Arquivo para abril \17\UTC 2013

The Way of Kings

the-way-of-kings-by-brandon-sandersonNo Livro Sagrado das Convenções dos Gêneros Literários, geralmente se considera a “alta” fantasia como aquela dos mundos alternativos ao nosso, com outras geografias e raças e leis naturais. Não interessa se estamos em um mundo medieval semi-histórico como Westeros, com guerras épicas maniqueístas como a Terra-Média, ou repleto bugigangas e tranqueiras mágicas como Toril; não é a nossa Terra, ou pelo menos uma versão levemente alterada dela, então é alta fantasia do mesmo jeito. O jargão popular, no entanto, acabou dando ao termo um significado diferente: uma fantasia é mais “alta” quanto mais espalhafatosa for a sua relação com o sobrenatural, ou quanto mais absurdos e recorrentes forem os seus deus ex machina. Um mundo como Westeros, onde a magia é rara e custosa, seria uma fantasia bastante “baixa;” enquanto uma Toril, com seus Elminsters visitando o inferno e espadas mágicas jogadas nos cantos de masmorras, já seria um bocado “alta.”

Se adotarmos esta segunda concepção, podemos dizer que Roshar, o mundo de The Stormlight Archive, série do autor norte-americano Brandon Sanderson cujo primeiro volume é este The Way of Kings, seria algo como o Monte Everest da fantasia. Tudo nele é espalhafatoso e exagerado: os nomes são rocambólicos, os monstros são grandes, as batalhas são destruidoras, a magia é semi-divina, chegando ao ponto em que acampamentos de guerra contam com fortalezas de pedra erguidas em instantes e certos povos chegam a dispensar a agricultura em prol de alimentos gerados magicamente. O esforço em criar um mundo mágico e maravilhoso ao extremo é tanto que algumas vezes chega a ser até cômico – os nomes com mais consoantes do que vogais dão vontade de rir mesmo, e há uma profusão de detalhes vazios nos costumes e vestimentas dos personagens que não conseguem mais do que entediar.

O exemplo mais icônico da “altura” da fantasia no livro são as Shards, espadas e armaduras poderosíssimas deixadas para trás pelos Radiant Knights, ordens de cavaleiros que as teriam recebido dos Apóstolos do Todo-Poderoso para proteger a humanidade contra os Voidbringers, seres demoníacos que desejam expulsar os homens para o equivalente local do inferno. Após estes cavaleiros traírem seus protegidos e debandarem, seus artefatos passaram a ser disputados pelos diversos reinos e povos que se formaram pelo mundo, muitas vezes definindo as relações de poder e dominação entre eles. É graças a eles que muitos personagens são capazes de feitos de heroísmo dignos de um anime ou mangá shonen, como enfrentar em igualdade exércitos inteiros e monstros gigantes, dando à ação do livro muitas vezes um certo quê de Cavaleiros do Zodíaco medieval.

Mas isso, claro, é o que ele tem de mais legal. O contra-ponto é que a história contada neste primeiro volume é tão arrastada quanto é espalhafatosa e exagerada. Para quem não sabe, Sanderson, o autor, foi o escolhido pelo próprio Robert Jordan para terminar a sua consagrada série The Wheel of Time após a sua morte, e quem leu ao menos o primeiro livro sabe o quanto ela é arrastada e enrolona – e, lendo este, pode-se ver bem como a escolha foi acertada e perfeita. Há quatro protagonistas – definidos na sinopse da contra capa como “o cirurgião, o assassino, a mentirosa e o príncipe,” embora o segundo na verdade só apareça nos interlúdios entre as partes maiores do livro – cujos capítulos se intercalam de forma bem George-Martiniana, sem necessariamente se encontrarem diretamente mas girando em torno de um mesmo conjunto de lugares, personagens e situações, em especial as profecias sobre o retorno dos Apóstolos e uma guerra de vingança de um reino recém unificado contra os supostos assassinos do seu rei. Destes quatro, no entanto, apenas dois são realmente interessantes, e mesmo o enredo deles demora pelo menos um terço do livro para começar a engrenar. Como se não bastasse, o autor ainda perde tempo com ironias fracas e sub-enredos românticos sem qualquer propósito fora o de seguir alguma receita de bolo aprendida em oficinas de escrita, além capítulos de interlúdio com coadjuvantes que pouco ou nada tem de relação com os demais, e servem praticamente apenas para ele exibir todo o worldbuilding que fez.

Pra ser sincero, eu desisti de ler o livro duas vezes, e na verdade só decidi retomá-lo e me esforçar para ir até o fim por causa de um amigo que insistia que ele ficava bom lá pela página seiscentos ou setecentos das suas mais de mil. E a pior parte? Ele tinha razão. O terço final do livro, quando coisas finalmente começam a acontecer e o enredo a andar a passos de elefante, é realmente empolgante, e te deixa com vontade de ir atrás da continuação. E é então que finalmente chega aquele momento em que são duas horas da manhã e você tem que acordar cedo no dia seguinte, mas simplesmente não consegue parar de ler para ir deitar… Exceto que então você já está na página 1200 e faltam só três capítulos para terminar o maldito.

É bastante frustrante, na verdade. O segundo volume (de dez planejados pelo autor) deve ser publicado ainda este ano. Eu devo procurá-lo apenas quando sair a edição em paperback – não acho que ele valha o preço de um hardcover. Para quem começar a ler agora, no entanto, as chances são boas de que o termine apenas quando o próximo já estiver disponível…

Anúncios

Ninja Attack!

ninjaattackNinja! Acho que não preciso dizer mais nada. Essa é uma daquelas palavras que adquiriram com um tempo todo um significado próprio, e resumem em cinco letras o máximo de incredibilidade possível nas línguas humanas. Ou pelo menos é assim desde a década de 1980, quando eles invadiram a cultura pop ocidental entre os quadrinhos do Frank Miller e os filmes do Michael Dudikoff.

Ninja Attack! – True Tales of Assassins, Samurai, and Outlaws é um pouco uma homenagem a essa figura icônica, e também um belo estudo cultural sobre a sua história e significado. Escrito pelo casal Hiroko Yoda e Matt Alt, com ilustrações muito legais de Yutaka Kondo, ele é na verdade o volume do meio de uma série maior, em que outros elementos da cultura japonesa são estudados e apresentados ao público leigo – ele se completa, até o momento pelo menos, com Yokai Attack!, o primeiro volume, que fala de monstros e criaturas folclóricas orientais; e Yurei Attack!, que fala sobre histórias de fantasmas tradicionais e modernas (pensem em O Chamado, O Grito e toda a onda de filmes de horror orientais de um tempo atrás).

Todos os três seguem um modelo parecido: um grande catálogo de personagens e criaturas dentro do seu tema, contando a sua história, analisando a sua possível veracidade, e mesmo adicionando algumas notas eventuais sobre a sua importância cultural nos dias de hoje, incluindo ilustrações de época e fotos do Japão moderno que a explicitem. O tema deste, especificamente, são os ninja mais famosos da história japonesa, mas é claro que há algo mais além deles – há um espaço dedicado aos seus mestres, os senhores da guerra orientais que os empregavam nas suas batalhas; e, sob o pretexto de serem “rivais dos ninja,” até mesmo alguns samurai e outros guerreiros famosos, como Miyamoto Musashi e Yagyu Jubei.

A grande maioria das figuras relatadas são personagens históricas, o que adiciona uma camada a mais ao livro como uma versão bastante única da história japonesa. Apenas na sessão final, que se dedica à transformação dos ninja em lenda e figura literária, somos apresentados a algumas figuras ficcionais marcantes – inclusive o famoso Jiraiya, para quem sempre teve curiosidade de saber a sua origem (aliás, o livro todo nos faz impressionar ainda mais com a qualidade de uma série como Naruto, por exemplo, por nos mostrar a quantidade de referências existentes que passam despercebidas por alguém que não conhece a história do país). E intercalando cada conjunto de personagens, há ainda o “Guia do Ninja Ilustrado,” algumas páginas que explicam os equipamentos e técnicas próprios dos ninja tradicionais, e inclui até mesmo, na sua parte final, uma sugestão de roteiro turístico temático por Tóquio.

Ninja Attack! é, enfim, um livro muito legal e gostoso de ler e folhear, que, além de divertir, realmente nos ensina algo novo sobre os ninja e o próprio Japão praticamente a cada página. Recomendo para quem for interessado em cultura oriental, ou apenas quiser saber um pouco mais sobre estas figuras tão icônicas da cultura pop contemporânea.


Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 203,083 visitas
Anúncios