Dandelion Wine

Então passou o natal, passou o ano novo, e estamos oficialmente nas férias de verão. Tecnicamente ela já começou antes disso, eu sei, mas na prática é agora que ela começa a ser o assunto da vez – basta ver a publicidade, programas de televisão e blogs em geral: este é o momento da profusão de especiais temáticos sobre praia, mar, biquínis… Pra não ficar para trás na tendência, uma pequena resenha daquele que considero um dos melhores livros sobre esta estação, Dandelion Wine, do mestre Ray Bradbury.

O livro tem como protagonistas os irmãos Douglas e Tom Spaulding na cidade fictícia de Green Town, inspirada na cidade natal do autor, Waukegan, no estado norte-americano do Illinois. A cidade e os personagens também estão presentes em outros livros dele, Something Wicked This Way Comes e Farewell, Summer, que fecham a chamada “trilogia de Green Town.” No caso, este primeiro volume começa no início do verão de 1928 – que nos Estados Unidos, é sempre bom lembrar, ocorre entre junho e agosto, e não entre dezembro e fevereiro -, quando Douglas, aos treze anos, tem uma epifania sobre o significado da sua vida. Motivado por isso, ele decide registrar junto com o irmão todas as sensações, acontecimentos e descobertas que ocorrerem durante a estação.

A partir daí ele se desenvolve como um típico romance fix-up, formado menos por uma linha narrativa única do que por várias histórias semi-independentes, unidas por pequenos capítulos em que os irmãos conversam entre si e refletem a respeito dos seus acontecimentos – pense em algo como o outro clássico do autor, As Crônicas Marcianas, ou mesmo no brasileiro Neon Azul. Muitos dos contos inclusive já haviam sido publicados anteriormente à sua reunião neste volume, em revistas literárias e afins. Os próprios irmãos geralmente são apenas coadjuvantes nas histórias contadas, que versam muito mais sobre os outros habitantes e situações da cidade; o resultado final, assim, é menos uma única história com início, meio e fim do que um grande panorama geral sobre ela, seus personagens e suas peculiaridades. Temos lá um relojoeiro que quer construir uma máquina de felicidade, e acaba pondo em risco a sua própria no processo; uma máquina do tempo um tanto peculiar e única; uma despedida dolorosa; um misterioso assassino de jovens mulheres que ronda as suas noites; e outros tantos contos únicos e envolventes.

Acho que posso confessar aqui minha fanboyzice com Bradbury, que considero o melhor dos autores clássicos de ficção científica, e, como já discorri em outro momento, um dos poucos cujas histórias conseguem se manter atuais e cativantes mesmo décadas depois. E ele é também um dos melhores autores quando o assunto é a nostalgia da infância – a sua escrita é cheia de sensações e descrições impressionistas, por vezes quase como poesias em prosa. Frente às epifanias de Douglas e a inocência de Tom, é difícil não ser transportado de volta para a nossa própria infância, e as nossas primeiras descobertas sobre a vida, a morte e tudo o que acontece entre elas.

O que outros fãs do autor devem estranhar, no entanto, é o relativo realismo das histórias. Há lá alguns pequenos elementos de fantasia, uma máquina impressionante aqui, uma suposta bruxa acolá, uma certa referência a reencarnações em um dos contos mais tocantes do volume; mas é muito mais o fantástico no sentido todoroviano, onde há essa hesitações entre o maravilhoso de fato e o real, e você nunca pode ter certeza de que ele está lá realmente e não é apenas uma impressão passada pelo ponto de vista dos personagens. O que não impede, é claro, que que o livro seja vendido na sessão de ficção científica das livrarias, apenas por ser escrito por Ray Bradbury…

Em todo caso, Dandelion Wine é uma leitura única e envolvente, que eu recomendo facilmente para fãs do autor, ou apenas de boas histórias e boa literatura mesmo.

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Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • @NinaHobbit @alvarofritas ...espero que seja nojo no bom sentido (se é que tem um) :P 6 hours ago
  • @anacarolinars Sinta-se velho, veja como estão os irmãos Gallagher hoje em dia... 6 hours ago
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