Arquivo de dezembro \22\UTC 2011

A Morte das Utopias, parte 2

Antes de mais nada, o título não faz referência a qualquer outro texto aqui do blog ou que eu tenha publicado em outro lugar. É só uma mania de alguns ideólogos mais exaltados de, sempre que a oportunidade surge, anunciar a “morte de uma utopia.” Isso aconteceu bastante desde 1991, por exemplo, quando muitos anunciavam a morte da utopia comunista, o fim das esquerdas, o Fim da História, e derivados.

Pois bem. Quem acompanha o noticiário internacional pode vir a imaginar que está tudo acontecendo novamente – é só ver a quantidade de editoriais e comentários sobre a última crise financeira, anunciando o fim do capitalismo especulativo, do neoliberalismo e da sociedade ocidental como nós a conhecemos. Estaríamos vivendo a morte de outra utopia? Sim, pois utopias certamente não são exclusividades da esquerda – a direita tem todo o direito (com o perdão do trocadilho) às suas também, desde o liberalismo clássico do fim do século XVIII até o começo do XX, até o neoliberalismo autoritário de tempos mais modernos (e recomendo muito um texto do Perry Anderson, Balanço do Neoliberalismo, para quem quiser saber as diferenças entre eles, e porque é possível sim ser neoliberal e autoritário sem cair em qualquer contradição de termos).

Acho que nada ilustra melhor essa situação do que o cai-não-cai que vive a zona do Euro atualmente. Já li prognósticos de que a moeda seria abandonada pela maioria dos países um mês atrás, e outros que anunciam a sua derrocada para a semana que vem. Pacotes prometem a sua recuperação instantânea, apenas para serem substituídos por novas soluções milagrosas na semana seguinte. Não sou analista econômico, enfim, e não sei dizer quais são as possibilidades reais dele sobreviver ou não; poderia apostar em um ou outro com a mesma probabilidade de acerto, do meu ponto de vista semi-leigo. Sou, no entanto, um historiador, e acho que posso tentar buscar o significado dessa situação de um ponto de vista histórico mais amplo.

Pra quem não sabe, a hoje grandiosa União Europeia, com seus quase trinta Estados membros, começou de maneira bem mais tímida e sutil. Sua origem está Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, criada pelo Tratado de Paris em 1951, e tendo como fundadores a (então) Alemanha Ocidental, França, Itália, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo. Mais tarde, em 1957, o CECA daria origem à Comunidade Econômica Européia, que reuniria mais e mais membros ao longo dos anos, até se converter na atual UE.

Parem um pouco e pensem a respeito. Em especial, sobre dois dos seus membros fundadores – a Alemanha e a França. Ambos estiveram no centro dos dois maiores conflitos da história recente, possivelmente mesmo de toda a história da humanidade; a Primeira e Segunda Guerra Mundiais. Mais: o acordo visava justamente a regulação do seu principal ponto de divergência, as indústrias do carvão e do aço, especialmente proeminentes nas províncias francesas de Alsácia e Lorena, e que são fundamentais para o desenvolvimento industrial de qualquer país. Com apenas uma assinatura, um dos maiores focos de tensão da Europa ocidental desde fins do século XIX, quando a unificação alemã se completou com a anexação das duas regiões supracitadas, simplesmente desapareceu.

Cortamos então para o presente, e, novamente, o Euro. Ele é, de certa forma, o pináculo desse movimento de integração, que os leva a dividir, além das suas políticas e economias, a própria moeda; para além disso, só quando (e se, obviamente) as fronteiras forem definitivamente banidas, e os países do continente passarem a se considerar como um só Estado. Do ponto de vista político, e da turbulenta história do continente ao longo dos séculos, trata-se de uma integração especialmente bem-sucedida, talvez a maior e mais significativa desde a pax romana – basta lembrar que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa ocidental simplesmente não teve qualquer conflito armado relevante dentro dos seus limites. (A Europa oriental, é claro, é um caso à parte, e mereceria todo um texto próprio apenas a seu respeito. Em uma outra oportunidade, talvez).

Claro, é também uma integração controversa, que envolve uma série de questões particulares que não podem ser simplesmente ignoradas. É certamente complicado querer integrar sociedades extremamente diversas política e culturalmente. O mais difícil, no entanto, é quando as próprias economias que se quer unificar possuem características e níveis de desenvolvimento tão diferentes.

É isso que fica mais evidente quando se analisa a crise atual, e o impacto que ela possui sobre o Euro. Não vou entrar em detalhes técnicos complicados, que você pode procurar em qualquer análise séria por aí (apenas não se guie pelas da revista (cer)Veja, por favor); mas é fácil perceber que as economias de países como a Grécia ou Portugal simplesmente não estão no mesmo patamar das da Alemanha ou mesmo, vá lá, da França. Isso gera um desnível sério no poder econômico de cada um deles, o que leva a uma necessidade de ajuda financeira para pagar as dívidas e cumprir os contratos firmados dos Estados mais fracos, o que por sua leva a todos esses pacotes de medidas de austeridade financeira que incluem, entre outras coisas, uma série de cortes pesados nos benefícios sociais dos cidadãos (o sonho molhado de todo analista neoliberal), além de uma entrega maior de soberiana a órgãos internacionais, como o Banco Central Europeu e o FMI. Há quem diga mesmo que a Alemanha, depois de anos tentando conquistar a Europa pela via militar, finalmente conseguiu, através da economia e sem disparar um tiro sequer…

Por mais que sejam análises válidas e coerentes, no entanto, existe uma coisa que me incomoda profundamente nessa visão e aqueles que a defendem. Falo da forma como muitos parecem encarar um iminente fim do Euro como uma vitória gloriosa, e agouram com todas as forças para que ele ocorra o mais rápido possível. Parecem encarar a moeda e a própria União Européia como meros artifícios da farsa neoliberal, que nos convenceu pelos meios de difusão da sua ideologia como indispensáveis para a prosperidade das sociedades humanas, louvada seja Nossa Senhora Ayn Rand dos Últimos Dias. Esquecem, enfim, do próprio significado histórico da UE, e o seu papel em um continente marcado durante pelo menos dois mil anos por infindáveis guerras, massacres e genocídios.

Pra resumir, simplesmente não sei dizer se o Euro está mesmo fadado a desaparecer ou não. Tanta gente diz que sim, tanta gente diz que não, e eu aqui no meio, com meus livrinhos do Edward Thompson e do Eric Hobsbawn tentando decidir por uma posição… Se vier a acontecer, no entanto, acho que, mais do que tudo, mais do que um cair de máscaras ou uma vitória gloriosa da Quarta (ou Quinta ou Sexta) Internacional Comunista, será mesmo o fim de uma utopia. Você pode concordar com ela ou não, pode achá-la inviável, impraticável, indesejável, injustificável… Mas não dá pra não sentir um certo pesar sempre que morre uma utopia.

Só uma coisinha…

Ainda to meio embasbacado com esse vídeo. Ele meio que resume tudo o que eu penso sobre música, exposto aí na minha dúzia de posts sobre blues, entre outras coisas. Aquela velha história da música erudita, técnica e “fria” contra a espontaneidade da que vem diretamente do povo e das pessoas comuns, sem outros compromissos além de tocar e ter prazer tocando. Enfim, é o tipo de coisa que eu não consigo não compartilhar…

Noel Gallagher’s High Flying Birds

Todos já devem saber, é claro, mas o Oasis, uma das últimas realmente grandes bandas de rock britânicas (e mesmo mundial), acabou faz algum tempo. Na divisão de bens entre os irmãos Gallagher, o Liam ficou com a banda, e anunciou já pouco tempo depois o surgimento do grupo Beady Eye, cujo primeiro disco, Different Gear, Still Speeding, eu já resenhei por estas bandas. E o Noel… Bem, o Noel ficou com o próprio nome, já que era reconhecidamente o compositor de todos os principais hits do grupo.

Como eu comentei no texto anterior, o Beady Eye em certo sentido continuou o mesmo tipo de som que o Oasis vinha fazendo nos seus últimos discos. Se você gostava do barulho e da energia roqueira intensa que eles tinham em músicas como Lyla ou The Shock of the Lighting, ou mesmo, vá lá, aquele pseudo-messianismo do Liam em Guess God Thinks I’m Abel e I’m Outta Time, é a sua banda. Já o Noel continuou com a outra parte desse som – representado nas músicas que ele próprio cantava nesses últimos discos, como The Importance of Being Idle, Waiting for Rapture ou Falling Down, que se destacavam mais pelos arranjos maduros e melodias cuidadosas do que simplesmente pelo barulho e distorções de guitarras. Qualquer destas músicas poderia estar tranquilamente em Noel Gallagher’s High Flying Birds, lançado no último mês, e não estariam de qualquer forma deslocadas.

O disco é composto por apenas dez canções, mas são mais do que o suficiente pra ele demonstrar quem era o talento verdadeiro por trás do Oasis (não que a maioria dos fãs tivesse qualquer dúvida, é claro). Com uma pegada mais pro lado do folk do que o rock propriamente dito, com direito a bases de violões mesmo nas músicas mais agitadas, ele se destaca pelos arranjos criativos e diversos, que praticamente não se repetem. Há espaço mesmo para um náipe de metais e instrumentos inusitados como o serrote musical e taças de cristal. Para os mais tradicionalistas, o uso de uma orquestra de cordas também está perfeito, passando longe do kitsch para deixar músicas como Everybody’s on the Run e (I Wanna Live in a Dream) In My Record Machine com ares épicos.

Por trás de tudo, é claro, está principalmente o talento do Noel de criar melodias e refrões, notável desde os tempos de Cigarettes & Alcohol e Wonderwall. É fácil imaginer os refrões de Everybody’s on the Run e (I Wanna Live in a Dream) In My Record Machine cantados em coro por um estádio de futebol lotado (sim, novamente as duas; preciso dizer quais foram as minhas faixas favoritas?). Dream On, The Death of You and Me, AKA… Broken Arrow e (Stranded on) the Wrong Beach são outros pontos altos, com aquelas melodias gostosas que nos dão vontade cantar junto já na primeira ouvida.

Pra não dizer que o disco é perfeito, enfim, duas das faixas estão um pouco abaixo da qualidade das demais, na minha opinião. A primeira é justamente a primeira música de trabalho, If I Had a Gun, que tem um verso inicial bem bacana (If I had a gun / I’d shoot a hole into the sun / And love would burn this city down for you), mas depois vira uma baladinha romântica genérica cheia de lugares comuns, falando sobre como você é tudo pra mim, e sem você eu não sou nada, e eu sempre te observei andando pela sala… Lembrou os momentos mais sonolentos do Coldplay. E a outra é Stop the Clocks, música já antiga que nunca foi gravada pelo Oasis mas chegou a ser título de uma coletânea de sucessos, e também tem uma melodia chatinha e um arranjo de balada soturna genérica, apesar da aceleração bacana do tempo no fim, no estilo de algumas bandas de rock pesado setentistas, salvar ela pra mim.

Enfim, pra resumir a ópera, Noel Gallagher’s High Flying Birds é um disco muito bacana mesmo, acredito que um dos melhores lançamentos do ano (bom, não é como se eu tivesse acompanhado muitos lançamentos também). É um belo amadurecimento artístico do Noel, passando longe da barulheira genérica na qual o seu irmão mais novo preferiu apostar. Recomendo bastante para os antigos fãs do Oasis, e mesmo quem não gostava muito deles talvez devesse dar ao menos uma chance.

Sobre a Racionalidade do Futebol

Buenas, aproveitando o fim do Campeonato Brasileiro, acho que é um bom momento pra fazer algumas considerações gerais sobre esse formato em que ele é realizado já há quase dez anos, o dos pontos corridos. Quem acompanha futebol certamente já se cansou de ouvir todos os lugares comuns contra e a favor, desde a falta da emoção de uma final até a teórica justiça e maior possibilidade de planejamento do formato de Liga. Como alguém que já passou pelo pior (o rebaixamento) e o melhor (arrancadas heróicas até a zona da Libertadores e mesmo uma disputa pelo título até a última rodada) que o futebol oferece dentro dele, acho que posso dar os meus pitacos a respeito.

Em primeiro lugar, sinceramente, quem ainda fala sobre a falta de emoção de uma final certamente não têm assistido os últimos campeonatos. Uma opinião assim só pode vir de alguém imaginando que o futebol brasileiro é igual ao da Espanha ou Itália, onde há duas ou no máximo três equipes que realmente disputam os títulos. Ignoram que por aqui o campeonato sempre começa com pelo menos doze clubes fazendo discurso de campeão – claro, raramente todos eles de fato tem capacidade de disputá-lo até o fim, mas todos se assumem grandes e tradicionais o bastante para desejar isso no início da temporada, e se não o fizerem correm o risco de enfrentar problemas com a torcida ou flauta dos rivais. As únicas edições em que uma equipe realmente dominou do início ao fim a disputa foram em 2003 e 2007, com Cruzeiro e São Paulo, respectivamente; todas as outras tinham, nas últimas rodadas, ainda três, quatro ou até cinco equipes com possibilidades de serem campeãs. Reclamar da falta de emoção soa de forma muito suspeita como recalque de quem não esteve entre elas.

Enfim, eu acho que uma disputa por pontos corridos pode ser sim bastante emocionante, e os últimos anos não têm exatamente me contradito a esse respeito. É uma fórmula simples e lógica – querem ver qual equipe é a melhor entre um grupo relativamente grande? Jogam todos contra todos, e faz-se uma média dos resultados – e perfeitamente válida. Pra ser ainda mais simples, por anos era padrão mesmo que vitórias valessem 2 pontos e empates 1, o que só foi mudado na década de 1990, pra favorecer as equipes mais ofensivas. E na verdade acredito que historicamente tem sido até uma fórmula mais comum do que os torneios mata-mata – a própria Copa do Mundo já foi disputada por pontos em muitas edições (poucos lembram, mas no famoso maracanazo de 1950 bastava um empate para o Brasil ser campeão).

Claro, não acho que isso invalide também uma disputa de mata-mata. Acho interessante que existam as duas opções: o campeonato longo onde os clubes mais tradicionais jogam o ano inteiro, e uma Copa eliminatória onde mesmo os médios e pequenos tenham alguma chance de se sagrar campeões nacionais. Em outras palavras, exatamente como já é feito na maioria dos países com futebol profissional – sempre há lá a Copa do Rei, Copa da Rainha, Copa da Inglaterra, Copa da Liga… -, e mesmo por aqui, com a nossa Copa do Brasil. Acho interessante a proposta da CBF de aumentar a duração dela, inclusive, e a partir de 2013 realizá-la ao longo de todo o ano; deve ajudar a valorizá-la mais. Pra completar, eu sugeriria inclusive uma última taça da temporada com uma disputa entre o campeão da Copa e o do Campeonato Brasileiro – nos moldes das Super Copas, Super Taças e semelhantes que também existem na Europa.

Em todo o caso, o fato de eu ser um partidário dos pontos corridos também não impede que eu me incomode bastante com alguns argumentos que muitos usam a favor dele. Me incomodo muito com todas essas teses “científicas” sobre planejamento, rotinas, justiça nas regras de disputa… Já falei antes sobre como toda essa racionalização e cientificização do esporte me incomoda, o mesmo tipo de argumento que tenta vender ele como um espetáculo artístico, ignorando tudo o que de fato acontece nas arquibancadas. O futebol, como os esportes de massa em geral, não é racional, não é ciência, e querer transformar ele nisso é tirar justamente o que ele tem de mais atrativo e interessante. Sinceramente não gostaria de ver o nosso futebol transformado em algo como o futebol americano, onde tudo é controlado segundo a segundo, seguindo uma lógica fordista de aproveitamento máximo do tempo, inclusive com intervalos praticamente minuto a minuto para os comerciais; gosto dessa forma caótica e imprevisível que ele tem, onde mesmo um time fraco pode fazer frente a um galáctico com um misto de tática, motivação e mesmo um pouco de jogo de cena e atuação.

Por fim, pra não dizer que eu sou 100% a favor destes últimos campeonatos, uma coisa que eu acho chato realmente é essa história de só entregarem a taça de campeão junto com os prêmios para os melhores jogadores. Vê-los comemorando e levantando os troféus todos limpinhos e bem vestidos com terno e gravata, sinceramente, nem de longe tem o mesmo impacto do Hugo de León levantando a Libertadores da América com a camisa do clube, o cabelo desgrenhado, e uma faixa de sangue escorrendo pelo rosto…


Sob um céu de blues...

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