Arquivo para outubro \20\UTC 2012

Habibi

Tenho um pouco de pena de quem ainda vê as histórias em quadrinhos como “coisa de criança,” pura e exclusivamente. Isso não vem de uma visão elitista que querer defender que só adultos possam apreciá-las adequadamente, é claro. Elas certamente são muito atrativas para elas, pelas suas imagens coloridas mescladas à leitura, o que as torna ferramentas muito úteis na alfabetização no desenvolvimento da leitura; mas não há nada intrínseco à mídia que impeça que uma obra realmente adulta e madura seja feita através dos seus códigos e linguagem. É só ver o que fizeram nomes como Will Eisner, Robert Crumb e Art Spiegelman nos últimos cinquenta anos, ora…

Habibi, do norte-americano Craig Thompson, é outro excelente exemplo de HQ que não faria feio em qualquer prêmio literário. Ela tem tudo o que se espera de uma grande obra em prosa: é ousada e ambiciosa na exploração da linguagem, tanto a visual como a escrita; trata de temas maduros e intrinsecamente humanos como o amor (em todos os seus sentidos), a sexualidade, a religião; é apoiada por uma pesquisa profunda sobre a cultura árabe; e constrói de forma única e envolvente todo um universo de personagens e as relações entre eles e o mundo à sua volta. Mais do que tudo isso, ela faz ainda uma das mais bonitas homenagens à própria arte de contar histórias.

Os personagens principais são Dodola e Zam, duas crianças escravas que fogem dos seus dos seus captores antes de serem vendidos. Vagando pelo deserto, encontram um barco semi-enterrado na areia, onde fazem o seu lar, crescem e amadurecem nos anos seguintes. Para passar o tempo entre as buscas por comida e água, Dodola conta a Zam as histórias que conhece, contos retirados do Corão, transformando inadvertidamente a sua própria história em uma versão moderna de As Mil e Um Noites.

Claro que coisas acontecem e ambos são obrigados eventualmente a abandonar este Éden, partindo para enfrentar o mundo em jornadas separadas até a sua reunião arrebatadora. Mesmo distantes, no entanto, um está sempre com o outro, e, principalmente, à procura do outro. As histórias que contam então passam a ser um ponto norteador, um guia que os ajuda a enfrentar as dificuldades que encontram, e que os lembra constantemente daquele que os espera no fim das suas provações, e por quem nenhum deles pode desistir e ficar para trás.  Tudo isso em um cenário atemporal, em que um suntuoso palácio de prazeres pode estar ao lado de um lixão repleto de sucata e sujeira.

É uma história fantástica e cativante, complementada ainda pela arte maravilhosa. Will Eisner já dizia que a linguagem dos quadrinhos, ou arte sequencial, como ele a chamava, é o que se encontra na junção do texto e da imagem: nenhum deles é negligenciável; mesmo que você faça uma história sem palavras e diálogos, a simples disposição das imagens em uma determinada sequência já dá um novo significado para as suas paisagens e personagens, transformando-as, efetivamente, em um texto. Poucas vezes eu vi uma obra que explore esta idéia de forma tão profunda: palavras e imagens se mesclam, bordas belíssimas são usadas para destacar as histórias dentro da história, o próprio formato dos quadros e páginas é cheio de significados, colocando a ação dentro de símbolos místicos e religiosos. Em um determinado momento, por exemplo, Dodola está na chuva, e as gotas de água na verdade formam palavras em árabe – o autor, aliás, aprendeu a língua apenas para produzir a obra; em notas explicativas no final, sabemos que estas palavras formam na verdade uma canção sobre a chuva de um poeta iraquiano. A narrativa toda é cheia de jogos semelhantes, que dão novos significados a imagens que parecem simples, e novas camadas de profundidade à leitura.

Enfim, não posso recomendar Habibi o suficiente. É a melhor leitura que eu fiz este ano, seja entre quadrinhos ou literatura em prosa, de longe. Não me surpreenderia se o Craig Thompson ainda fosse o primeiro autor de quadrinhos a ser consagrado com um Nobel de literatura ou outro prêmio semelhante.

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Eeeee Eee Eeee

Eeeee Eee Eeee é um livro… Esquisito. Começando pelo nome: é uma transcrição do som que os golfinhos fazem, como uma onomatopéia mesmo, e que por razões que ficarão claras mais adiante surgem mais de uma vez ao longo do texto. Para além disso, ele conta a história de Andrew, um jovem nos seus vinte e poucos anos que trabalha como entregador em uma pizzaria Domino’s e basicamente não tem muitas perspectiva de futuro, exceto chorar a perda da ex-namorada, jogar pôquer e comer sushi com um antigo amigo de escola, e passar as madrugadas escrevendo histórias curtas. Até o fim do livro ele terá tido a vontade de sair em uma cólera assassina uma dúzia de vezes, encontrará animais falantes como ursos, golfinhos e alces, que por sua vez assassinarão celebridades como Elijah Wood, Salman Rushdie e Wong Kar-Wai, e ouvirá uma lição de moral do presidente dos Estados Unidos em um restaurante japonês, mas não mudará efetivamente nada em sua vida.

Resumindo, portanto, é um livro que sai do nada e vai para lugar nenhum – e essa é, na verdade, a sua grande qualidade. Entre a primeira e última frases o que se tem é uma crônica muito sincera de um estado de espírito, o dia-a-dia de vidas sem rumo e em depressão verdadeira, aquela que não é uma mera tristeza profunda, como quem nunca passou por isso parece achar que é, mas sim uma falta de vontade e de energia para viver. Se as aparições de animais falantes com poderes mágicos parecem absurdas e gratuitas, na verdade isso é um reflexo do próprio absurdo que é a vida aos olhos desses personagens – um mundo onde um golfinho pode matar uma celebridade a pauladas em uma ilha deserta e isso ser visto como algo banal, sem qualquer significado.

Nisso pode-se dizer que o livro lembra algo de um Charles Bukowski na última potência, com seus personagens vazios e marginalizados, a sujeira barrada no filtro do “sonho americano,” mas aqui longe das bebidas e das mulheres que disfarcem o seu fracasso. Mesmo o estilo do texto lembra um pouco as descrições cruas e frases curtas do velho safado germano-americano, que podem ser facilmente confundidas com descuido literário, mas que estão na verdade sempre certeiras no seu posicionamento, sem excessos nem arestas mal aparadas. Se a ação é truncada, com mais pontos finais do que vírgulas, é porque é assim também que os personagens se sentem quando fazem alguma coisa, repletos de incertezas e hesitações; e quando estas hesitações desaparecem temos algumas passagens de brilho verdadeiro, enquanto o autor discursa sobre a solidão, a natureza da consciência, e o que é, afinal, a felicidade.

No fim, certamente não vou dizer que Eeeee Eee Eeee seja um livro recomendado sem ressalvas para qualquer um. O estilo único demais e a falta de uma direção no enredo devem entediar e afastar a maioria dos leitores. Comigo, no entanto, ele ressoou de forma bastante forte, me remetendo à minha experiência pessoal e a forma como eu encarava a vida até não muito tempo atrás, que deixou feridas ainda abertas e lacunas profundas na forma como eu me relaciono com outras pessoas.  Se, como eu refleti em outro momento, vivemos mesmo na Era da Depressão, talvez o autor Tao Lin seja o cronista mais sincero desta geração.

Os Reis do Rio

Os Reis do Rio é um livro do carioca Rafael Lima, que já havia publicado de forma independente a tecnofantasia Aura de Asíris, e agora estreia na Editora Draco com uma história de ação em um Rio de Janeiro destruído após uma guerra nuclear. É a história dos irmãos Will e Edu Costa e sua amiga/namorada Lia, enquanto os três se envolvem em uma guerra de facções e uma conspiração que pode decidir o destino não só da cidade, mas também de todo o mundo após o apocalipse.

Quem torce o nariz para a cultura do samba, para a informalidade carioca e tudo mais pode ficar um pouco apreensivo com a premissa, mas há algo que conta de forma imensamente positiva para o livro: ele não tenta generalizar essa cultura e fazer dela a expressão máxima de uma brasilidade estereotipada, como em uma novela global ou programa da Regina Casé. Desde a sinopse na contra-capa ele já se assume como uma distopia 100% carioca, não brasileira, e essa honestidade pelo menos ajuda a reduzir o fator bairrismo e a avaliá-lo a partir dos seus próprios símbolos regionais, e não em comparação com outros.

Conta a favor também o fato de ser uma história interessante e ter um cenário bem construído, ainda que obviamente exagerado em muitos pontos. Há algo de Fuga de Nova Iorque / Los Angeles perdido ali no meio, o que eu  pelo menos acho muito legal. Mesmo que o seu ritmo e desenvolvimento deixem um pouco a desejar – há coincidências demais, certas atitudes de alguns personagens não parecem exatamente muito naturais, e é um pouco broxante se deparar com três situações de crise idênticas, resolvidas também com três deus ex-machinas idênticos, já nas cem primeiras páginas -, o saldo final da leitura até que é positivo. Há algumas boas reviravoltas perto do final pra te deixar incerto sobre o desfecho, e mesmo uma boa dose de ideias provocantes para te deixar refletindo após a conclusão.

O grande calcanhar de Aquiles do livro, no entanto, está no estilo. Não chega a ser mal escrito a ponto de tornar a leitura inviável, mas algumas revisões e reescritas de certas passagens também não fariam mal. As frases são por vezes truncadas, cheias de vírgulas que interrompem o fluxo da leitura, e, pecado máximo de um escritor, há advérbios sobrando. Também há mudanças bruscas de pontos de vista que te deixam confuso sobre quem está fazendo o quê e de que forma, além de algumas vezes até abandonando ações no meio da descrição para se dedicar ao que está acontecendo a outros personagens.

Os diálogos, por outro lado, são um ponto positivo. São em geral bem encadeados, apesar de alguns excessos, e possuem uma oralidade bem acentuada, até com algumas gírias simples eventuais. Quando os personagens estão conversando a leitura flui fácil, diferente dos momentos de ação ou de narrativa mais impessoal.

Na soma final, eu diria que Os Reis do Rio pode ser sim bem recomendado, embora não sem algumas ressalvas. As frases truncadas e o estilo irregular podem incomodar quem estiver acostumado a fazer uma leitura mais crítica, mas para quem olhar além deles há um enredo interessante e uma visão provocante do futuro do Rio de Janeiro após um apocalipse nuclear. Talvez um carioca de fato tenha mais facilidade para se identificar com os personagens e as situações do que eu tive, mas pode valer uma olhada mesmo se esse não for o seu caso.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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