Django Livre

Django UnchainedTem um texto do Luís Fernando Veríssimo (e esse eu sei que não é daqueles apócrifos, lembro de ter lido na coluna que ele possui na Zero Hora mesmo) em que ele sugere que o grande avanço da caracterização do negro no cinema não teria sido o primeiro herói afrodescendente, mas sim o primeiro vilão. Foi ele que realmente representou, afinal, um estatuto de igualdade: o reconhecimento de que o negro não era apenas um pobre coitado, um infeliz meio cômico à margem dos protagonistas, o Grande Otelo quintessencial; nem um poço de pureza original, livre dos pecados do homem branco; mas sim um igual em todos os sentidos, capaz sim dos mesmos feitos de heroísmo, mas também das mesmas vilanias, e cuja cor da pele é apenas um elemento a mais como qualquer outro na sua caracterização.

Assistindo Django Livre, trabalho mais recente do diretor Quentin Tarantino, é difícil não retomar essa afirmação, até porque ela ajuda a entender um pouco das polêmicas que ele levantou em alguns movimentos sociais. O filme, um faroeste cujo nome faz referência à clássica série spaghetti estrelada pelo Franco Nero, resgata a história da escravidão nos Estados Unidos, mas o faz de forma bastante crítica, fugindo do lugar comum e da idealização. O negro que ele apresenta é mais do que uma mera vítima: é claro que há os que lutam contra ela, e se rebelam em busca de objetivos e vinganças pessoais, como o personagem-título; mas há também aqueles que aprendem a usá-la a seu favor, e acabam se tornando, a seu próprio modo, perpetradores do mesmo sistema que os oprime – uma visão que é até mais condizente com estudos históricos recentes sobre o tema. (Recentemente, aliás, li Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue,  da historiadora Emília Viotti da Costa, que fala sobre a revolta dos escravos em Demerara, na Guiana Inglesa, e recomendo bastante para quem quiser uma visão mais contemporânea a respeito).

Isso não significa, é claro, que Tarantino queira diminuir a escravidão africana de qualquer forma. Muito pelo contrário, aliás: ele não esconde em qualquer momento que ela é, sim, uma forma cruel de opressão, e como que para tornar isso mais evidente, até mesmo abre mão da sua violência caricata tradicional em prol de uma visão mais crua e suja na hora dos castigos e torturas sofridos pelos personagens (o que não quer dizer que ela não apareça em outros momentos, é claro). A redenção que ele propõe, no entanto, não é para o povo negro como um todo, e sim para cada indivíduo sozinho, a partir dos seus próprios atos e decisões.

Isso decorre muito da própria homenagem que o diretor quer fazer, que, ao contrário do que pode parecer a princípio, não é ao faroeste italiano, mas sim ao cinema negro da década de 1970 – o subgênero que ficou conhecido como blaxploitation. Nada demais, é claro, para alguém que já havia homenageado o faroeste com um filme de artes marciais, e que usou um filme sobre a segunda guerra mundial para falar do cinema como um todo. Você pode ver isso na própria cinematografia, com o uso exagerado de zooms e close-ups; e na caracterização dos personagens, em especial o personagem-título mesmo, com direito até a anacrônicos óculos escuros. O nome do personagem mais icônico do gênero é usado como referência, e mesmo a letra música de encerramento de alguma forma parece remeter ao seu tema clássico.

No entanto, é essa homenagem também que torna o personagem de Christoph Waltz um tanto deslocado, praticamente apenas uma desculpa para o diretor incluí-lo no filme e dar a ele um novo Oscar de presente (podia ter dado logo pro Leo DiCaprio, que há tanto tempo chora por um). Ele torna necessário uma série de forçações de barra no roteiro, como justificar que uma escrava saiba falar alemão; além de trazer um tanto de melodrama desnecessário ao incluir um subtexto em que o protagonista se torna uma versão afrodescendente do herói germânico Siegfried. O fato de tê-lo como mentor e guia também diminui um pouco o próprio Django, tornando até um tanto incômodo ver um herói negro forte e cheio de decisão que, no entanto, deve isso a um branco que se apiedou da sua situação. Por outro lado, é também emblemático que seja justamente um personagem branco, e um alemão além do mais, que faça os discursos mais incisivos contra a escravidão. Acaba servindo bem de lembrança de que sensatez e compreensão, assim como os seus opostos, independem de cor ou etnia.

Na soma final, enfim, ainda achei Django Livre um filme bem legal e divertido. Cenas como a da proto-Ku Klux Klan são hilárias, e valem o filme por si só. Ele só peca mesmo por não ser tão bom quanto Bastardos Inglórios, mas, a bem da verdade, como seria possível esperar por isso? Vale a pena assistir, de qualquer forma.

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3 Responses to “Django Livre”


  1. 1 zeh 11/03/2013 às 22:48

    preciso comentar…existe um motivo sim para colocar o king….faz parte de uma trilogia que volta para alemanha no proximo filme…que começou com bastardos inglorios…por sinal o proximo se chama killer crow….

  2. 2 Ana Carolina Silveira 12/03/2013 às 15:01

    Discordo só de ser pior do que Bastardos Inglórios, não achei mesmo 😛 E mesmo o mentor branco, de certa forma para o contexto o Django precisava da parceria de um branco – para ter propriedades, um cavalo, o que fosse, e para deixar o paralelo King-Candie e Django-Stephen mais evidente.


  1. 1 Faroeste Caboclo | Rodapé do Horizonte Trackback em 22/07/2013 às 22:30

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