Orlando

É sempre complicado falar de um clássico. Quando o livro é recente, ou pelo menos pouco conhecido, você sempre pode sossegar no fato de que poucas pessoas já terão falado algo a respeito, muitas vezes sequer lido o dito cujo, então qualquer bobagem escrita pode ser justificada pela falta de referências. Se é um clássico, no entanto, é bem provável que muitas pessoas lendo o que você escreve já o conheçam e tenham suas opiniões a respeito, além de teses e antíteses acadêmicas em profusão, cada uma fazendo referência a uma dúzia de outras obras do mesmo autor ou autores próximos sem as quais não é possível entendê-lo corretamente, e etc. e etc. Enfim, não sou um literato acadêmico, tenho este espaço apenas para divagar sobre coisas que eu leio, vejo, ouço ou penso, então me perdoem também se eu disser qualquer bobagem a seguir.

Orlando é o sexto romance da autora britânica Virginia Woolf, uma das principais escritoras do século passado, e é um dos seus livros mais conhecidos. Ele conta a biografia fictícia do personagem-título, desde a sua juventude em meados do século XVI até a contemporaneidade da autora, já nas primeiras décadas do século XX, e inclui mesmo uma troca de sexo no meio do caminho. Fãs de quadrinhos e do mago Alan Moore possivelmente o conheçam pela sua participação em A Liga Extraordinária – Século: 1910, e tenho que confessar que foi por causa dela mesmo que eu tive atiçada a minha curiosidade a respeito do livro, e acabei aproveitando a edição de bolso lançada recentemente pela editora da livraria Saraiva (apesar da capa horrível).

A marca do protagonista, como já devem ter notado, é a imortalidade. Ele nasce homem na Inglaterra da rainha Elizabeth I, transforma-se em mulher durante um saque à cidade de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia), e enfim atinge a maturidade (e a maternidade) já no século passado. Uma primeira camada de significados, assim, diz respeito justamente à passagem da História, e ao relacionamento que Orlando desenvolve com cada época da sociedade inglesa. É interessante ver como o próprio clima e os ambientes mudam com o passar dos séculos, e como ele, de um jovem impetuoso e viril no início, transforma-se no fim em uma dama sensível e recatada. Tendo uma paixão intensa pelas letras, também se relaciona diversas vezes nesse meio tempo com nomes célebres da literatura anglo-saxã, e acaba servindo de vetor para algumas críticas e paródias da autora a respeito do mundo literário, muitas delas ainda bastante atuais oitenta anos depois.

O significado que mais salta aos olhos na leitura, no entanto, é certamente a questão dos sexos. Como já comentado, Orlando nasce homem e transforma-se em mulher durante a narrativa, aproximadamente no meio da história. A androginia também é constante nos outros personagens, do arquiduque que passa metade do livro cortejando-o (e -a) até a apresentação de Shelmerdine, que eventualmente se torna o seu marido. Isso reflete em parte a própria história pessoal de Virginia, seu envolvimento com o feminismo e outras mulheres da sua época (a personagem Orlando, inclusive, foi baseada em uma das suas amantes), e serve para que ela discorra, a partir das experiências do(a) protagonista, sobre as diferenças entre os gêneros e as visões correntes sobre o seu papel social, sempre de forma irônica e profundamente crítica. Destaque para algumas passagens como a de Orlando aprendendo a ser mulher depois de anos vividos como homem, ou os seus encontros com o futuro marido e as confusões e dúvidas a respeito do sexo de ambos.

Virginia também possui um estilo bem característico, de frases e parágrafos longos, muitas vezes se estendendo por várias páginas. Poucas vezes chegam a ser cansativos, no entanto, em grande parte devido à natureza das descrições, notavelmente impressionistas – há sempre uma profusão de cores e sensações, lembrando por vezes uma pintura de van Gogh ou Gaugin, onde a representação fiel da realidade é um objetivo apenas secundário. Apenas mais para o final, acredito, elas passem um pouco do ponto, e o que era colorido e vívido nos primeiros capítulos acaba ficando massivo e exagerado.

Em todo caso, Orlando é um livro bastante interessante, pelo seu personagem-título e todas as reflexões a respeito dos gêneros e indivíduos na história, além da sua aula de estilo e prosa impressionistas.

About these ads

7 Responses to “Orlando”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 16/11/2011 às 12:29

    Como não morrer de orgulho e satisfação ao ler uma resenha tão boa quanto essa? Sem mais a adicionar =***

  2. 2 Di Benedetto 16/11/2011 às 12:39

    “Virginia também possui um estilo bem característico, de frases e parágrafos longos, muitas vezes se estendendo por várias páginas. ”

    Não questiono a importância da autora, ou até mesmo do livro, mas deve ser por isso que achei extremamente BORING e não consegui acabar de ler. =/

  3. 3 Di Benedetto 16/11/2011 às 12:43

    No entanto gosto muito do filme “As Horas”, também baseado num romance dele. =)

  4. 5 Bruno 16/11/2011 às 12:50

    E olha que Orlando é considerado o livro mais “fácil” e acessível dela =P

    Mas não sei, pra mim eu acho que o estilo impressionista dela acabou compensando por esses parágrafos e frases longas. Eu ia lendo e lendo e de repente eu já tinha avançado quatro ou cinco páginas quase sem perceber =P Só no final que realmente começou a ficar cansativo mesmo, talvez por já estar mais acostumado e o estilo dela já não me impressionar tanto quanto no início.


  1. 1 A Liga Extraordinária – Século: 1969 « Rodapé do Horizonte Trackback em 21/11/2011 às 13:15
  2. 2 The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier « Rodapé do Horizonte Trackback em 26/06/2012 às 03:28

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

@bschlatter

Estatísticas

  • 163,783 visitas

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: