Para não dizer que eu não falei do Mandela

Nelson MandelaTodo esse morre-não-morre do Nelson Mandela me lembrou uma reflexão que eu fiz tempos atrás sobre a morte de outro grande contemporâneo, o escritor José Saramago. Na época ela acabou ficando no meio de um longo pensamento sobre a última Copa de Mundo, a de 2010, justamente, olha só, na África do Sul. Acho que posso citar ela toda aqui, já que é uma reflexão que vale bastante para o caso do Madiba também.

E então chegamos ao outro assunto do fim de semana, a morte de José Saramago, primeiro (e acredito que até o momento único) escritor de língua portuguesa a ser premiado com o Nobel de literatura. Confesso que nunca li realmente qualquer obra dele, embora haja algumas em particular que me interesse em conhecer – em especial, História do Cerco de Lisboa. Mas já li entrevistas e alguns ensaios curtos perdidos pela internet, e não posso dizer que não admirava algumas das suas ideias.

Saramago tinha 87 anos, e, portanto, já não era exatamente um jovem. Sua carreira como escritor já estava consagrada, inclusive com adaptações cinematográficas de algum sucesso, então podemos dizer que ele certamente já havia dado a sua contribuição para a vida cultural e intelectual do mundo. Há sempre aquela expectativa de que ele pudesse dar mais, é claro, sobretudo se lembrarmos que não muito tempo atrás ele estava lançando Caim, seu último romance. Mas pessoas também morrem todo dia, principalmente pessoas velhas – e, mesmo assim, não faltaram as viúvas inconformadas, se perguntando nos twitters da vida por que se vão os escritores bons quando a Stephanine Meyer continua por aí (acredito, mas posso estar errado, é claro, que a juventude dela possivelmente lhe dê uma saúde um pouco mais estável).

Acho que, no fundo, todos temos alguma esperança inconsciente de que o mérito possa vencer a morte. A mortalidade do homem sempre foi um mistério estranho – é um grande problema filosófico (como viver sabendo que irei morrer?), além de uma situação esquisita (como acordar um dia e de repente não encontrar mais alguém que sempre esteve com você?), e acho que todas as religiões sempre tentaram oferecer uma resposta, transformando-a na passagem para um plano superior ou uma nova vida em outra encarnação ou qualquer outra coisa que permita alguma possibilidade de fuga. Alguém já disse por aí que o que nos difere de um animal comum é justamente  essa consciência da morte, muito embora eu realmente não saiba como os cachorros e os gatos foram questionados sobre o assunto. Arrisco até a dizer que algumas das dificuldades da ciência em enfrentar as crenças religiosas têm a ver com isso – a ciência pode te explicar como o seu corpo funciona, mas não tem ainda uma boa resposta para por que (ou pra que) ele funciona, e nem por que ele deve morrer um dia.

Talvez por isso a morte de alguém como o Saramago cause este tipo de comoção, mesmo quando já estava em uma idade em que ela deixa de ser uma surpresa. Não nos apoiando mais na religião para entendê-la, afinal, o que nos resta? É mais fácil imaginar que as pessoas que nos interessam e que admiramos estarão sempre por aí, e não pensar sobre o que vai ser quando se forem. E, numa sociedade que tenta ser individualista e meritocrática, pode ser reconfortante acreditar que alguma entidade transcedental de justiça cósmica concederia a vida eterna a alguém que fizesse por merecer. Claro, há quem diga que as grandes obras sobrevivem ao seu autor, conferindo a ele algum grau de imortalidade, mas então eu rebato com aquela genial citação a Woody Allen: Eu não quero alcançar a imortalidade pela minha obra. Eu quero tornar-me imortal não morrendo.

Por acaso, estou lendo atualmente um livro chamado Singularity Sky, do escritor inglês Charles Stross. É uma ficção científica bastante interessante, que tenta especular sobre a sociedade e a tecnologia do futuro a partir de teses e idéias científicas mais contemporâneas, com direito a espaçonaves quânticas e uma extrapolação genial das ciências da informação. E uma das tecnologias maravilhosas do futuro criado pelo autor trata justamente de técnicas de rejuvenescimento, capazes de tornar um ser humano efetivamente imortal. No entanto, por todas os problemas sociais e ambientais que uma civilização de imortais traria, uma das poucas regras com que todas as nações da Terra concordam sem restrições é justamente a de limitar o acesso a tais tecnologias; assim, apenas se qualificam candidatos que tenham feito grandes contribuições para a humanidade, ou que por acaso tenham funções importantes a cumprir nos governos e organizações que têm acesso a elas. Não deixa de ser uma especulação interessante, a ideia do mérito capaz de vencer a morte.

Em todo caso, é também uma reflexão curiosa que se pode fazer.

1 Response to “Para não dizer que eu não falei do Mandela”



  1. 1 Damned | Rodapé do Horizonte Trackback em 03/07/2013 às 14:32

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