Arquivo de maio \20\UTC 2012

A Trilogia Nikopol

A Trilogia Nikopol, do francês nascido na ex-Iugoslávia Enki Bilal, é considerada uma das grandes obras dos quadrinhos europeus de ficção científica oitentistas, a par com qualquer clássico da Metal Hurlant. Ele segue as desventuras de Alcide Nikopol em um futuro caótico e distópico em meados do século XXI, e o que acontece quando ele se envolve com divindades egípcias, ditadores fascistas e outros personagens peculiares.

Como o nome bem indica, trata-se não apenas de uma história, mas três álbuns que levaram mais de dez anos para serem publicados originalmente, reunidos aqui em um volume caprichadíssimo com capa dura da editora Nemo. Vale destacar inclusive que o preço, se parece um pouco pesado a princípio, se dilui facilmente nesse fato – basta imaginar quanto custariam as três histórias publicadas individualmente pela Devir ou a Conrad…

A Feira dos Imortais, em todo caso, a primeira das histórias, abre com uma estranha pirâmide voadora pairando sobre uma Paris dominada por uma ditadura fascista. Já a primeira cena dá bem o tom do que vamos encontrar, quando vemos deuses como Anúbis, Toth e Set discutindo a pressão que farão sobre o governo local para resolver o seu problema de combustível para a nave, enquanto jogam, entre todos os jogos possíveis, Banco Imobiliário! Ao mesmo tempo, Nikopol, que fora exilado após desertar o exército francês e estava há trinta anos em estado de animação suspensa, retorna à cidade para encontrá-la completamente diferente de quando a viu pela última vez.

Entre os tradicionais discursos políticos e sociais da tradição cyberpunk, assim, é interessante ver os momentos de paródia e humor negro que pontuam a narrativa. Alguns inclusive fizeram o salto para a realidade posteriormente – basta lembrar que o boxe-xadrez, por exemplo, que atualmente é uma modalidade esportiva levada bastante a sério, fez sua primeira aparição em Frio Equador, a terceira história do volume. Entre os dois extremos, pílulas alucinógenas, conspirações sobrenaturais e ambientes surreais, pontuados por uma série de personagens únicos e situações de risco.

Como seria de esperar de qualquer álbum europeu da tradição Metal Hurlant, a arte é maravilhosa, com um estilo mais fotográfico e repleta de arquiteturas impossíveis e cenários imaginativos. Os deuses com cabeças de animais são um elemento à parte, praticamente uma obsessão do autor. Apenas achei que a narrativa em quadrinhos um pouco truncada, pelo menos na primeira história, repleta de infodumps e narrações em off – é interessante ver como o autor evolui ao longo das histórias, sendo A Mulher Armadilha, a segunda, a melhor das três na minha opinião, com direito a uma femme fatale e outros elementos que remetem à literatura noir.

No fim, tenho que recomendar A Trlogia Nikopol para qualquer um que goste de quadrinhos, ficção científica ou histórias imaginativas de maneira geral. Vale a pena desembolsar alguns tibares para ler e receber alguns choques pesados de imaginação.

O destino de dois mundos!

Nuvens claras se moviam por um céu azulado, passando sobre um pequeno monte esverdeado onde, pendurado em uma árvore, um saco de areia recebia pancadas violentas. Um homem de cabelos escuros treinava em um quimono branco sujo e remendado, com uma faixa vermelha esvoaçando ao vento presa na cabeça, desferindo chutes com a perna esquerda, direita, esquerda, esquerda, direita, e então socos com a mão direita, esquerda, esquerda, direita.

– Ryu! – quem gritou foi outro homem que subia o monte correndo, também vestindo um quimono, mas vermelho, com os cabelos loiros soltos na altura dos ombros. Quando chegou até o cume parou por um instante para recuperar o fôlego, apoiando as duas mãos sobre as pernas na altura dos joelhos. – Finalmente te encontrei, cara!

– Ken! – Ryu sorriu ao ver o amigo, antes de correr até ele.

Ambos apertaram as mãos e se abraçaram, mas foram interrompidos subitamente por uma trovoada ao longe. Viraram o rosto para cima e viram que o céu azul começava a ser preenchido por nuvens escuras, de uma coloração vermelha como sangue. Um grande raio desceu delas e atingiu o chão não muito longe dali. Ryu e Ken se olharam, e então partiram correndo naquela direção.

Mal começavam a se aproximar do seu destino quando encontraram um grande homem em uma armadura de placas completa, portando uma espada bastarda na mão direita e um grande escudo triangular na esquerda. Ele esticou a mão do escudo, bloqueando a passagem dos dois, e virou o rosto devagar, revelando uma barba grisalha e grossa sobre o rosto. O desenho de um corvo púrpura estava estampado nos seus equipamentos.

– Isto não é assunto de vocês. Deixe que nós cuidamos de tudo. – disse ele.

– Ora, seu! – o rosto de Ryu já começava a se contorcer e tomar uma expressão de raiva. – Se um desastre está acontecendo perto de mim, é sim um assunto meu!

– Acho que eles não vão nos ouvir, Orion. – Quem falava era um homem de cabelos loiros em uma cota de malha ao lado do cavaleiro, portando uma espada em cada mão, a da direita envolta em fogo, a da esquerda em gelo. – Vamos ter que resolver isso à moda antiga.

– Muito bem, Vallen. – respondeu Sir Orion Drake, e ambos postaram-se em posição de combate.

Não longe dali, o combate já havia iniciado entre dois guerreiros. Um tinha cabelos prateados e vestia um sobretudo vermelho, e enquanto lutava trocava suas armas entre um par de pistolas e uma grande espada que emanava uma aura demoníaca. O outro tinha a cabeça depilada e vestia uma armadura de couro negro, mas que deixava as as costas musculosas e lisas à mostra, onde estava estampada a imagem de um grande escorpião. Ao longo de toda a sua roupa armas variadas estavam presas, incluindo diversos pares de adaga, duas bestas de mão, cinturões de dardos e estrelas de arremesso. Ele lutava com uma espada oriental, cada ataque desferido em meio a dúzias de movimentos complexos e sinuosos.

Trocaram um golpe ou dois antes de serem quase atingidos por um objeto voador: era uma mulher com asas de morcego e cabelos verdes, cujo vestido tinha um grande decote em V que deixava boa parte do seu corpo à mostra, e a calça lilás se colava tão justamente nas suas pernas que pareciam ser mesmo a própria pele. Atrás vinha uma elfa com patas caninas e longos cabelos azulados, vestindo um conjunto de tiras de couro que pareciam estar sempre prestes a explodir com a pressão dos seus seios volumosos. Ela voava sobre um cajado com uma jóia verde encrustada no que parecia ser uma garra em uma de suas extremidades, de onde eram disparados raios de energia contra a inimiga.

Enquanto seguiam em seu embate aéreo, as duas passaram sobre a luta de duas mulheres, uma vestindo uma blusa azul e disparando chutes tão rápidos que pareciam fazer suas pernas grossas desaparecerem, e a outra com uma armadura ornamental que protegia com placas metálicas praticamente apenas seus quadris e busto, e tentava prender a adversária com uma rede enquanto manejava um tridente na outra mão. Mais adiante no caminho do vôo duas criaturas verdes trocavam golpes, um coberto de pêlos alaranjados e que parecia criar faíscas elétricas com os seus movimentos, e o outro de aparência reptiliana, com uma barbatana sobre as costas e uma grande arma de haste semelhante a uma foice. A seguir eram dois homens com braços metálicos, o primeiro disparando sua mão mecânica como uma espécie de arpéu, enquanto o segundo se esquivava e revidava com golpes rápidos de uma maça. Mais além ainda lutavam dois guerreiros de aparência demoníaca, o primeiro em um quimono púrpura escuro e envolto no que parecia ser uma aura de fogo negro, e o segundo vestindo uma armadura completa de aparência óssea, terminando em um elmo com forma de crânio sobre a cabeça.

Finalmente as duas passaram sobre uma colina onde um homem flutuava de braços cruzados poucos centímetros sobre o chão em um uniforme militar vermelho, com o emblema de uma caveira com asas no quepe. Ele olhava para os combates abaixo com um sorriso largo, vendo-os através de olhos vazios de onde pequenas faíscas saíam. Um som de passos pesados o fez se virar para trás.

– Vejo que chegou, afinal. – disse ao ver um grande homem com uma armadura púrpura que cobria todo o corpo, com ombreiras volumosas e um elmo com visor formado por um vidro vermelho, portando um escudo e um grande martelo envolto por eletricidade.

– SIM. VAMOS COMEÇAR. – respondeu o outro, e partiu em posição de combate contra ele.

Em uma colina do outro lado da zona de conflitos, uma moça de cabelos loiros curtos também observava tudo distante, sentada em meio a galhos que pareciam nascer naturalmente ao seu redor. Ao seu lado uma loba de pelugem branca, com traços que pareciam pintados à nanquim e um escudo em forma de disco nas costas, também estava sentada, olhando para os embates.

– Parece que começou. – disse a moça.

– Sim. – um pequeno ser brilhante e saltitante sobre o lobo respondeu. – Será que conseguirão resolver suas diferenças e se voltar contra o verdadeiro inimigo?

Ao terminar de falar os três viraram seus rostos para cima, em direção ao horizonte, onde uma sombra colossal formada por ângulos impossíveis começava a tomar forma entre as nuvens rubras…

O DESTINO DE DOIS MUNDOS ESTÁ PARA SER DECIDIDO!

– Objeção! – o advogado gritou com o dedo em riste. Vestia um terno de linho e tinha cabelos escuros cuidadosamente alisados para trás, como se buscasse um design aerodinâmico. Ao seu lado, com os braços cruzados e um sorriso triunfante nos lábios, se sentava um homem em mantos finos, com cabelos longos vermelhos em volta de orelhas pontudas, e uma cicatriz tripla sobre o olho esquerdo.

– Não… De novo não… – sussurrou um homem de cabelos compridos marrons presos por uma fita, vestindo um colete cinza sobre uma camisa amarela, sentado logo atrás da mesa da promotoria.

Street Fighter vs. Tekken

Desde o já ancestral X-Men vs. Street Fighter (e alguns poderiam dizer mesmo desde o The King of Fighters original), os crossovers se tornaram praticamente um gênero à parte dentro dos jogos de luta, sobretudo os da Capcom. Desta vez, depois de usar e abusar dos heróis dos quadrinhos (que o diga quem aproveitou os descontos para comprar Marvel vs Capcom 3 poucas semanas antes do Ultimate Marvel vs. Capcom 3 ser anunciado…), a empresa japonesa decidiu ir atrás de uma franquia rival para fazer o seu encontro de titãs: a série Tekken, da Namco, considerado talvez a principal série do gênero com jogabilidade em três dimensões.

É um encontro curioso, não tanto por unir duas empresas tecnicamente concorrentes, como por unir jogos que, à parte de pertencerem ao mesmo gênero, sempre funcionaram de formas muito diferentes. Se Tekken, como eu já disse, é o principal nome das lutas em 3D, Street Fighter sempre foi um dos bastiões dos combates em duas dimensões – mesmo o seu título mais recente, que utiliza modelos tridimensionais para os cenários e personagens, é considerado na verdade uma espécie “2,5D”, pois eles são jogados em uma arena de duas dimensões para trocarem seus chutes e bolas de fogo. Street Fighter vs. Tekken, como a série que vem antes no título, segue um modelo mais parecido com este segundo: a jogabilidade básica é fundamentada principalmente no modelo de Street Fighter IV, enquanto os lutadores da Namco precisaram ter os seus movimentos e combros adaptados a este estilo de jogo.

Se isso colabora para manter o jogo mais simples, rápido e dinâmico (palavra de quem, em outras épocas, já gastou tardes inteiras com uma revista de games na mão decorando movimentos e seqüências de golpes a cada novo Tekken lançado…), também trouxe alguns problemas. Os personagens de Tekken, em especial, são mais complexos de usar do que os Street Fighters; seus ataques especiais têm comandos mais difíceis, muitas vezes repletos de combinações e variações, enquanto boa parte dos segundos possuem ataques eficientes usados com dois ou três movimentos. Também faz diferença o fato de que poucos deles possuem ataques de projéteis, que aparecem em profusão entre os lutadores da Capcom, deixando estes em vantagem nas mãos dos jogadores mais apelões.

À parte por isso, no entanto, o jogo até que consegue ser razoavelmente equilibrado entre as suas partes. A maioria dos movimentos e combros clássicos de Tekken foram muito bem transpostos e simplificados, sendo fáceis de reconhecer durante o jogo. Mesmo muitos dos comandos originais foram respeitados, então algum veterano que queira jogar com o Jin Kazama, por exemplo, vai se sentir bem à vontade.

Não se pode deixar de falar também, é claro, do elemento crossover propriamente dito, a forma como as duplas de personagens interagem entre si. Acho que posso dizer que este é o jogo no estilo que o desenvolve e leva mais longe: mais do que apenas trocar personagens durante as lutas ou combinar os seus ataques especiais, existem muitas formas diferentes de usá-los durante os combates, trocando-os no meio de um combo, chamando o companheiro para terminar o seu ataque, ou mesmo dando os seus golpes especiais em seqüência. Além disso, há aquela que eu pessoalmente considero a idéia mais genial do gênero desde a criação do sistema de batalhas dois contra dois: modo de dois jogadores cooperativo! Sim, chame um amigo e cada um de vocês controlará um dos personagens, coordenando entre si as trocas entre eles, ou mesmo, através de um comando especial, combatendo simultaneamente por alguns segundos. Acho que há um bom tempo eu não tinha uma experiência nova tão divertida em um jogo de lutas.

A única coisa que é um pouco esquisita é o fato de que, mesmo que você tenha dois lutadores de cada lado, basta um deles ser derrotado para a rodada ser encerrada, o que pode ser bastante frustrante quando você se descuida e toma um golpe de sorte fatal enquanto a sua dupla espera do lado de fora com a energia quase completa. Existe também um modo de customização, onde você pode atribuir gemas com habilidades especiais a cada personagem, mas que eu pessoalmente achei dispensável – quero dizer, a idéia não é ruim, mas é chato ter que se preocupar com isso quando você quer apenas trocar uns sopapos com um amigo. Poderia existir um modo de desligá-lo, para você não pensar que comprou um jogo de RPG ao invés de um de luta.

Acho que posso fazer algumas críticas quanto à seleção dos personagens também. Enquanto clássicos como Blanka e E. Honda, e mesmo novas caras populares como a Crimson Viper, ficaram de fora, temos nomes descartáveis como Rolento, Ibuki ou Hugo. Do lado do Tekken, ao invés de um Bob, Lili ou Ogre (que é chefe, vá lá, mas o que custava colocar o Heihachi nesse lugar?), poderíamos ter um Bryan Fury ou Lei Wulong. E qual o sentido exatamente daqueles mascotes felinos exclusivos da versão do Playstation 3? No fundo, no entanto, acho que qualquer elenco escolhido geraria críticas de qualquer forma, e os nomes realmente indispensáveis estão todos lá, ao menos. De bônus, é uma homenagem bacana ter personagens baixáveis (mas ainda gratuitos) do Pac Man e Mega Man, ainda que o segundo esteja em uma versão bizarra que lembra pouco o robozinho azul da Capcom.

Todo o jogo ainda é muito bem animado, colorido e bonito. Os cenários, apesar de serem poucos, são cheios de animações e participações especiais de ambas as franquias. E há ainda belas cenas de apresentação e diálogos divertidos para todas as duplas “oficiais”, com direito mesmo a finais em animação. Só a dublagem algumas vezes me pareceu um tanto tosca.

Como saldo final, Street Fighter vs. Tekken é um jogo realmente muito divertido, acho que o mais bem acabado dos crossovers da Capcom. Fãs de Street Fighter devem ficar bem satisfeitos, e acredito que a maioria dos de Tekken também, apesar do estilo diferente. E se pudermos tomar o exemplo do encontro da Capcom e da SNK, podemos esperar um Tekken vs. Street Fighter, seguindo desta vez um estilo mais próximo ao jogo da Namco, para algum momento no futuro, algo que estou bem curioso para ver como vai ficar. Só espero não termos uma versão Ultimate desse aqui antes disso…

O Rei Mago

O Rei Mago é, sem firulas, a continuação de Os Magos, livro que eu havia resenhado ainda na edição importada, The Magicians, antes de uma edição nacional ser sequer sonhada. Vale destacar, aliás, a velocidade da editora Amarilys em trazer o livro tão rápido para cá – ele foi lançado em língua inglesa em agosto passado, e no começo deste ano já era possível encontrar a tradução nas lojas! Preferi valorizar o nosso mercado local, assim, e comprar esta versão, ao invés de ter todo o trabalho de importá-lo de terras estrangeiras, por mais que a capa britânica tenha ficado absurdamente mais bonita.

Em todo caso, o livro continua a história de Quentin Coldwater, o nosso misto de Holden Caulfield e Harry Potter preferido, já anos depois de se formar na universidade mágica de Brakebills e ter a sua primeira viagem trágica para o reino encantado de Fillory. Agora, junto com alguns antigos colegas e amigos, ele se tornou um dos quatro reis do local, passando seus dias entre banquetes vistosos, caçadas mágicas e aparições públicas na varanda do seu castelo. Seria um belo de um final feliz para a sua história, não fosse o fato de que ele ainda sente falta de alguma coisa, algo que deixou para trás mas que não consegue exatamente nomear – e será esse sentimento, é claro, que porá tudo a perder, e o forçará a entrar em uma nova jornada de auto-descoberta até os confins do mundo conhecido.

Paralelamente a esta viagem conhecemos a história de Julia, amiga de infância de Quentin e agora também uma rainha de Fillory, que havia sido recusada em Brakebills e teve que descobrir a magia sozinha, pagando um preço altíssimo por ela. Na verdade, aqui ela é muito mais propriamente uma protagonista do que Quentin: aproximadamente metade do livro envolve a sua história pessoal atrás dos segredos arcanos que lhe foram negados no livro anterior, e é através dela que todo o seu cenário e o universo, antes praticamente restritos a Brakebills e Fillory, se desenvolve e expande, tomando ares de uma fantasia urbana que não deve nada a qualquer história do Neil Gaiman.

É também a história de Julia que compreende o lado mais intenso do livro, aquele que nos dá um nó na garganta ao se aproximar do desfecho e nos deixa pensativos por dias a fio. O autor Lev Grossman costuma se basear e fantasiar a sua própria história pessoal, muitas vezes levada na base de consultas psiquiátricas e anti-depressivos, para criar seus personagens, e isso dota eles de uma força e realidade bastante únicas, mesmo quando jogados em um mundo repleto de magia e seres mitológicos. Já falei um pouco sobre estas histórias antes, que ele costuma relatar algumas vezes no seu blog pessoal, e a forma como eu me identifiquei e relacionei com elas. Acho que a melhor descrição que vi sobre o resultado está em alguma resenha que li algum tempos atrás, embora não consiga me lembrar onde: ele é ao mesmo tempo uma homenagem sincera e envolvente às histórias de fantasia clássicas como as Crônicas de Nárnia e Harry Potter, e uma desconstrução extremamente crítica delas e daqueles que as lêem; ao mesmo tempo em que nos encanta com um mundo maravilhoso repleto de fantasia, ele também nos puxa bruscamente de volta à realidade, chutando o escapismo para longe e nos fazendo parar e refletir sobre nós mesmos, raramente de forma elogiosa.

Na soma geral, em todo caso, acho que me envolvi e cativei mais com o primeiro livro do que este. Ele tem o lado positivo de ser mais direto e objetivo na ação, sem se estender por metade do livro em desventuras estudantis; por outro lado, por ter lido o anterior justamente durante o meu período de ressaca pós-formatura, acho que elas ajudaram mesmo que eu me identificasse com os personagens e situações, e tornasse a experiência toda de ler ele um tanto mais intensa. Não sei também até que ponto o fato de eu ter lido uma tradução atrapalhou nisso, mas eu senti o estilo um pouco mais exagerado e cru do que o anterior, nem sempre com frases e parágrafos muito bem aparadas e retinhos. Aliás, se anteriormente eu elogiei a velocidade da editora em lançá-lo, aqui vale um puxão de orelha também: o texto final em português me pareceu um tanto mal revisado, errando, por exemplo, praticamente todos os particípios do verbo pagar, além de algumas frases que alguém com algum conhecimento de inglês consegue facilmente reverter para a língua original e pensar em uma tradução melhor. Não é nada que realmente prejudique a leitura, mas incomoda um pouco, especialmente se pensarmos que são coisas que poderiam ser evitadas com uma ou duas revisões a mais; alguns meses a mais para ter o livro em mãos não me incomodariam nem um pouco para ter um produto melhor acabado.

É interessante destacar também a forma como o livro deixa a a possibilidade aberta para ainda outra continuação, provavelmente fechando uma trilogia (ou até mesmo uma série maior, vai saber). Antes que critiquem, no entanto, é bom deixar claro que a história é perfeitamente autocontida, resolvendo de forma satisfatória todas as tramas e subtramas que ela mesma propõe, com todos os três atos narrativos perfeitamente bem estabelecidos; se você consegue perceber esta abertura, é muito mais por dicas e comentários laterais, deixados entendidos nas entrelinhas, e no final um tanto melancólico que na verdade nos deixa desejando que uma continuação venha, mais do que meramente esperando. Sem contar, é claro, em todos os personagens cativantes que conhecemos ao longo do livro, que passamos às vezes a ver mesmo como amigos pessoais, e que sinceramente gostaríamos de ter a oportunidade de encontrar novamente. Bom, eu gostaria, pelo menos.

Enfim, O Rei Mago é um ótimo livro, uma continuação perfeitamente a altura de um livro tão marcante como foi o primeiro Os Magos para mim. Recomendo ambos enormemente.

Íncubo

Paula amava os livros. Acho que foi isso que primeiro me atraiu nela. Não, me desculpe, estou mentindo – o que primeiro me atraiu em Paula foi a forma como ela mexia os quadris ao caminhar. Sou um homem, o que posso fazer? Mas os livros tiveram um papel importante mesmo assim, pois a primeira vez em que reparei nos seus movimentos foi em uma biblioteca. Eu estava sentado em uma das mesas, folheando um exemplar de algum autor que me interessava então, quando a notei passando ao meu lado em direção às estantes. Fazíamos o mesmo curso na mesma faculdade e estávamos na mesma turma em diversas disciplinas, de forma que logo a reconheci. Pertencíamos a grupos diferentes de amigos, no entanto, e sequer sabíamos os nomes um do outro. Assim, se ela me reconheceu, não me cumprimentou, e eu também não chamei a sua atenção de qualquer forma. Apenas a observei enquanto caminhava, os quadris balançando como ondas entre um lado e outro do corpo, até dobrar em um corredor de estantes e desaparecer da minha vista.

Durante as semanas seguintes, nas aulas que dividíamos, não consegui prestar atenção em outra coisa que não fosse Paula. Roubava olhares entre as explicações dos professores, a buscava entre as cabeças dos colegas que nos separavam. Decorei todos os detalhes do seu rosto, dos cabelos marrons na altura dos ombros ao pequeno sinal que tinha na bochecha esquerda, próximo ao nariz, passando pelos lábios finos, como se desenhados por um lápis recém apontado, e os olhos da cor do mel protegidos por um par de óculos – e me perdoem se eu admitir que mulheres de óculos sempre me pareceram mais sexies e atraentes. Acho até que seria capaz de adivinhar suas medidas, tanto tempo que passei observando: pouco mais do que um metro e sessenta de altura, acredito, e um pouco cheia no busto e nos quadris, mas não tanto que isso fosse um defeito. Tudo bem, não é uma estimativa muito exata, mas tenho certeza de que saberia dizer se uma peça de roupa serviria nela apenas de olhá-la.

Você com certeza já percebeu aonde quero chegar. É claro que eu não era mais um adolescente, e não vou dizer que estava apaixonado por Paula antes de trocarmos uma palavra sequer. Mas, bem, eu estava sim interessado nela. Muito interessado. Tinha mais certeza disso cada vez que cruzava com ela na biblioteca, o que já acontecia com alguma freqüência. Parecia incrível encontrar alguém que a freqüentasse mais do que eu. Ensaiava começos de conversas, pensava em assuntos que poderiam interessá-la. Éramos colegas em várias aulas, então não deveria ser difícil perguntar sobre alguma prova ou fazer um comentário sobre um dos professores, certo?

Mas essas coisas nunca são tão simples, é claro. Não que eu fosse exageradamente tímido, mas também nunca fui exatamente um pegador. Sempre que me aproximava com uma frase na ponta da língua, acabava recuando no último instante. Às vezes isso acontecia pelo medo de ser rejeitado, e de me tornar motivo de piada na turma. Outras, pelo contrário – o medo justamente de ser bem recebido, de ela também se interessar por mim, e eu não saber mais o que fazer, ou, pior, de ela ser completamente diferente de como eu a imaginava. Passei algumas semanas nessa indecisão, chegando a poucos metros de abordá-la e então voltando atrás. Até que veio a festa.

Era uma dessas festas de faculdade típicas, em que os alunos se reúnem em um centro estudantil munidos de engradados de cerveja, garrafões de vinho e um bom aparelho de som. Acho que estavam arrecadando dinheiro para custear uma viagem a um encontro de estudantes em uma cidade do interior, ou talvez para reformar o centro, não lembro com certeza. Talvez apenas quisessem uma desculpa para se embebedar e rolar alguma pegação, como geralmente é o caso. O importante é que Paula estaria lá, e seria uma boa oportunidade para eu tentar me aproximar. De fato, assim que a vi sozinha e tive uma oportunidade, me aproximei e tentei puxar uma conversa.

– Oi. – eu disse.

– Oi. – ela respondeu.

– Gostando da festa?

– Sim.

– Pois é.

E foram essas todas as palavras que trocamos naquela noite.

Saí de lá pouco depois, me odiando. Foi só no dia seguinte que soube que Paula havia ficado com Júlio César, outro colega nosso e um dos meus melhores amigos na faculdade. Mais alguns dias e soube também que haviam começado um namoro sério. Reagi bastante bem à notícia, até. De alguma forma, a possibilidade de tê-la tão perto me ajudou a superar o que eu achava que sentia. Sabia que ela logo não seria mais uma estranha misteriosa, mas se tornaria uma presença constante no nosso grupo de amigos, o que talvez reduzisse um pouco do seu charme para mim.

Uma vez apresentados, nos tornamos bons amigos rapidamente. Ainda nos cruzávamos com freqüência na biblioteca, mas agora sabíamos nossos nomes e nos cumprimentávamos, além de muitas vezes dividirmos a mesma mesa de leitura. Reparei em alguns livros que ela retirava com freqüência, como A Divina Comédia e Paraíso Perdido, além de um volume antigo cujas páginas amareladas haviam sido restauradas e colocadas em uma encadernação nova, que não estampava o título. No início não me incomodei muito a respeito, mas vê-la tantas vezes com ele em mãos despertou minha curiosidade, até que um dia não resisti perguntei sobre o que tratava.

– Ah, é um livro velho sobre demônios que eu encontrei por aqui. – ela respondeu.

– Demônios? – acho que eu parecia um pouco assustado, pois ela me olhou de forma séria, e a sua voz assumiu um tom defensivo.

– Sim. Você não é crente, é?

– Não, não. Eu só não esperava por algo assim.

– E você tem algum problema com isso?

– Não, claro que não. Todo mundo tem seus gostos estranhos. Eu mesmo ainda leio histórias em quadrinhos de super-heróis. – tentei forçar uma risada, mas ela ainda me olhava com seriedade. – Na verdade, tudo o que sei sobre o assunto vem de alguns jogos de RPG.

– Mas você não leva eles a sério, né?

– Não, claro que não.

A conversa seguiu com uma verdadeira aula sobre o assunto. Paula sabia de cor todas as principais entidades associadas ao Inferno, e era capaz enquadrá-las em diversas de classificações diferentes. Citou polêmicas e debates que existiam entre os estudiosos, falando com o mesmo fervor de alguém discursando sobre política ou futebol. Seus olhos brilhavam cada vez que dizia palavras como “íncubo” ou “súcubo”. Saí de lá um pouco desnorteado, ainda digerindo a surpresa de todo aquele conhecimento que ela possuía.

Na outra metade do namoro, Júlio parecia muito feliz. Era uma pessoa tímida, especialmente com as mulheres, e Paula era a sua primeira namorada que conhecíamos. Na verdade, ele parecia mesmo mais leve e relaxado, como se tivesse tirado um peso das costas quando começaram a sair, principalmente quando a turma toda estava junta. Fazia piadas com mais freqüência e não se retraía tanto quando falávamos de assuntos mais íntimos, como quando conversávamos sobre sexo.

Lembro de uma vez em que estávamos apenas os homens do grupo em um bar, tomando umas cervejas após um jogo de futebol, e, após algumas garrafas, o assunto apareceu. Sei que não é exatamente o tipo de coisa de que se fala tão abertamente, mas, bem, estávamos todos já um pouco altos, então um de nós contou alguma experiência que teve com uma ex-namorada e foi seguido por outros relatos dos demais presentes. Não demorou e já estávamos falando das atuais, até mesmo eu, que na época estava saindo com uma garota que conhecera em uma festa de outro curso. Já tínhamos ouvido uma boa quantidade de casos picantes quando Júlio, que ainda estava um pouco quieto, apenas ouvindo as histórias dos outros, nos interrompeu.

– Cara. – ele falou e suspirou devagar, como se calculasse o tempo de silêncio necessário para despertar nossa curiosidade. – Vocês não vão acreditar em tudo que eu e a Paula já fizemos.

E, de fato, não acreditamos. Júlio monopolizou todo o resto da conversa. Ouvimos atentos cada experiência que contava, balançando a cabeça em negação a cada detalhe que parecesse surreal demais para ser verdadeiro, e pedindo por mais em cada momento de silêncio. Parecia incrível que uma mulher, qualquer mulher, fosse capaz de se rebaixar da forma como ele dizia, e chegar a níveis tão extremos de devassidão. E ainda mais que tal mulher fosse Paula, por quem eu tivera uma paixão platônica ainda tão recente, e que eu ainda enxergava como algum tipo de poço de pureza virginal. Naquele dia, ao chegar em casa, fiz coisas que não me imaginava fazendo de novo desde os dezessete anos.

Levei algum tempo para me recuperar do que ouvi. Evitei Paula por uns dias, inventando desculpas e fingindo compromissos. No fim, no entanto, acabei cedendo, e voltei a falar com ela. O fato é que já éramos amigos bons demais, até mesmo com uma certa intimidade. Senti falta das nossas conversas sobre livros e literatura na biblioteca durante o tempo em que não nos falamos. E, bem, todos têm seus segredos sobre o que fazem entre quatro paredes, quando ninguém mais está olhando. Até mesmo eu. Como poderia julgá-la?

Mas acho que Paula percebeu que havia algo de errado. Notei alguma diferença na sua voz quando falava comigo, e uma postura mais distante e defensiva nas nossas conversas. Ela buscava se manter nos assuntos mais formais, como coisas que estávamos lendo ou os conteúdos das aulas que freqüentávamos. Quando um tema pessoal surgia, desviava dele assim que possível, voltando ao que falávamos antes ou buscando um novo assunto para discutir. Muitas vezes eu tinha a impressão de que ela escondia algo, alguma coisa que pensava mas não se atrevia a dizer, como se tivesse medo da minha reação.

Um exemplo de como iam essas conversas foi a vez em que reparei que a via ainda mais freqüentemente com o livro sobre demônios, aquele da encadernação restaurada. Se antes era apenas uma retirada recorrente, agora era praticamente impossível encontrá-la sem ele debaixo do braço. Perguntei sobre como iam as pesquisas de demonologia, esperando vê-la discursar com o mesmo fervor de antes, mas ela apenas respondeu que iam bem antes de mudar de assunto. Um pouco surpreso pela rejeição, preferi não voltar a falar sobre isso.

Algum tempo depois, soube que seu namoro com Júlio não estava indo muito bem. Era fácil de perceber vendo-os de fora: os dois já não se entendiam como antes, suas expressões e movimentos traíam um tanto de enfado quando estavam juntos, e seus diálogos eram repletos de alfinetadas e indiretas. O próprio Júlio confessou certa vez para os amigos, eu entre eles, que as coisas não andavam muito bem, e que estava desconfiado de que havia outra pessoa tentando tirá-la dele.

A notícia teve um efeito ambíguo em mim. Por um lado, Júlio era um dos meus melhores amigos, e eu não gostava de vê-lo angustiado desta forma. De outro, no entanto, eu realmente gostava de Paula, e a possibilidade de vê-la solteira outra vez fazia renascer sentimentos que eu acreditava já estarem superados. Caso a situação chegasse a um ponto crítico, não saberia dizer de que lado ficaria. Não ajudava ainda o fato de que Júlio logo começou a me tratar também com alguma frieza, como se quisesse se afastar de mim, mas não tivesse coragem de simplesmente romper relações. Seu tom de voz ao falar comigo era seco e direto, e ele parecia me evitar sempre que possível. Quando me encontrava junto com Paula eu podia quase ver os seus olhos entrando em combustão, tamanha a ferocidade reprimida.

Como acabou acontecendo, no entanto, pelo menos fui salvo de ter que escolher entre os dois. O que em nada diminuiu o impacto do que se seguiu. Estava indo para a biblioteca atrás de alguns livros, e topei com eles discutindo do lado de fora. Não sei como a discussão começou, pois peguei apenas os momentos finais.

– Você não pode me forçar a escolher assim! – dizia Paula, com o rosto contorcido e os olhos vertidos em lágrimas.

– Pois é o que estou fazendo! – Júlio respondeu com a rispidez de um tiro. – Ou eu, ou ele! Você tem que escolher!

Paula não respondeu, o que aparentemente foi resposta suficiente. Júlio se virou e começou a ir embora, mas então se deparou comigo pouco atrás, observando tudo em silêncio. Seu rosto empalideceu quando me viu, como se eu fosse a última pessoa que esperasse encontrar. Logo ele se recompôs, no entanto, me pegou pelo braço e me puxou para ir junto com ele.

– Que bom que você está aqui! – disse. – Vem comigo, eu preciso desabafar com alguém.

Fiz alguma força para me soltar e busquei Paula com o olhar, mas ela já havia nos dado as costas e entrava na biblioteca. Tentei pensar em alguma desculpa para dar a Júlio e ir atrás dela, mas nada me veio à mente. No fim, fui com ele até o bar da faculdade.

Aquela foi a última vez em que vi Paula. No dia seguinte soube que tinha sido suspensa por tempo indeterminado e internada em uma clínica psiquiátrica. Algum aluno a havia encontrado na biblioteca em um dos últimos corredores de estantes, com as roupas rasgadas e jogadas pelo chão, em uma posição que revelava muitos detalhes da sua anatomia. Segundo ouvi, tinha no rosto um sorriso largo que traía um prazer intenso, e não uma expressão de choque como se tivesse sido violada. Sobre sua barriga estava um livro aberto, de páginas velhas e amareladas restauradas e colocadas em uma encadernação nova, que não estampava o título.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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