Ação Magazine #1

Quem acompanha ou já acompanhou em algum momento o “mundo” dos mangás e animes do Brasil, provavelmente já deve ter cruzado ao menos uma vez com o nome do desenhista, roteirista e tradutor Alex Lancaster. Ele já escreveu colunas para o portal Anime Pro, e atualmente o faz no blog Maximum Cosmo, conhecido por seus textos longos (ok… Muito longos) e aprofundados sobre o mundo dos quadrinhos e animação japoneses, repletos de referências e informação. Recomendo uma olhada no trabalho do cara, se não pela qualidade, simplesmente porque se pode ver que é um trabalho feito com gosto e paixão, daqueles que dá até um pouco de inveja por não conseguir se dedicar a nada com o mesmo afinco e vontade.

Uma das questões que ele freqüentemente toca, em todo caso, é no dos mangás (e, de maneira mais ampla, dos quadrinhos como um todo) brasileiros, feito por e para o público de terras tupiniquins. Para quem o lê há algum tempo, é fácil ver que a Ação Magazine, mais do que apenas um projeto comercial, tem ares mesmo da realização de um sonho, e de algo em que, acima de tudo, ele realmente acredita e se esforça para que dê certo.

Aqui acho que posso abrir um pequeno parênteses, e falar um pouco do meu ceticismo pessoal sobre o projeto. Para quem não sabe, a Ação tem o formato de um almanaque de histórias, seguindo o modelo da Shonen Jump, Shonen Ace e outros tantos que, por décadas, foram a origem das principais séries de quadrinhos e animação japoneses. Tais almanaques em geral são grossos, com páginas contadas na base das centenas, são vendidos por preços irrisórios (algo em torno de R$4, ou não muito mais do que isso) e contam com capítulos dispersos de diversas séries – na verdade, ela funciona muito mais como publicidade, para divulgar as séries que depois são reunidas em formatos muito mais luxuosos (e consequentemente caros), os famigerados tankohons.

É inegável que esse modelo funcionou muito bem por diversas décadas no Japão, e o transformou na grande meca dos quadrinhos que ele foi por um bom tempo… Só que nós estamos no Brasil. Não sei dizer até que ponto o público mais amplo por aqui, que permitiria a uma idéia assim se sustentar, de fato abraçaria esse formato. Pelo menos quanto a quadrinhos de massas, esses vendidos em bancas de revista mesmo (porque, como sempre, os quadrinhos de luxo para livrarias são um caso à parte), em geral sempre me pareceu dar muito mais certo o formato de séries fixas, com um grande nome no título para chamar a atenção, e várias histórias dos mesmos personagens incluídas – pensem nos gibis tradicionais da Turma da Mônica e Disney, e até na forma como os comics de super-heróis norte-americanos sempre foram vendidos por aqui.

Mas enfim, ceticismos à parte (e não é como se eu fosse um grande estudioso ou entendido do assunto mesmo), isso não é razão para não reconhecer a coragem do projeto, e mesmo torcer bastante para eu queimar a língua e ele dar certo. É uma idéia que merece sim um voto de confiança, e uma análise cuidadosa dos seus resultados de fato.

Este primeiro volume, assim, contém o capítulo-piloto de três séries. A primeira delas é Madenka, de Will Walbr, e é certamente a mais promissora. Pelo que pude entender desta primeira história, trata-se de uma série de aventura bem ao estilo shonen, com influências evidentes de Akira Toriyama – há lá desde os combates épicos até os animais falantes. Some a isso ainda um protagonista carismático e cabeça dura à lá Naruto e um uso muito criativo e bem executado da cultura brasileira na construção do cenário, fugindo do pedantismo típico de outras histórias que tentam seguir por este lado. Talvez o seu desenvolvimento seja um pouco apressado e mal resolvido em alguns pontos, mas isso não a impediu de me cativar e deixar curioso sobre a sua continuidade.

A segunda série se chama Jairo, é escrita por Michele Lys e Renato Csar com desenhos de Altair Messias, e trata da história de um adolescente praticante de boxe com o sonho de disputar as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016. Pelo próprio tema, é impossível não compará-la de cara com Hajime no Ippo – mesmo o traço e aparência dos personagens lembram um pouco a magnum opus de George Morikawa. Isso posto, no entanto, ela é bastante bem feita e tem qualidades próprias. Seus personagens são carismáticos, e os autores tem um bom domínio narrativo. Se conseguir superar a sombra da sua óbvia inspiração, há potencial para ser uma série bastante interessante. (Por outro lado, se a idéia era incluir uma história sobre combates esportivos, me peguei me perguntando se não seria mais interessante comercialmente, além de mais original, que ela fosse sobre o MMA e o UFC. Mas apenas um devaneio aleatório meu, é claro, que não invalida em nada a escolha feita.)

Por fim, Tunados, de Maurílio DNA e Victor Strang, é a série mais fraca apresentada nesta edição. Não só há também uma sombra evidente de outra série famosa sobre ela – no caso, o mangá/anime de rachas urbanos Initial D -, como a história em si não empolga, e o próprio traço deixa um tanto a desejar, lembrando um pouco o tanto de mangás nacionais genéricos que tentaram fazer sucesso nos últimos dez ou quinze anos. Claro, nada impede ela de se desenvolver bem a partir daí e se tornar mais original e interessante, mas a impressão passada por este primeiro capítulo realmente não foi das melhores, em especial se comparada com a qualidade das outras duas.

Além das três histórias, a revista conta ainda com diversos artigos sobre a cultura pop de maneira geral, incluindo, nesta edição, a história dos hackers, novidades do mundo dos games e gadgets eletrônicos, e sugestões de livros de literatura fantástica nacional (assinado inclusive pela nossa amiga aqui do blog Ana Carolina Silveira, que também mantém blog literário Leitura Escrita). Pessoalmente, achei alguns dos artigos mal diagramados, em especial o sobre literatura, que parece ter as capas dos livros simplesmente jogadas pelas páginas. O conteúdo dos textos, no entanto, é muito bem escrito e interessante.

A Ação Magazine, enfim, é, apesar de tudo, um lançamento bem interessante e promissor, até pela quantidade de conteúdo que se conseguiu reunir com um preço muito convidativo (R$ 9,90, para ser mais exato). Merece sim um voto de confiança, além da torcida sincera pelo seu sucesso.

3 Responses to “Ação Magazine #1”


  1. 1 Alexandre 02/02/2012 às 00:12

    Obrigado pela confiança. Estamos nos esforçando pelo melhor.🙂

  2. 2 SOD Master Rafael Klauz† 02/02/2012 às 00:49

    Eu adorei esta revista, todas as séries apresentadas me fez ficar muito interessado!
    O que está deixando a desejar é o seu pontualismo, a 1º edição é do mês de setembro/2012, e foi chegar as bancas uns meses depois, e até agora a 2º edição está disponível só na internet… Assim fica muito difícil conseguir mídia. Sem falar também do site, que está beeeem desatualizado! Por favor Lancaster, melhora isso aê cara, por favor!!!


  1. 1 Brigada Ligeira Estelar | Rodapé do Horizonte Trackback em 08/08/2013 às 23:06

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