O Inescrito

O-inescritoVou chamar aqui de metaficção histórias cujo tema central são as próprias histórias – ok, é um conceito mais complexo que isso, mas não vamos entrar em detalhes chatos de teses acadêmicas, certo? O fato é que este tem sido um tema bastante comum em histórias de fantasia, sobretudo histórias em quadrinhos. Dá pra resgatar isso desde A Liga Extraordinária, em especial as tramas pseudo-esotéricas que ela tem favorecido do Black Dossier em diante, passando ainda pela verdadeira obra-prima do Alan Moore, Promethea, e mesmo as histórias da série Fábulas que tem sido publicadas por aqui. O Inescrito é outra série que se enquadra bem nessa tradição.

Cortando a ladainha, a HQ conta a história de Tommy Taylor, o seu fenômeno literário genérico de Harry Potter da vez, cuja inspiração já é assumida ao ser desenhado como um rapaz de óculos redondos com um par de amigos fieis, um animal de estimação místico e um inimigo careca de aparência sinistra. Seu autor, Wilson Taylor, desapareceu antes de completar a série, deixando para trás uma legião de fás inconformados e o seu filho, Tom, supostamente a inspiração para o personagem, que se tornou uma celebridade que ganha a vida fazendo paineis e aparições em convenções. Uma pergunta em um destes eventos, no entanto, o faz se questionar sobre a sua própria origem, fazendo-o ir atrás do que aconteceu com o seu pai, e dando início a uma jornada fantástica em que a linha que divida a realidade e ficção torna-se cada vez mais tênue.

Acho que a grande diferença deste para um Reino dos Malditos, por exemplo, é que os autores Mike Carey e Peter Gross não tentam fugir realmente das suas referências, assumindo corajosamente a fantasia e não tentando justificá-la com um verniz de pseudo-ficção científica. Trata-se de uma história de fantasia cujo tema são central são realmente as histórias de fantasia, o que as torna apaixonantes e cativantes, e capazes de se tornar reais nos seus próprios termos para os leitores. Ao longo das páginas até mesmo autores reais como Mark Twain e Rudyard Kipling aparecem, e aos poucos vai se revelando uma verdade oculta sobre a ficção que, mesmo enquanto fantasia, não deixa de ecoar uma realidade maior para os fãs de literatura.

Ajuda muito também o fato de que os dois autores possuem um domínio narrativo excelente, tanto na construção do enredo e concepção dos personagens como das próprias técnicas da narrativa em quadrinhos. Informações sobre a história dos personagens, elementos importantes da trama e afins são passados aos leitores sem peso, sem se tornarem maçantes ou interferir com a dinâmica da história; ao fim do primeiro capítulo você já entende a premissa básica, as motivações dos personagens principais e os mistérios fundamentais que devem mover o enredo, e nada disso o impede de ser envolve e ter mesmo a sua dose básica de ação. Há mesmo o uso de elementos bem contemporâneos como noticiários sensacionalistas, sites de teorias da conspiração, e até fóruns de internet permeando as suas páginas.

O Inescrito, enfim, é um ótimo lançamento, que com um só volume já conseguiu despertar o meu interesse e me deixar ansioso para ver os próximos capítulos. Recomendo muito para fãs de histórias de fantasia, ou apenas de boas histórias.

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