Gravity’s Rainbow

Na edição pocket de The Atrocity Archives, Charles Stross incluiu também um pequeno ensaio sobre a literatura de espionagem, falando de como ela, na visão dele, consistia em uma forma muito particular de literatura de terror. Segundo argumenta, todos os seus elementos típicos que para nós hoje parecem caricatos e exagerados – o medo de uma guerra nuclear, a paranóia anti-comunista – eram então levados muito a sério, pois as pessoas realmente acreditavam que eles eram passíveis de acontecer em um futuro nem tão distante assim. O que me lembra também algumas conversas com a minha avó, e a dificuldade dela em aceitar que não havia de fato uma ameaça comunista real quando do golpe militar de 1964, a despeito do que os jornais e os militares golpistas tentavam propagar.

Em todo caso, acho que Gravity’s Rainbow (ou O Arco-Íris da Gravidade, na edição nacional da Cia. das Letras), a magnum opus do escritor norte-americano Thomas Pynchon, ilustra muito bem essa idéia. Escrita no espírito transgressor da contracultura norte-americana, é uma obra que exala paranóia por praticamente todos os seus caracteres. Ela está lá no culto quase religioso e repleto de motivos fálicos e sexuais a um míssil experimental do exército nazista, e também na forma como os personagens constantemente se vêem em meio a conspirações e tramas muito maiores do que eles mesmos. Pynchon descreve um mundo onde não há coincidências, onde nada é o que é por acaso, e Eles o espreitam a cada movimento que faz, não importa o quão cuidadosamente você tente fugir da Sua vista.

O personagem principal da história – se é que podemos nomear apenas um entre mais de quatrocentos protagonistas, antagonistas e coadjuvantes – é Tyrone Slothrop, oficial norte-americano servindo em Londres durante os últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Um fato curioso a seu respeito faz com que uma série de agências governamentais subitamente se interesse por ele – por algum motivo, os últimos mísseis nazistas disparados contra a capital britânica caem sempre em locais onde, alguns dias antes, Slothrop teve alguma suposta aventura sexual. A perseguição que ele sofre a partir de então irá levá-lo investigar detalhes suprimidos de seu passado em uma aventura picaresca pela Alemanha destruída após a guerra, que só consigo descrever adequadamente como alguma coisa entre O Resgate do Soldado Ryan, Rocketeer, as histórias de James Bond, a fábula infantil de João e Maria, e os filmes de Cheech & Chong.

Não se engane, no entanto, pela sinopse que beira o absurdo. Pynchon é sim um escritor do nonsense, que pontua suas histórias com situações surreais e recheadas de humor negro, mas o faz entre momentos de profunda tensão e horror. Uma perseguição por soldados russos cantando limeriques pornográficos pode ser seguida por uma descrição extremamente gráfica de sexo sadomasoquista. Entre uma ereção nasal e a história de uma lâmpada com pretensões totalitárias, você se perderá entre longos discursos sobre psicologia pavloviana, teorias estatísticas, cinema alemão, física de mísseis nucleares, história política e econômica da Europa, Tarot, ocultismo, e tantos outros tópicos que você logo começa a entender a paranóia megalomaníaca dos personagens, perdidos em meio a tantas tramas e tantas coisas acontecendo simultaneamente.

O livro também é conhecido pela sua linguagem, que transgride praticamente todas as normas e convenções sobre a prosa literária. Um amigo me descreveu Pynchon uma vez como uma criança hiperativa querendo contar a história de todos os seus brinquedos ao mesmo tempo, e acho que esta é uma descrição bem acurada. A narrativa é constantemente digressiva, saindo do seu presente para narrar flashbacks dentro de flashbacks, estendendo-se por longos parágrafos em uma única metáfora, ou apenas para contar uma anedota sobre um novo personagem recém introduzido. Constantemente a própria prosa é interrompida por pequenos poemas ou músicas escritas pelo autor, algumas vezes até mesmo acompanhada por um número musical – sim, é praticamente como se você estivesse lendo um musical hollywoodiano. Isso o torna uma leitura bastante difícil e que tomará um bocado de tempo para ser concluída, uma vez que é fácil se perder e começar a divagar sobre os outros assuntos, forçando você a voltar diversas páginas para recapitular o que deveria estar acontecendo na história.

Mas é também uma leitura bastante recompensadora uma vez que você passe por essa dificuldade inicial. O roteiro é envolvente e profundamente bem construído e amarrado, repleto de referências históricas e à cultura popular; os personagens são cativantes e únicos, cada um mais bizarro e interessante do que o anterior; e a obra como um todo é intensa e fascinante como poucas que li recentemente. É uma verdadeira experiência literária, obrigatória para quem quiser entender a literatura norte-americana contemporânea.

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