e isso elimina qualquer possibilidade de um distanciamento teórico para fins de análise. É simples assim, não importa o que cronistas e comentaristas e o que for tentem vender; muito mais honesta e ética é a atitude de um Juca Kfouri, que se assume corintiano mas faz o possível para que isso não nuble a sinceridade das suas opiniões, que é, afinal, aquilo pela qual um jornalista de verdade deveria prezar mais, do que a de um Maurício Saraiva, que tenta vender que qualquer paixão clubística anterior desapareceu no momento em que ele se tornou um profissional.

Portanto, não venham me dizer que qualquer reação da torcida do Grêmio no último domingo tenha sido exagerada, que o que o pilantra-cujo-nome-não-deve-ser-mencionado fez foi meramente uma escolha profissional, ou qualquer blá blá blá copiado palavra por palavra de algum ex-jogador comentarista que seja. É claro que ele é um profissional, que tinha o direito de decidir pela melhor proposta, mas não é isso o que realmente importa no futebol, no fim das contas. Também não tem nada a ver com alguma racionalização grosseira sobre perdas e ganhos de dez anos atrás, somada à ingenuidade ao querer esquecer disso no início deste ano. Tem a ver, isso sim, com uma torcida inteira que se sentiu traída duas vezes, por um jogador que passou a juventude inteira no clube, e o que faz da segunda tão pior, muito além da forma como foi realizada, é justamente o fato de que havia a vontade sincera de perdoar a primeira.

No fundo, o que faz do futebol ser o que ele é não são os jogadores, os patrocinadores, os cartolas, os comentaristas, ou qualquer outro cujo o nome estampe as manchetes de jornal quotidianamente, mas a torcida. Isso não é idealismo ou populismo barato, mas uma observação empírica mesmo, que vai além do romantismo tosco das “festas das arquibancadas” e semelhantes. O que faz valer a pena contratos milionários de transmissão de jogos pela televisão se não o fato de que existem milhões de torcedores dispostos a assisti-los, e assim gerar audiência e publicidade para a emissora? E qual o sentido de colocar um jogador em uma propaganda de lâmina de barbear, telefonia móvel ou o que for, se não o fato de que existem torcedores que o admiram, que conhecem a sua carreira, e que ao menos se lembrarão do produto como “o produto do Neymar, ou do Kaká, ou do Ronaldo,” ou de quem for?

Tire a torcida do futebol, enfim, e o que sobra? Um joguinho chato e demorado, com poucos momentos de brilho intenso espalhados entre longos períodos de marasmo técnico. Já falei o que eu penso sobre a idéia do futebol como espetáculo em outro momento, e não vou me repetir. O ponto aqui é que, sem a torcida, o tal “espetáculo do futebol” simplesmente perde todo o sentido, e essa racionalização extrema, que transforma cada jogador em uma simples peça a ser negociada e trocada indiscriminadamente, ignora justamente o sentimento desta parcela tão importante dos envolvidos com o esporte. Eu não ignoro, enquanto torcedor, que os jogadores são profissionais, e têm o direito de pensar e se preocupar com suas carreiras; posso até admitir, mesmo que com alguma dificuldade, uma atitude como a do atacante Kléber, por exemplo, que, ao receber alguns meses atrás uma proposta do Flamengo, ao menos foi sincero e transparente com os dirigentes e a torcida do Palmeiras, dizendo que tinha recebido esse contato, o que acabou desandando no médio prazo e levou à situação atual em que ele se encontra. Já aconteceu com o Grêmio antes, e nem por isso os envolvidos foram sumariamente excluídos da história do clube. O que eu não admito é que eles, enquanto jogadores, ignorem que eu também tenho o direito de ser tratado com respeito e honestidade, justamente aquilo que mais faltou no outro caso.

As empresas em geral tem essa noção da importância das torcidas, na verdade. Sendo provavelmente o elo mais fraco em toda a equação do futebol, é interessante notar como elas de fato tomam todo o cuidado ao lidar com ele. É só observar a publicidade com personalidades do futebol aqui no Rio Grande do Sul: sempre possuem dois “protagonistas”, cada um ligado à história de um dos grandes clubes locais. Por anos, nenhuma empresa aceitou patrocinar o Grêmio se já não estivesse patrocinando o Inter também, e vice-versa. E muitas mesmo aceitaram mudar suas logomarcas para isso – como a famosa logomarca preta da Coca-Cola, já que a camisa tricolor jamais poderia ter qualquer traço de vermelho, e mesmo a versão colorada ainda corrente do logotipo do Banrisul.

Parafraseando Tywin Lannister em algum episódio da primeira temporada da série Game of Thrones, todos os jogadores morrerão um dia, assim como todos os treinadores, e cartolas, e comentaristas. Isso vale para o pilantra e o seu irmão ainda mais pilantra, bem como para o outro traíra tricolor Tinga, e mesmo para os ídolos verdadeiros como Renato Portaluppi, Danrlei e o Felipão. O que sobrevive é o clube, pelo menos enquanto, é claro, ele tiver a sua torcida. Os torcedores individuais podem morrer; mas a torcida em si é um ente muito maior do que a mera soma das suas partes, e sobreviverá. E aos que não entenderem isso, que lidem com o ostracismo como puderem.

É isso, enfim, que eu tinha para dizer aqui. Sou contra essa cientificização do esporte, essa tentativa de transformar tudo em um grande Cartola F. C. da vida real. Racionalizar demais o futebol é tirar dele justamente o que ele tem de mais interessante e apaixonante. No que me diz respeito, sou um torcedor antes de todo o resto, e mereço e exijo tanto respeito quanto qualquer das outras partes envolvidas.

2 Responses to “Futebol, Torcida e Distanciamento Crítico”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 02/11/2011 às 17:33

    Não tem o de comentar desse post além de que ele ficou excelente =*****
    (e doses de fanboy rage aqui tb!)


  1. 1 A “magia” do futebol brasileiro | Rodapé do Horizonte Trackback em 22/12/2013 às 21:41

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