A Espada Diabólica

Anos atrás achei essa preciosidade aqui em um sebo por exatas duas dilmas – já vi no Mercado Livre por pelo menos quarenta. Levei meio sem saber do que se tratava, e só me dei conta quando cheguei em casa e sentei para ler: é o único volume publicado no Brasil da famosa série do Elric de Melniboné, provavelmente a mais conhecida do escritor inglês Michael Moorcock, que é uma das mais queridas sagas de espada e feitiçaria da literatura fantástica, além de uma das inspirações menos lembradas para toda a fantasia medieval clássica de jogos de RPG.

Apesar de ser um dos primeiros livros da série – corresponde ao Stormbringer gringo, que é o nome da espada mágica que dá o título nacional -, ele começa na verdade no final da saga do herói. Elric já é então o último soberano do Império Brilhante de Melniboné, quando é obrigado a sair em uma nova jornada para salvar sua esposa, a rainha Zarozínia. No caminho, além de rever antigos companheiros, ele ainda se vê atirado no meio de uma guerra divina em que os representantes do Caos esperam obter o domínio absoluto sobre o mundo.

O que mais chama a atenção é o clima desolado e trágico que a história possui desde praticamente a primeira linha. Elric tem consciência de que é realmente o último membro de uma gloriosa dinastia de magos imperadores, e demonstra um sentimento de culpa pelos conflitos que teve contra seus parentes no passado, antes de vencê-los na disputa pelo trono. Mais do que isso, quando decide tomar partido na guerra pelo destino do mundo, sabe que está condenado também a si próprio: albino de nascença, possui um corpo frágil, e a única coisa capaz de mantê-lo vivo é a energia vinda da sua espada mágica, cujo poder vem justamente dos deuses do Caos. Assim, toda a história se desenvolve como uma tragédia anunciada, como em uma peça grega, caminhando capítulo a capítulo rumo a um dos finais mais devastadores da fantasia.

Para quem não sabe, Moorcock é um dos expoentes da chamada new wave da ficção científica e fantasia inglesas nas décadas de 1960 e 1970, e a saga do Elric é uma das mais emblemáticas do movimento. Assim, o livro acaba sofrendo com alguns problemas próprios dos ideais que representava, como uma narrativa apressada, focada mais na ação do que em detalhes de cena, muitas vezes quase como sumários de acontecimentos encadeados. Por um lado isso deixa a leitura bastante dinâmica, compreendendo toda uma saga épica completa em pouco menos de duzentas páginas, mas também há quem possa achar o estilo um pouco pobre por isso, de forma que talvez ele seja mesmo um pouco datado.

Mesmo assim, ainda é um clássico da fantasia pouco conhecido por aqui, salvo por quem tem acesso a livros importados e não tem problemas com línguas estrangeiras (sei que quase toda a série já foi traduzida para o espanhol e é razoavelmente popular na Argentina, por exemplo).  Por isso, com certeza vale a pena uma olhada para quem tiver a sorte de encontrar por aí.

6 Responses to “A Espada Diabólica”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 31/08/2012 às 15:43

    Ainda quero ler, ainda acho um “must read”, mas só de ler a resenha já deu pra sacar de cara a inspiração de Conan…

  2. 2 alexandrelancaster 31/08/2012 às 16:24

    Eu tenho. É obrigatório. Ele também é um dos materiais que mais fazem falta por aqui – acho que quando lançaram o Senhor dos Anéis, era a hora de ter lançado a saga completa e na ordem cronológica (seis volumes ao todo). Novamente, com o boom de Guerra dos Tronos, este é um bom momento para lançar o material.

  3. 3 Bruno 31/08/2012 às 18:25

    Acho que a questão não é bem ter inspiração em Conan, mas de ser do mesmo gênero… “Espada & feitiçaria” é um gênero maior do que Howard, mesmo que ele seja o autor mais conhecido. Tem as histórias do Edgar Rice Burroughs, do Fritz Leiber e outros, e o Elric e o Moorcock só se enquadram nessa tradição, então é claro que tem um punhado de elementos semelhantes.

    • 4 Ana Carolina Silveira 31/08/2012 às 22:26

      Sim, Sword and sorcery é gênero e como tal obviamente tem pontos de contato, mas não dá para deixar de reparar que a sinopse desse livro é bem parecida com a sinopse do primeiro conto do Conan. É demérito? Não. Só ressalta aos olhos a semelhança.


  1. 1 Antes do Fim do Mundo » Resenha: A Espada Diabólica Trackback em 20/09/2012 às 13:36
  2. 2 Crônicas de Espada e Magia | Rodapé do Horizonte Trackback em 02/08/2013 às 13:09

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