A Outra Face da Lua

outrafacedaluaExiste uma certa fixação sobre o Japão e tudo o que é japonês no mundo ocidental, da qual nem mesmo eu estou exatamente livre – vide certas coisas que me despertam o interesse praticamente apenas devido a isso, meu encantamento com a obra de autores como Haruki Murakami e Kobo Abe, ou até o meu gosto pelo sushi e a culinária oriental de maneira geral, que não imagino existindo com a mesma intensidade de outra forma. De minha parte, sei que posso justificar isso pela onipresença da cultura pop nipônica na minha geração, com a invasão que tivemos de animes e mangás pelo menos desde Cavaleiros do Zodíaco, lá nos idos dos anos 1990; fui criado entre Evangelion e Final Fantasy, e é difícil imaginar que isso não tenha deixado algumas marcas na minha personalidade. Recuando um pouco mais, o Japão, seus ninja e mecha também tiveram uma presença forte na cultura pop da década de 1980, em grande parte devido ao próprio prodígio econômico que era o país naquele período, que atraía os olhares de todo o mundo para o arquipélago. Mas quando temos o peso de um Claude Lévi-Strauss, maior nome da antropologia contemporânea e considerado mesmo por muitos o maior intelectual do século XX, confessando a sua paixão pela cultura japonesa… Bom, talvez já possamos desconfiar de que há algo de realmente especial nela.

Como descobrimos já na introdução de A Outra Face da Lua, uma pequena coletânea de textos dele sobre a terra do sol nascente, Lévi-Strauss justifica esse interesse pelas estampas japonesas que recebia de presente do seu pai na infância, como recompensa por boas notas na escola, e que desde muito cedo o encantaram e despertaram a curiosidade sobre o estilo e cenas que eram retratadas. Mesmo assim, foi só em 1977, já um pesquisador consagrado, que ele teve a oportunidade de visitar o país pela primeira vez, dando início à série de viagens e textos que são reunidos no volume. As fontes variam bastante – há discursos em congressos sobre a cultura oriental, artigos acadêmicos, mesmo a transcrição de uma entrevista para a rede de televisão NHK -, o que justifica até algumas idéias bastante repetidas entre eles, como a da inversão das técnicas japonesas em relação às do resto do mundo (por exemplo, o fato de cavaleiros japoneses montarem o cavalo pelo lado direito, enquanto os europeus montam pelo lado esquerdo), ou comentários sobre as obras de artistas tradicionais como Hokusai e Sengai; mas o que se sobressai, principalmente, é a vasta erudição e conhecimento que ele possui sobre os mitos e costumes não só locais como de todo o globo, fazendo diversas ligações e paralelos entre histórias como as da Lebre de Inaba e dos deuses Amaterasu e Susanoo com mitos americanos, europeus e insulíndios.

E então, agora com o aval do monsieur Lévi-Strauss, será possível entender o que causa esse fascínio todo das coisas japonesas? Nunca haverá uma resposta definitiva, acredito, muito menos em um livro com textos de origens tão heterogêneas e que não buscam diretamente responder a esta pergunta, mas há sim algumas pistas interessantes a se pescar. Para além do chavão da dicotomia país-ultramoderno-versus-sociedade-tradicional, o antropólogo, buscando referências em todos os seus estudos e bagagem intelectual a respeito de mitologia universal, destaca o relativo primitivismo dos mitos japoneses, e a forma como, ainda hoje, eles se fazem tão vivos na cultura local. Foi esse elemento que despertou a curiosidade ocidental já em fins do século XIX, como se preservasse algo que, para nós, há muito havia se perdido; e é em parte ele também que, mesmo em meio a revoluções tecnológicas e mudanças políticas e sociais que parecem torná-los anacrônicos, persiste na sua vitalidade e continua a fascinar e encantar os olhos estrangeiros.

A Outra Face da Lua, enfim, é uma coletânea de textos bem interessantes, tanto para os interessados na obra de Lévi-Strauss como para os curiosos em entender um pouco melhor a cultura japonesa. E a edição da Companhia das Letras também está linda, com uma sobrecapa em papel vegetal com o título sobrescrito em caracteres ideográficos, além de um encarte central com fotos do autor em suas viagens pelo país. Recomendado.

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