O Muro

E então chegou ao muro da qual tantos haviam lhe falado. De um lado, o país afirmativo, onde tudo era sim, tudo era positivo; e do outro o negativo, onde tudo era negação. E entre eles aquele muro, erguido com dúvidas e devaneios existenciais, um por sobre o outro, até separar definitivamente o lado claro do lado escuro.

Ali não havia diferença entre gritos ou sussuros; nada era em vão – não havia raiva, razão. Havia um sentido em cada gesto, fosse um gesto positivo, de um lado, ou um negativo, do outro. Revoltas dandescas não teriam lugar enquanto os dois lados se mantivessem separados – mas que ninguém ousasse pôr aquele muro abaixo!

Era o que imaginava o viajante, enquanto observava aquela construção de operários acadêmicos. Observar as dúvidas do lado fora, refletia, era uma experiência reveladora para quem estava acostumado a perder-se tão intensamente entre elas. E então percebeu uma pequena rachadura num dos pontos do muro. Se aproximou, e tocou-a levemente.

Péssima idéia. Pouco a pouco ela começou a crescer, não demorando até atingir o topo do muro. Em poucos instantes não um, mas dois países estariam envoltos na maior crise de suas histórias, causada pelo entulho duvidoso remanescente da imensa construção – e tudo o que o viajante queria era não estar lá para levar a culpa. Então saiu rapidamente, despedindo-se dos países das certezas absolutas e voltando a procurar suas próprias dúvidas para perseguir.

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