Os Reis do Rio

Os Reis do Rio é um livro do carioca Rafael Lima, que já havia publicado de forma independente a tecnofantasia Aura de Asíris, e agora estreia na Editora Draco com uma história de ação em um Rio de Janeiro destruído após uma guerra nuclear. É a história dos irmãos Will e Edu Costa e sua amiga/namorada Lia, enquanto os três se envolvem em uma guerra de facções e uma conspiração que pode decidir o destino não só da cidade, mas também de todo o mundo após o apocalipse.

Quem torce o nariz para a cultura do samba, para a informalidade carioca e tudo mais pode ficar um pouco apreensivo com a premissa, mas há algo que conta de forma imensamente positiva para o livro: ele não tenta generalizar essa cultura e fazer dela a expressão máxima de uma brasilidade estereotipada, como em uma novela global ou programa da Regina Casé. Desde a sinopse na contra-capa ele já se assume como uma distopia 100% carioca, não brasileira, e essa honestidade pelo menos ajuda a reduzir o fator bairrismo e a avaliá-lo a partir dos seus próprios símbolos regionais, e não em comparação com outros.

Conta a favor também o fato de ser uma história interessante e ter um cenário bem construído, ainda que obviamente exagerado em muitos pontos. Há algo de Fuga de Nova Iorque / Los Angeles perdido ali no meio, o que eu  pelo menos acho muito legal. Mesmo que o seu ritmo e desenvolvimento deixem um pouco a desejar – há coincidências demais, certas atitudes de alguns personagens não parecem exatamente muito naturais, e é um pouco broxante se deparar com três situações de crise idênticas, resolvidas também com três deus ex-machinas idênticos, já nas cem primeiras páginas -, o saldo final da leitura até que é positivo. Há algumas boas reviravoltas perto do final pra te deixar incerto sobre o desfecho, e mesmo uma boa dose de ideias provocantes para te deixar refletindo após a conclusão.

O grande calcanhar de Aquiles do livro, no entanto, está no estilo. Não chega a ser mal escrito a ponto de tornar a leitura inviável, mas algumas revisões e reescritas de certas passagens também não fariam mal. As frases são por vezes truncadas, cheias de vírgulas que interrompem o fluxo da leitura, e, pecado máximo de um escritor, há advérbios sobrando. Também há mudanças bruscas de pontos de vista que te deixam confuso sobre quem está fazendo o quê e de que forma, além de algumas vezes até abandonando ações no meio da descrição para se dedicar ao que está acontecendo a outros personagens.

Os diálogos, por outro lado, são um ponto positivo. São em geral bem encadeados, apesar de alguns excessos, e possuem uma oralidade bem acentuada, até com algumas gírias simples eventuais. Quando os personagens estão conversando a leitura flui fácil, diferente dos momentos de ação ou de narrativa mais impessoal.

Na soma final, eu diria que Os Reis do Rio pode ser sim bem recomendado, embora não sem algumas ressalvas. As frases truncadas e o estilo irregular podem incomodar quem estiver acostumado a fazer uma leitura mais crítica, mas para quem olhar além deles há um enredo interessante e uma visão provocante do futuro do Rio de Janeiro após um apocalipse nuclear. Talvez um carioca de fato tenha mais facilidade para se identificar com os personagens e as situações do que eu tive, mas pode valer uma olhada mesmo se esse não for o seu caso.

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