1Q84

1q84Acho que não existe quem não seja familiarizado com a idéia de almas gêmeas. Você sabe: duas pessoas destinadas a ficarem juntas, que reconhecem um no outro tudo aquilo que querem num companheiro para a vida, e cuja união já está “escrita nas estrelas” praticamente desde o nascimento. Uma idéia romântica e boba, segundo muitos, típica da superficialidade da vida contemporânea, onde a falta de um sentido social mais amplo para a existência leva as pessoas a os procurarem em uma extrapolação e transcedentalização dos seus desejos individuais; há quem diga até que seria uma idéia um pouco assustadora se fosse mesmo verdade. Por outro lado, por mais cético que você seja, algumas vezes acontece de encontrar uma pessoa que põe isso tudo em perspectiva, e o faz pensar que talvez não seja algo tão absurdo assim.

Em todo caso, independente da sua opinião a respeito, é inegável que, antes de mais nada, almas gêmeas são um clichê. É um deus ex machina bastante fácil, em que um autor quer que dois personagens fiquem juntos mas não tem tempo para (ou muitas vezes não sabe como) fazer isso acontecer. É difícil encontrar uma história que utilize esta idéia sem sem soar tosca, óbvia e até um pouco preguiçosa. 1Q84, último livro do japonês Haruki Murakami, é uma das poucas que realmente consegue isso.

Muito se deve, é claro, ao fato de que Murakami possui tempo de sobra para desenvolver esta relação. São quase mil páginas, ou até mais dependendo da edição, para unir os protagonistas Aomame e Tengo – tantas que o livro foi publicado em três volumes separados no Japão, e será assim também aqui no Brasil. Há tempo para que a história de ambos seja contada em detalhes, para que conheçamos tudo aquilo que eles possuem em comum, bem como o evento arrebatador que os uniu ainda na infância. A narrativa pode até mesmo se dar ao luxo de expor o seu tema central já umas boas centenas de páginas adentro, não se preocupando em fazê-los se cruzar gratuitamente antes de isso ser realmente necessário.

Nesse meio-tempo, o enredo se desenvolve como um típico romance murakamiano. Já disse antes, mas é uma descrição tão perfeita que não há como não repetir: ler Murakami é como entrar em um estado de sonho onde impera a lógica do surreal e do onírico, em que o espírito de um corpo comatoso pode visitar apartamentos atrás de mensalidades atrasadas da rede de televisão NHK, seres pequeninos saem de dentro de cadáveres para criar casulos de ar, e uma segunda lua pode pairar suspensa ao lado da que conhecemos. Neste caso em especial a passagem para o outro mundo chega a ser mesmo literal, enquanto os dois protagonistas, cada um à sua maneira, acabam tragados para o ano de 1Q84, uma versão alternativa do nosso 1984 – o Q, no caso, representa uma questão, a dúvida que ambos possuem sobre a natureza do mundo em que entraram; e é também um trocadilho com o número nove em japonês, que é pronunciado kyu, da mesma forma que a letra Q em inglês.

O fato de ter uma narrativa de sonho, no entanto, não impede que o autor toque também em temas bastante concretos e reais. Dois em especial se destacam pela profundidade e frequência com que são tratados: o da violência contra as mulheres e a influência da religião na vida das pessoas. De um lado, Murakami não se furta de ser bastante cru e direto na descrição de cenas violentas, não tentando mascarar ou esconder a crueldade com que certos personagens são tratados. Do outro, traz à tona um tema bastante caro ao povo japonês – o das seitas religiosas fechadas, como a que causou o incidente com o gás sarin no metrô de Tóquio em 1995 -, sem deixar de dar a sua própria mensagem sobre o papel da espiritualidade e religiosidade para o ser humano.

Murakami possui um estilo bastante característico, com o qual eu já estou ficando bem acostumado. Suas descrições são detalhadas e cheias de pormenores, passando por cada cheiro, sensação e pequeno gesto feito pelos personagens. Nos piores momentos, isso torna a leitura morosa e até um pouco tediosa, com diálogos triviais e sem significado, algumas vezes até um tanto toscos (em especial na fixação de Aomame com o tamanho dos seus seios e os das suas amigas), além de constantes redundâncias e exposições que poderiam ser deixadas implícitas ao invés de serem escancaradas. Em especial os Little People, os seres sobrenaturais que desencadeiam boa parte do lado mais surreal do enredo, acabam perdendo bastante com isso, parecendo às vezes cômicos demais quando tentam ser assustadores.

Nos seus melhores momentos, no entanto, é uma prosa extremamente envolvente e impressionista, capaz de despertar sentimentos profundos através de palavras e frases simples, que parecem ter sido escritas de uma tacada só, como se saíssem naturalmente dos dedos do autor. Há espaço para reflexões filosóficas e referências eruditas profundas, desde a Sinfonietta do compositor tcheco Leoš Janáček, que perpassa muitos dos momentos fundamentais da trama, até O Ramo Dourado de Sir James Frazer, que serve de base para o seu lado mais místico e esotérico, além de uma longa presença nos capítulos finais de Em Busca do Tempo Perdido, do Proust. Como os próprios protagonistas, nestes momentos você também se sente tragado para o mundo estranho do ano 1Q84, e quase é capaz ver as duas luas pairando no céu quando olha pela janela.

Trata-se da obra mais ambiciosa de Murakami, enfim, mas não sei dizer se é um livro para todos os leitores. O seu tamanho assusta, e as particularidades do estilo podem facilmente entediar quem não estiver acostumado – o primeiro livro, em especial, é bastante devagar, para então seguir em um crescendo extremamente envolvente de tensão até mais ou menos a metade da história, e terminar com uma distensão longa e vagarosa até o desfecho. Se você nunca leu nada dele, talvez seja melhor começar com uma obra mais simples, como Minha Querida Sputnik ou Após o Anoitecer, antes de se arriscar; se já conhece ou é fã, no entanto, vai fundo, pois é uma leitura bastante única e cativante.

5 Responses to “1Q84”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 30/11/2012 às 23:06

    Você me deixou com vontade de ler o livro, apesar de que ainda não passou o trauma do último livro dele que li (Norwegian Wood – e não porque o livro seja ruim, mas porque é muito bom e mexeu demais com meu estado de espírito na época). E outras coisas, também😛🙂😉

  2. 2 Gabriel Barboza 01/12/2012 às 00:44

    Essa capa americana é muito mais legal do que a edição nacional.


  1. 1 South of the Border, West of the Sun | Rodapé do Horizonte Trackback em 25/12/2013 às 00:44
  2. 2 Trilogia do Rato | Rodapé do Horizonte Trackback em 26/06/2015 às 18:00

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