Sertanejo Blues

Vou falar de um estilo musical cuja origem está no campo, na área rural. Seus músicos são filhos de gente simples, muitas vezes peões e camponeses mesmo, que aprenderam a tocar com parentes, outros músicos errantes, na igreja, ou às vezes sozinhos mesmo. A busca pelo dinheiro e a fama eventualmente os levou à cidade grande, onde começaram suas carreiras tocando em pequenos bares e festas populares. Entre a população proletária mais simples e alguns membros da classe média buscando diversão, conseguiram um sucesso razoável, vendendo grandes quantidades de discos e, posteriormente, chegando às rádios de massas. Músicos inspirados por eles algum tempo depois iriam fazer o mesmo na televisão, conquistando o público jovem e consolidando o estilo de vez no imaginário popular. Nada disso, no entanto, impediu que fossem criticados por suas letras simples, que falavam sobre a vida no campo, situações do cotidiano, ou, mais freqüentemente, sobre as dores do amor e a vida bebendo, fazendo farra e “pegando” mulher. Música séria, afinal, era a que esses críticos ouviam, longas sinfonias com variações rítmicas e cuidado técnico apurado.

De qual estilo estou falando? Do blues de raiz norte-americano, é claro. Mas não se assuste se pensou em outro. A sua história e a dos seus artistas é, de fato, muito parecida com a do nosso sertanejo. Gente do campo, de origem simples, que buscou fugir do trabalho duro em sítios e fazendas indo para cidade grande, tentando a sorte através da música. Alguma diferença significativa, talvez, possa se dar nas suas origens e influências prévias, em especial na influência da música africana sobre o blues, que não me parece tão evidente no sertanejo (e algum especialista sério no assunto pode me corrigir se for o caso) – a nossa influência musical do continente negro está muito mais no samba mesmo, que, pela sua origem urbana e mesmo a posterior transformação em um estilo semierudito, lembra mais o jazz do que o blues propriamente dito. O contexto social e cultural de ambos, no entanto, é sim muito parecido. Ambos são mesmo reconhecidos pela virtuose de alguns de seus praticantes, e até a famosa “dor de cotovelo” das canções sertanejas tem muito em comum com o feeling blue do blues (que também é muitas vezes causado pela rejeição de uma mulher – ou homem, tanto faz).

O ponto em que quero chegar é que muitas vezes, numa ânsia civilizatória tosca e que tem muito de mentalidade colonizada, parece fácil querer desmerecer a nossa música popular só por ser, bem, popular, e ignorar que a própria música que ouvimos na verdade tem origens e premissas muito semelhantes, que nos parecem mais dignas apenas por virem de fora ou terem se originado décadas atrás. Quem ouve Cream, Rolling Stones, Led Zeppelin ou qualquer outro herdeiro dos velhos bluesmen errantes não tem exatamente muita moral para falar mal de quem ouve Michel Teló ou outro dos herdeiros contemporâneos do sertanejo de raiz. Vamos refletir um pouco e admitir: ai, ai, se eu te pego, enquanto letra, não é muito pior do que hey, hey, baby, hey que um Big Bill Broonzy cantava oitenta anos atrás, e que já foi regravado por artistas do cacife do Eric Clapton, por exemplo. E o tal Teló pelo menos ainda tem mais de sertanejo de verdade, com o seu gingado dançante e riffs de acordeão, do que um Luan Santana, de quem eu já falei um tanto anteriormente.

É bom, enfim, tentar ver as coisas de uma perspectiva histórica, de longa duração, e se dar conta de que esse tipo de crítica não passa mesmo de um preconceito tosco, o mesmo que tanto se desdenhava da high society WASP norte-americana de sessenta anos atrás, por não entender os méritos do rock derivado do blues enquanto movimento social e cultural. É claro que ninguém é obrigado a gostar da música do rapaz, e eu mesmo não sou exatamente um fã, embora já tenha me pego cantarolando ela inocentemente algumas vezes… Mas dar chiliques por causa dele ser capa de revista é um pouco de recalque demais, a meu ver. Goste ou não, ele é sim um fato cultural relevante dessa temporada, desses que geralmente são esquecidos até o fim do ano – ou não, é claro, nunca se pode prever com certeza. E vocês podem mesmo estar falando mal do nosso Elvis – ok, ok, compará-lo ao Rei é exagero sensacionalista meu, no nível desses que são feitos por revistas semanais; mas pelo menos o nosso Bill Haley da vez ele pode muito bem ser sim.

16 Responses to “Sertanejo Blues”


  1. 1 Cirilo S. Lemos 06/01/2012 às 21:08

    Só acho que dizer que uma música (de qualquer um, de Villa-Lobos a Bonde do Tigrão) traduz toda uma cultura é forçação de barra da Época.

    • 2 Bruno 06/01/2012 às 21:19

      Bom, de um jeito ou de outro, ele é sim um decalque de uma determinada cultura popular atualizada, bem como diz na capa… (dizer “a” cultura popular, como se ela fosse única, é um exagero típico desse tipo de revista…). Se é uma tradução eficiente dessa cultura talvez sejam outros quinhentos, mas não dá pra negar que ele de fato tem atingido várias camadas sociais.

  2. 3 Cirilo S. Lemos 06/01/2012 às 21:32

    Toda a cultura popular foi mesmo um exagero tremendo dos caras. De uma “determinada cultura popular atualizada”, conforme você propôs, já haveria um recorte mais compreensível. De acordo. Enfim, que cada um curta seu som preferido, independente de juízo de valor. Legal ver você usando referenciais teóricos como a longa duração pra falar de música e literatura. Abração. \o/

  3. 5 anachan2010 06/01/2012 às 22:21

    O problema mesmo é isso de ‘traduz os valores da cultura popular para brasileiros de todas as classes’, como se isso fosse o representante definitivo da cultura popular. -ahn?
    E outra, todos os clássicos do rock citados são isso, clássicos. Será que a música de 2 frases do Teló e de todos esses sertanejos universitários da moda vai sobreviver até o próximo verão, como você mesmo disse? Eles vão ter algum mérito musical a acrescenter musicalidade brasileira? Acho muito cedo pra dizer e endeusar desse jeito.
    E eu revirei os olhos quando vi a capa, sim. =P Qualquer coisa que a gente tenha que engolir forçosamente como ‘legal’ é irritante, e a mídia é especialista nisso.

    • 6 Bruno 06/01/2012 às 22:37

      Bom, a mídia fala do que dá ibope. Ninguém tem que engolir ele como o legal definitivo, mas um pouco de respeito por uma tradição cultural diferente da nossa nunca é demais.

  4. 7 Anisio Franco Camara 07/01/2012 às 11:25

    Eu sempre vi o samba como o correspondente do blues americano, aquele monte de negão enchendo a cara (One Bourbon, One Scotch, One Beer) e cantando e tocando machezas (I’m A Man) e etc…
    Mas o pararelo está bem feito. O que eu gosto mais no texto é que tem gente que acha que tem bom gosto musical e citou até a fraquíssima Legião Urbana como comparação.
    Eu não tenho vergonha nenhuma de gostar de Ramones, que é a simplicidade in natura e não gostar da Legião Urbana, que tem músicas toscas, mas eram pretensiosos pra cacete!

  5. 8 Paulo 08/01/2012 às 16:48

    Falar que moda de viola, catira e etc é parecido com o blues eu concordo plenamente, até no extensivo uso de cordas, muitas vezes com diferentes afinações, o ponteado da viola é irmão do improviso no violão ou gaita do blues.
    No sertanejo de raíz as letras havia o cuidado com as palavras, ainda que simples no vocabulário, o sentimento q o cara põe nas letras.. No blues tbm as letras tem muito sentimento. Grande parte das letras de blues falam sobre questões existenciais, ou religiosas, ou de um amor perdido (como todas as musicas do mundo).
    Agora o sertanojo q toca hj em dia não tem nada a ver, é um produto feito pelas gravadoras para baladinha, pro cara ouvir no carro no ultimo volume e pegar mulher, com boyzinhos do campo tocando.. o grande mote do blues é o improviso, a simplicidade e a habilidade de quem toca e canta, e colocar esse sentimento no improviso e na voz.

    O rock nasceu do blues e evoluiu, o sertanejo universitário dos dias atuais (ressalvas a duplas boas como Cesar Menotti e Fabiano) saiu do sertanejo e virou um negócio horrível, e não música de qualidade.. Eu só traçaria um paralelo desse tipo de manifestação musical com o que ocorre nos EUA com o pop hoje em dia, com seus representantes Akon, Britney Spears e etc..

    • 9 Bruno 08/01/2012 às 17:47

      Mas não dava pra falar a mesma coisa do Bill Haley, mesmo de um Elvis ou dos Beatles dos primeiros anos? Rock Around the Clock e Love Me Do não são exatamente grandes primores de poética existencialista. Não que eu ache que algum dia o Michel Teló vá gravar qualquer coisa parecida com um Yesterday ou I Am the Walrus, mas o paralelo do preconceito contra a música dele é válido do mesmo jeito. Toda geração sempre teve o seu pop bobinho pra animar festas adolescentes, visto pelos seus pais como símbolo da decadência dos valores tradicionais. O de hoje não é tão diferente assim do de cinqüenta anos atrás. E pra cada Nobody Knows When You’re Down and Out do blues, há outros tantos Hey Heys por aí, que não deixam também de ter o seu valor por isso.

  6. 10 Clarissa 08/01/2012 às 23:29

    eu posso estar enganada, mas Michel Teló não acrescentou nada na música brasileira e nem sequer vai virar referência daqui uns 10 anos para outros músicos. eu não vou achar a música dele boa e não critica-la só pq ele veio de família humilde como Big Bill Broonzy; ou pq a música dele faz sucesso como fez Love me DO nos anos 60. essa comparação foi desnecessária.

    • 11 Bruno 09/01/2012 às 09:58

      Ninguém precisa gostar dele, e eu não acho também que ele vá virar referência musical daqui a dez anos. Mas só esperando esses dez anos passarem pra saber realmente, claro. O que eu prego só é o respeito pela música e o trabalho dele, independente de se gostar ou não. A comparação que eu fiz foi só pra mostrar que, no fundo, a música que a gente ouve não tem origens tão diferentes assim.

  7. 12 aliceerrada 09/01/2012 às 00:00

    A música não é boa, não tem uma letra genial. Mas foi feita para balada, para ser divertido e até boba, para as pessoas se divertirem. Não defendo a música dele. Não ouviria na minha casa nem no MP3. O preconceito e a “revolta” que se criou no próprio brasileiro só porque a música é popular que é feio demais, exagerado demais.

    Enquanto isso ele ganha dinheiro sem agredir moralmente ninguém, vulgo é o tchan há 10 anos com o “rema ordinária!”. Não dá pra saber se daqui 10 anos ele vai ser referência para outros músicos. É tão relativo quanto ele fazer uma música boa amanhã.

  8. 13 Ana Carolina Silveira 09/01/2012 às 19:33

    Tava refletindo sobre o assunto antes de deixar minha opinião. Primeiro, concordo completamente com seu texto. Segundo, radicalismos pra vender revista à parte (e reduzir toda “cultura nacional” a Michel Teló, a sertanejo, a futebol, a samba, a novela, ao raio-que-o-parta é de um reducionismo errôneo e emburrecedor), o que acho que mais doeu foi mesmo o preconceito. Foi virar para o classe-média urbano nerd ou playboy e falar que ele faz parte da mesma cultura que gerou Michel Teló (o que é demais para uma mente colonizada ou para aquele complexo de vira-lata que entende que tudo que é brasileiro é necessariamente ruim).
    A música é um primor de composição e lírica? Não. Mas agradou. Até em comparação com as músicas de verão dos últimos cinco anos, é a melhorzinha.- ou menos piorzinha, se preferirem assim…

  9. 14 Lucas 13/01/2012 às 11:36

    Ótimo artigo.
    Eu não sou fã dele, mas respeito e até admiro o sucesso que ele está fazendo atualmente. O texto me pegou no ponto fraco porque sou muito fã de blues heheh À luz da comparação feita, fica mais fácil perceber que o preconceito e a mente fechada prejudicam muito não só a música, mas a própria cultura. Afinal, queiramos ou não, Michel Teló de certa forma acabou fazendo parte da nossa cultura, pelo menos atualmente. Se vai durar ou não, não sei, mas bem que podia aparecer um roqueiro ou um blueseiro aqui no Brasil pra substituir ele. =)


  1. 1 Rolando e Tombando | Rodapé do Horizonte Trackback em 25/12/2013 às 20:24
  2. 2 Cowboys do Asfalto | Rodapé do Horizonte Trackback em 07/09/2015 às 21:26

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