Arquivo de junho \30\UTC 2012

Come to the Dark Side.

Lendo um texto do Sul 21, portal de notícias ligado algo mais do que ideologicamente à nossa esquerda política, sobre o famigerado encontro de Lula e Maluf pelo apoio na candidatura do Haddad à prefeitura de São Paulo, me vejo perdido em algumas reflexões. Há algumas informações interessantes lá – por exemplo, o fato de que o Maluf também já tinha sido procurado pelo José Serra na mesma semana sem um décimo do estardalhaço -, e alguns pensamentos e interpretações bastante válidos sobre o futuro dos partidos políticos. Ao mesmo tempo em que levanta questões relevantes, no entanto, o texto também se deixa levar por aquele conformismo típico da nossa política, fazendo o papel de advogado do diabo com suas piruetas hermenêuticas na apologia do pragmatismo das alianças partidárias.

No fundo, é claro que dá pra entender o encontro e a aliança decorrente dele sem qualquer dificuldade. É preciso muita má vontade para com o PT para se recusar a ver que se trata de um jogo político, uma forma de adquirir mais tempo nos horários eleitorais, além de angariar toda a militância de um partido tradicional para o seu lado. Ao mesmo tempo, no entanto, cada vez que se vê algo assim acontecendo, a cada mensalão ou Cachoeira ou tanto faz qual seja o alvo da metralhadora giratória da Veja essa semana, se perde um pouco de inocência, e com isso muito da própria fé na política como instrumento de mudança da sociedade.

Como o próprio texto bem destaca, o descrédito das instituições públicas é um fato. É algo que se vê no dia-a-dia, nas charges e piadas sobre políticos sustentados pela população, em qualquer conversa em almoços de família e amigos. Então você tenta puxar tudo o que você estudou de Aristóteles e John Locke, o quanto você leu de Charles Tilly e Robert Dahl e quem quer que seja o cientista político do momento, pra dizer que não é bem assim, que há uma função na política e nos políticos, que o que falta na maioria dos casos é informação adequada… Mas chega um ponto em que não há mais argumentos, a realidade simplesmente supera qualquer base teórica, e o que sobra é esse desânimo com qualquer debate político, a certeza de que seja o PT ou o PSDB, seja a Dilma ou o Serra ou o Aécio, no fundo nada vai ser muito diferente, e que você ganha mais tirando esse tempo pra ler o capítulo de Naruto da semana. Ou alguém duvida que o Serra e o Aécio também não correriam atrás do Maluf, do Sarney e de todos esses caso fossem eleitos?

Não é algo que tenha a ver com ideologias ou simpatias políticas. Não to aqui pra discutir isso, e nem quero pregar adesão ao partido A, B ou C. No fundo, acho que é mais um cansaço mesmo. Cansaço de todo esse pragmatismo, misturado a um pouco de nostalgia das velhas utopias. Seja o comunismo final marxista ou o futuro encantado do progresso capitalista, uma boa utopia às vezes faz falta. Algo com o que sonhar e a ter como objetivo último, mesmo que inalcançável. A única utopia que temos ultimamente parece ser um mundo sem sacolas plásticas nos super mercados.

Às vezes também me pego imaginando se não apoiaria incondicionalmente qualquer um que simplesmente mandasse esse tal pragmatismo às favas. Nem precisa ser alguém com quem eu tenha afinidades políticas ou cujo plano de governo seja razoável. Qualquer um que chamasse um encontro público com o Onyx Lorenzoni só pra quebrar o nariz dele na frente dos fotógrafos já tá valendo.

Sei lá. Coisas de uma madrugada sem sono, talvez.

The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier

Não tenho estado exatamente muito empolgado com a última saga da Liga Extraordinária. O que antes era um mashup muito bem cuidado e divertido, mas sem por isso deixar de ser sério e sombrio, de obras literárias dos dois últimos séculos parece ter virado uma ode ao misticismo proferido pelo Alan Moore na sua vida particular, enquanto os protagonistas cada vez mais se afastam das suas personas originais e se tornam personagens completamente diferentes. No meio disso tudo, referências que precisam ser decifradas, para não terem problemas legais por estarem ainda fora de domínio público, tiram um pouco da graça da idéia original. Certamente há quem esteja achando ela interessante, é claro, mas à parte por polêmicas gratuitas, não vejo muito aonde ele quer chegar.

Em todo caso, entre as duas obras-primas originais e o seu momento jumping the shark, temos The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier. Este volume intermediário não pode ser lançado fora dos Estados Unidos por problemas legais, já que faz alusões diversas a personagens que ainda estão sob as leis de direitos autorais, fora o fato de o próprio Moore ter rompido relações com a DC Comics, que comprou a editora Wildstorm que publicava as histórias do grupo. Em certo sentido, pode-se dizer que ele faz a passagem de um momento para o outro: as referências ao mundo literário ainda estão no centro da narrativa, se estendendo até meados do século passado e incluindo até mesmo alguns elementos do cinema e dos quadrinhos, e eventualmente terminam por levar à salada indistinguível de personagens obscuros que a série se tornou nos últimos volumes.

Destaco, no entanto, que ela realmente vai muito além disso na sua proposta. Todo o livro é um exemplo único de design e composição, praticamente um experimento multimídia literário. A base do enredo é o dossiê negro do título, que os protagonistas Allain Quatermain Jr. e Mina Harker roubam da ala secreta do Museu Britânico. Ele reconta a história das Ligas reunidas pelo Império Britânico desde o século XVII até o fim da Segunda Guerra Mundial através de colagens de publicações e memorandos secretos, o que serve de deixa para que Moore explore referências e estilos: há desde romances ilustrados a peças shakespeareanas, passando por uma bíblia de Tijuana e mesmo um trecho de um romance beatnik.

A maior parte do volume é composto por estes documentos, enquanto o enredo da história em quadrinhos em si, que envolve a fuga dos dois protagonistas do Reino Unido, fica em geral em segundo plano. Pode-se dizer, assim, que ele funciona na verdade como uma espécie de livro de apoio para a série, delineando detalhes do cenário e personagens secundários que não são propriamente desenvolvidos pelas outras histórias. A forma indireta como tais elementos são apresentados, no entanto, em geral impede que estas apresentações fiquem maçantes, muito embora certos trechos possam ser realmente difíceis de superar.

Se passando na década de 1950, a história também tenta ambientar os personagens com relação às referências da época. Há espaço para James Bond e os Vingadores (não, não os da Marvel), muito embora eles não sejam referidos diretamente pelos seus nomes – num truque para tentar escapar dos direitos autorais, aparentemente sem sucesso, eles são referidos sempre por apelidos ou alcunhas menos conhecidas. O partido Ingsoc de 1984 também possui uma participação importante entre outras referências mais obscuras, bem como Orlando, personagem de Virginia Woolf que também foi bastante descaracterizado da sua persona e história originais (e agora que eu já li o livro eu posso falar isso =P).

Uma última surpresa ainda é guardada para o fim da história: toda a seqüência final é apresentada em três dimensões, para ser vista através de um par de óculos 3D destacáveis nas páginas centrais! É um espetáculo visual à parte, com direito mesmo a alguns truques curiosos de ilusões óticas. Acredito que o momento mais marcante, no entanto, seja o discurso do Duque Próspero de Milão, personagem de Shakespeare transformado aqui no líder precursor da Liga, que encerra o livro destacando o objetivo da série como um todo: o de ser uma homenagem à ficção e à imaginação, nos lembrando da importância que eles possuem para a alma humana e o nosso próprio avanço enquanto civilização. Ou, como ele mesmo diz, se nós somos meras fantasias, o que dizer de vocês, que roubam a sua substância de nós? Não apenas vocês, mas toda a humanidade no seu progresso emula as fábulas. Ou de onde viriam os seus foguetes e submarinos se não do Náutilus, da carvorita? (…) Duas mãos ilustrantes, cada uma desenha a outra: as fantasias que você criou criam você.

The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier, enfim, é uma experiência de leitura única e envolvente, e poderia ter sido um fim bastante digno para a série. Ele já começa a demonstrar alguns dos vícios que os volumes seguintes aprofundariam, mas no geral, por todo maravilhamento do seu experimento narrativo, bem como pelo seu discurso em favor da ficção e da imaginação, é certamente uma leitura que vale a pena.

R. I. P., Ray Bradbury

Morreu nesta quarta-feira o escritor e roteirista norte-americano Ray Bradbury. É difícil dizer como isso me afeta, já que ele é provavelmente um dos meus escritores preferidos, e certamente “o” meu escritor preferido de ficção científica (e me perdoem aí as tietes do Asimov). Então era algo que eu não podia simplesmente ignorar e deixar passar por aqui. Seus livros se importavam menos com gadgets e especulações tecnológicas e mais com as sociais, sendo normalmente rotulado como ficção científica “soft“, mas sempre foram muito bem escritos, sem deixar de lado o humor, a melancolia e um profundo maravilhamento frente à ciência e o mundo.

Enfim, quem por acaso estiver aprendendo a ler hoje e quiser conhecer algumas de suas obras, não é difícil encontrar por aí seus principais clássicos, como Farenheit 451As Crônicas Marcianas e Algo Sinistro Vem por Aí, entre dúzias de outros. Um tempo atrás mesmo resenhei aqui Dandelion Wine, outro que recomendo enormemente, embora eu não saiba se existe uma edição nacional. Recentemente a editora Leya também editou O Zen e a Arte da Escrita, coleção de textos e anotações dele a respeito do seu ofício. Enfim, de maneira geral, qualquer coisa que tenha o nome dele na capa vale a pena comprar, de coletâneas de contos até a revista Caras.

Ficam os sentimentos aos familiares e os milhares de fãs agora órfãos de mais um grande gênio. E abaixo, uma das melhores homenagens que já fizeram a ele.

Mé of Thronis

Em uma terra medieval, diversas famílias nobres lutam para se estabelecer na corte de um reino fantástico. Conheça as intrigas e disputas do…

MÉ OF THRONIS

(pararam pam pararam pam pararam pam pararam pam…)

Estrelando:

Didyrion Lannister, o Mocó, malandro e gozador que usa sua esperteza em trambiques para se dar bem na corte real de Mésteros.

Dedéddard Stark, a Mão do rei Pincel (hum…), tenta agir com seriedade e lucidez frente às intrigas do reino, nem sempre com muito sucesso.

Rainha Mussersei, rainha de Mésteros, conhecida pela sua… Er… Beleza, e o gosto por um bom mé.

Zacarys, o Barata, o fofoq… Digo, espião da corte, sempre pronto a dividir informações secretas com seu sorriso irônico, a careca reluzente e o jeito afeminado.

Rei Pincel Baratheon, o rei de Mésteros, governante do reino cujo símbolo é um par de chifres.

 E não se esqueça: mé is coming!

Embassytown

Já falei um pouco em outra resenha sobre as razões que eu acredito explicarem como a ficção científica perdeu tanto espaço para a fantasia recentemente, e não vou me repetir. Acho curioso como certos paradigmas são difíceis de fugir, e acabam colaborando para torná-la anacrônica e até um pouco cômica com uma rapidez espantosa. Por exemplo, os aliens em si: quantas histórias que os envolvem vocês conhecem que realmente os tratam como, bem, aliens? Não como meramente seres humanos com outras cores, altura reduzida ou aumentada, às vezes um ou dois membros a mais? E que fazem isso sem tentar cair em um pseudo-misticismo, transformando-os em alguma espécie de ser transcendental, acima dos meros mortais?

Bem, China Miéville, em Embassytown, sua primeira incursão oficial pelo gênero (muito embora mesmo suas histórias de fantasia tivessem já um certo ar de FC), de fato tentou fugir deste paradigma. Seus ariekei são realmente aliens, seres diferentes e incompreensíveis para a mente humana. Suas formas evocam algo de um terror lovecraftiano, com descrições que fogem de desenhá-los nos mínimos detalhes, e a própria forma como entendem o mundo é diferente da nossa, através de uma linguagem que também é, ela própria, alienígena e semi-incompreensível.

Esta linguagem, conhecida como a Linguagem, em letras maiúsculas, é o mote principal de boa parte do livro. Exótica e alienígena, baseada menos em uma significação direta e mais em uma espécie de empatia sonora, ela é impossível de ser reproduzida por humanos comuns; apenas embaixadores alterados e treinados desde o berço para utilizá-la são capazes de se comunicar com eles. Isso nos traz uma parte do elemento político que também é tradicional nas obras de Miéville, pela forma como este corpo de funcionários diplomáticos se transformou em uma aristocracia insubstituível para a cidade que dá o título do livro. A própria ação principal da história começa com a chegada de um novo embaixador, criado longe de Embassytown e treinado pelo governo metropolitano, o que acaba tendo um efeito inesperado sobre os alienígenas que habitam o planeta.

Isso nos leva também ao que me parece ser o elemento principal do livro, uma espécie de fábula sobre a colonização de regiões distantes, e um estudo antropológico e literário sobre a linguagem e a comunicação. As tensões políticas entre Embassytown e a sua metrópole, bem como a relação entre os nativos e os seres humanos vindos de uma terra distante, remetem de forma bastante direta à nossa própria história, à colonização de países da África e da Ásia, e a luta deles pela sua independência. Há espaço para narcóticos linguísticos (que lembram um pouco a Praga de Buscard, que Miéville havia criado para o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas), e mesmo citações a histórias clássicas da antropologia sobre o contato com povos nativos, como os relatos do Capitão Cook.

Outro elemento interessante é a própria construção do futuro da humanidade no livro. Miéville é um cientista social, e não físico ou químico, de forma que os seus questionamentos sobre como será a vida no futuro dizem menos respeito a gadgets e tecnologia e mais às próprias pessoas e as relações que elas possuirão entre si. É interessante ver, nas entrelinhas do enredo principal, a visão do autor sobre temas como a sexualidade e o casamento, entre outros.

Claro, Miéville é um autor que em geral rejeita o rótulo de alegorista, e que faz questão de sempre se manter fiel às suas raízes na literatura pulp. Isso significa que, para além de uma alegoria sociológica, o que o livro se propõe realmente é ser uma espécie de thriller político, em que a personagem principal, em princípio sem muita importância, se envolve com as intrigas e políticas coloniais, em uma espiral de tensão que não faria feio como um filme hollywoodiano. Há pontos positivos e negativos nisso: por um lado, torna a leitura mais dinâmica e envolvente, sem perder por isso a profundidade e o questionamento sobre os temas levantados; por outro, no entanto, nos momentos finais ele acaba caindo em um jogo fácil de perseguição e corrida contra o tempo, com resoluções finais acabam vindo mais de epifanias espontâneas com ares mesmo de deus ex machinas. Em um determinado momento a própria narradora chega a anunciar que irá postergar a revelação da idéia que teve para resolver os conflitos, apenas para não estragar a surpresa do leitor…

Enfim, embora não seja perfeito, Embassytown ainda é uma leitura bastante provocante e envolvente, daquelas que te deixam refletindo por horas após a leitura de cada capítulo. É uma ficção científica que realmente soa contemporânea e responde a questionamentos contemporâneos, sem cair em anacronismos e paradigmas ultrapassados. Recomendo bastante.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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