O Fim da Arte

Então, dia desses, em um desses RTs aleatórios do Twitter (me sigam lá se quiserem), eu me deparei com essa foto aí do lado. Para quem não sabe, é um anúncio publicitário da década de 1930, em que músicos profissionais protestavam contra uma nova tecnologia que, segundo acreditavam, estava ameaçando o seu ganha-pão: os discos gravados. Sim, pois é – os nossos bom e velhos LPs e CDs produzidos em massa.

É claro que é impossível não comparar o tom do anúncio com todas as campanhas anti-pirataria que pipocam por aí, além dos SOPAs, PIPAs, ACTAs e semelhantes que tentam dar uma última sobrevida ao negócio das grandes gravadoras, entre outras indústrias ameaçadas pelo compartilhamento de arquivos (em especial a do cinema). Pois, vejam só, elas próprias já foram vítimas das mesmas campanhas, alguns oitenta anos atrás!

O que falta, como sempre, é uma perspectiva histórica sobre o assunto. Quando tentam anunciar o apocalipse da música como conhecemos, o fim dos artistas profissionais, a quebra das rádios e qualquer coisa parecida, esquecem que nada disso sequer é muito antigo de qualquer forma. O primeiro disco gravado vendido comercialmente se não me engano é ainda do começo do século XX, e o primeiro surto de crescimento das gravadoras como conhecemos hoje não tem nem cem anos ainda – foi durante a década de 1920, a “Era de Ouro do Jazz,” da qual eu já falei em alguns outros momentos por aqui.

Esquecem sobretudo que a música já existia antes das grandes gravadoras, e não há por que acreditar que deixará de existir depois delas. Beethoven, Mozart e tantos outros nunca gravaram um disco, e são nomes conhecidos mesmo assim. Se querem falar de música popular… Que tal Johann Strauss e as suas valsas? Afinal, se valsa hoje em dia são sinônimo de baile de debutastes, no século XIX a situação era bem diferente – era a música das ruas de Viena, praticamente um funk oitocentista, inclusive pelo preconceito que sofria dos grupos pseudo-intelectualizados.

No fundo, o importante mesmo é isso: a música, ou os filmes, ou o que quer que seja a produção cultural relevante da época. As pessoas não vão deixar de ouvir música se as gravadoras acabarem e discos pararem de ser lançados. Muito pelo contrário. É possível que passem a ouvir mais, e muitos artistas que jamais passariam pelo crivo de um contrato com uma grande gravadora podem mesmo ter a chance de ganhar o público com a internet – há pelo menos dois casos bem emblemáticos disso no Brasil mesmo, os grupos Teatro Mágico e Fresno, que se tornaram conhecidos principalmente pela movimentação de fãs nos meios on-line (e é claro que não estou entrando aqui nos méritos próprios das bandas, ninguém precisa gostar ou não de qualquer delas).

Quem perde mesmo com o compartilhamento de arquivos pela internet não são os artistas, mas sim os donos das gravadoras. São eles que realmente ganharam fortunas com elas, o suficiente para convertê-lo em poder político de fato e assim conseguirem vender alguma ideologia furada sobre o fim da arte caso deixem de existir. Quer dizer, se quer saber quanto dinheiro a música em si pode dar, pense na mansão que o Mick Jagger deve possuir. E depois pense na ilha particular que o Richard Branson, fundador da Virgin Records, de fato possui…

0 Responses to “O Fim da Arte”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 193,026 visitas

%d blogueiros gostam disto: