Arquivo para julho \31\UTC 2013

No Pântano da Escuridão

The_Dark_SwampAlém das Montanhas da Morte, depois do Deserto Sem Fim, atravessando a Floresta Lamentosa e cruzando o Rio Invencível, fica o Pântano da Escuridão. Coberto de uma vegetação densa que bloqueia a luz do sol, ele é habitado por grandes crocodilos, peixes carnívoros e insetos venenosos. Gases putrefatos emanam das suas águas escuras, e sons misteriosos são ouvidos vindos de todas as direções. Galhos e cipós se interrompem a jornada, atirando-se na sua frente como salteadores macabros. E bem no seu centro, no coração da escuridão, uma pequena cabana de madeira se ergue sobre as águas, iluminada porcamente por lamparinas gastas, suas paredes cobertas de musgo e fungos, com uma placa ao lado da porta onde se lê: aqui tem uma consultora Natura.

Anúncios

Fim de Namoro

broken_heart1– Eu te amo.

– E eu te amo.

– Mas eu te amo mais.

– Não, eu que te amo mais.

– Mas isso é impossível. Eu que te amo mais.

– Eu que te amo mais.

– Eu que amo!

– Eu!

– Não, eu!

– Eu!

– EU!

– EU!!!

– Quer saber? Não te amo mais. Nunca mais quero te ver. Tchau!

– Pois já vai tarde! Até nunca mais!

The Future is Japanese

TheFutureIsJapanese_coverVez por outra a gente passa por fases em que lemos praticamente só coisas dentro de um mesmo campo temático. Já tive a minha fase new weird, a minha fase autores russos / soviéticos… Atualmente, estou na fase Japão. E nem falo só de Haruki Murakami, claro – tenho lido alguns autores japoneses mais alternativos, classificados no próprio país dentro daquele paradigma da literatura “de gênero.”

Tenho que agradecer por isso à editora Haikasoru, que tem se dedicado a traduzir algumas obras de gênero de lá para o inglês, permitindo o contato com essa vertente da literatura de um país que tanto desperta curiosidade pelos lados de cá do meridiano de Greenwich. Graças a ela pude entrar em contato com a romanização do videogame Ico, por exemplo; bem como uma obra tão única no seu escopo como Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights. E é ela também que editou este The Future is Japanese, que em treze contos busca fazer um pequeno panorama da literatura de gênero, em especial a ficção científica, do e sobre o Japão.

Como esta premissa parece indicar, nem todos os autores presentes nela são realmente japoneses. Há muitos autores ocidentais no meio, que possuam alguma ligação particular com o país ou que se disporam a escrever histórias que de alguma forma remetessem à sua cultura, inclusive nomes conhecidos como Bruce Sterling (um dos pais do cyberpunk ao lado de William Gibson), Ekaterina Sedia (premiadíssima autora de Alquimia de Pedra, recentemente publicado em português pela Tarja Editorial) e Catherynne M. Valente (autora também premiada de Palimpset e do fenômeno de financiamento coletivo The Girl Who Circumnavigated Fairyland in a Ship of Her Own Making); e também alguns outros naquele campo mais nebuloso dos autores de dupla nacionalidade, como o sino-americano Ken Liu.

De maneira geral, foram estes autores que se fixaram mais fortemente nos paradigmas e clichês tão associados à terra do sol nascente. Há as distopias cyberpunk, realidades virtuais, seres folclóricos… Algo esperado até, já que eles tinham que justificar a sua seleção para uma coletânea com este tema. Mas isso também não os impediu de entregar histórias bastante interessantes. Chitai Heiki Koronbin, de David Moles, por exemplo, é a única história que envolve os famigerados mecha, ou robôs gigantes; mas é um conto envolvente sobre pilotos jovens enfrentando seres alienígenas, e poderia ser mesmo o começo de um bom mangá ou anime. A história de Sterling, Goddess of Mercy, que envolve um futuro distópico onde Tóquio foi destruída por um ataque nuclear norte-coreano, é bastante instigaste politicamente; e Rachel Swirsky foi uma das poucas autoras que fugiram da ficção científica, se aventurando pelas histórias de fantasmas em The Sea of Trees. Por fim, Cathrynne M. Valente talvez tenha entregue a história mais tocante do livro, One Brush, One Stroke, um pequeno conto com ares folclóricos que versa, entre outras coisas, sobre a paixão platônica de um pincel por uma mulher-caracol.

É claro, no entanto, que, para o leitor ocidental, o grande astro do livro são os autores nipônicos. Talvez tenha havido aqui um certo corporativismo safado da editora: muitos dos autores tem sido publicados em inglês pela Haikasoru, como uma rápida no catálogo presente nas páginas finais permite constatar. Nada fora do esperado também, acredito. Acho que o único autor que já conhecia anteriormente seja Hideyuki Kikuchi, cujos livros já foram adaptados como animes relativamente conhecidos como Vampire Hunter D e A Wind Named Amnesia. Seu conto aqui se chama Mountain People, Ocean People, e é uma pequena fantasia / ficção científica com ares pulp sobre uma civilização de homens voadores nos picos da montanhas, incluindo aí batalhas com monstros e conflitos juvenis. Outro autor que achei bastante interessante foi Issui Ogawa, que em uma pequena space opera chamada Golden Bread fez uma inversão de papeis bem curiosa, com um descendente do império japonês no futuro distante sendo confrontado com uma colônia caucasiana em um asteroide onde os costumes orientais atuais estão mais vivos do que nele.

Dois dos contos mais marcantes do livro foram os de Project Itoh (pseudônimo do autor Satoshi Ito) e TOBI Hirotaka. O do primeiro se chama The Indifference Engine, e, apesar do nome fazer referência à obra fundadora do steampunk, possui ecos mais fortes de A Laranja Mecânica, mas trocando os delinquentes juvenis irlandeses por crianças-soldado africanas. E o do segundo é chamado Autogenic Dreaming: Interview with the Columns of Clouds, um pequeno épico virtual que brinca com a forma da entrevista, e é repleto de ideias provocantes e uma extrapolação muito instigante sobre o Google e o seu projeto de digitalizar as grandes obras da humanidade.

Na soma final, como todo livro de contos, e ainda mais os que reúnem uma dúzia de autores diferentes, The Future is Japanese também possui seus altos e baixos, com algumas histórias que andam e andam sem avançar, e outras que você deseja que continuassem em livros maiores. Mas achei o saldo bastante positivo, e foi interessante poder entrar em contato com alguns autores novos que posso procurar conhecer melhor no futuro.

Bola Cantada

60-ferreyra– Vai ser 1 a 1. – ele cantou a bola logo que um time fez um gol. – To sentindo isso.

O que ele não esperava, é claro, é que o simples fato de ele pronunciar aquelas palavras levasse a uma reação em cadeia quântica. A vibração das ondas de som da sua voz mudou a direção de neutrinos e modificou a disposição dos quarks de elétrons que compunham os átomos do ar diretamente à sua frente. Esta mudança foi transmitida em cadeia em uma velocidade próxima à da luz para outros neutrinos, quarks e elétrons, até chegar ao campo do jogo.

Lá, em uma única folha do gramado, logo à frente da área do outro time, ela levou a uma mínima mudança no atrito da sua superfície. Foi o suficiente: o atacante que havia acabado de receber a bola e driblara o goleiro, e estava agora de frente para o gol vazio, escorregou exatamente naquela folha, perdendo a oportunidade de marcar o gol que levaria ao resultado previsto.

Faroeste Caboclo

faroeste-cabocloQuando eu tinha lá meus treze ou quatorze anos (parece que foi semana passada), você podia dividir os alunos em qualquer turma escolar em dois grupos: aqueles que sabiam cantar de cor a música Faroeste Caboclo, da Legião Urbana, e os que não sabiam. De minha parte, tenho que confessar que até hoje pertenço ao segundo grupo (nada específico contra Legião, tem lá suas músicas legais, mas eu sempre fui muito mais da turma dos Engenheiros do Hawaii); mas isso ilustra bem a importância da música, provavelmente a mais conhecida da banda, e que consegue isso mesmo sendo um épico de quase dez minutos sem refrão, contando a tragédia de João de Santo Cristo desde a sua saída do interior baiano até a morte em um duelo com o traficante Jeremias na periferia de Brasília.

Dada essa importância e popularidade, transformar a história em um filme soa até um pouco óbvio, e surpreende que tenha demorado tanto para acontecer. O que surpreende mais, no entanto, é que o resultado não tenha sido um mero filme comercial de verão, mas sim uma obra de bastante personalidade e originalidade, que entretém de verdade e com inteligência, de um jeito que o cinema nacional parecia ter esquecido como se faz.

Muito se deve ao trabalho do diretor Renê Sampaio, que já no longa de estreia se mostra incrivelmente seguro e cuidadoso nas suas escolhas, bem como toda a sua equipe. Da montagem à fotografia, tudo se combina para formar uma narrativa ambiciosa, em que o passado e o presente do protagonista se misturam em cortes de cena muito bem executados, aproveitando, por exemplo, o subir de um balde de poço ou o levantar de uma arma para ir e voltar no tempo de forma fluida, sempre surpreendendo e por vezes quase enganando o público. Cenas extremamente tocantes e sensíveis, como a da morte silenciosa da mãe do protagonista, se misturam com outras ríspidas e duras, que buscam sua ascendência na crueza dos faroestes italianos, em especial os do mestre Sérgio Leone.

Coroando estas qualidades, o roteiro do filme faz uma adaptação até bastante fiel à história contada na música. Claro que são necessários alguns ajustes – em especial ampliando o papel e a importância de Maria Lúcia, até para que a Ísis Valverde possa adicionar, ahem, esteticamente mais ao filme -, mas de maneira geral você encontrará todos os elementos principais da letra de Renato Russo lá, da morte do seu pai com um tiro de soldado, passando pelas luzes de natal de  Brasília, até o duelo final épico em um campinho de futebol de várzea. A música original também se faz presente de diversas formas, através de trechos soltos que funcionam como trilha sonora em alguns momentos, às vezes dando um clima até um pouco tarantinesco para o filme, até a presença de uma certa banda em uma festa em Brasília que claramente está lá para representar os primórdios da Legião Urbana.

O resultado é um legítimo western feijoada contemporâneo, que se estrutura dentro de todos os elementos do gênero, dos cenários semi-desérticos e desolados até a vingança como força motriz do enredo. Se a atuação de Fabrício Bolineira como protagonista não é exatamente muito virtuosa, a sua força está em incorporar este elemento, dando ao seu João de Santo Cristo ares de um Franco Nero negro (ok, outro Franco Nero negro), sempre raivoso e objetivo na sua busca pela retribuição do que sofreu. Felipe Abib também merece destaque no papel do traficante e aprendiz de sociopata Jeremias, bem como o uruguaio César Troncoso e o tarimbado Antônio Calloni como os respectivos parceiros / mentores dos dois personagens principais.

Acho que poucas coisas realmente destoam do resto. Fosse eu o diretor, por exemplo, talvez eliminasse as narrações em off do personagem principal ao longo da maior parte do filme (manteria apenas a da apresentação), o que foge da simplicidade e objetividade que ele consegue imprimir ao desenvolvimento da trama na maior parte do tempo. Senti falta também do discurso final de João de Santo Cristo para Jeremias, sobre como ele é homem e não atira pelas costas, que é bastante forte na música e poderia ter sido representado também no filme. De maneira geral, no entanto, nada disso chega a arranhar as qualidades que ele possui.

A soma final é que Faroeste Caboclo é realmente um filme ótimo, que quebra de forma muito positiva todas as expectativas a seu respeito. Entretém e satisfaz de verdade, sem cair nos clichês do cinema de arte ou denúncia e muito menos naquela acefalia das comédias nacionais mais recentes.

Grandes Astros Superman

grandes-astros-supermanJá é repetitivo falar isso, mas realmente não considero o Super-Homem um dos meus personagens favoritos. Como explicar, no entanto, que sempre que me coloco a escrever resenhas sobre alguma história dele, acabo elogiando exageradamente, mesmo quando aparentemente vou contra a opinião corrente a respeito?

Bom, meu chute é que tenha a ver com o fato de que eu realmente seleciono aquilo que leio sobre ele – afinal, como bem disse Alan Moore certa vez, não existem personagens ruins, o que existem são roteiristas ruins. E realmente, é preciso um roteirista inteligente para entender o que torna o Super-Homem o símbolo que ele é, e conjugar isso tudo em um roteiro eficiente e cativante; mas, quando aparece alguém assim, é difícil não sair dali algo menos que uma obra-prima. Gente como Kurt Busiek é capaz disso. E gente como Grant Morrison também, como mostra Grandes Astros Superman.

Começo pelo argumento geral da história, que consegue tirar leite de pedra em apresentar uma história que realmente nunca foi contada – a história da morte do Super-Homem. Mas não a morte épica, como apresentada naquela ultra-saga da década passada, e sim a morte humana, comum, “morrida.” Não se trata de saber o que o mundo faria ao perder o seu maior herói, mas sim do que esse próprio herói faria ao descobrir que o fim é próximo e inevitável. Capítulo a capítulo, então, vemos o Super se preparando para esse momento, resolvendo aqueles assuntos pessoais pendentes e lidando com fantasmas passados. Cada edição apresenta um episódio fechado dessa preparação, que lida com o ícone do Super-Homem sob diferentes aspectos, naqueles que depois serão chamados “os doze trabalhos do Super-Homem”.

É realmente impressionante como o roteiro consegue lidar com toda a tralha de décadas e décadas de roteiros enfadonhos sem perder o compasso, das kryptonitas coloridas a Krypto, o super-cão – pois trata-se, aqui, do Super-Homem clássico, aquele da Era de Prata e tudo mais. Morrison consegue utilizar tudo isso realmente como apoio para a história que está sendo contada, sem nunca torná-los uma justificativa para o roteiro em si; consegue até mesmo criar ótimas deixas para tirar sarro desses elementos mirabolantes que eram comuns em certa épocaé dos quadrinhos de super-heróis.

E, claro, também não se pode deixar de comentar o trabalho do desenhista Frank Quietly. Ainda que sem um traço exuberante ou virtuoso, o trabalho de ilustração é perfeito, recheada de boas sacadas narrativas e, principalmente, com um trabalho de expressão anatômica muito destacado, principalmente nas diferenças de postura e expressão entre o Super-Homem e o alter-ego Clark Kent.

Enfim, Grandes Astros Superman é o tipo de série que justifica a existência de um personagem. Talvez não seja todo mundo que realmente o aprecie, claro; quem espera um Smallville em quadrinhos, por exemplo, vai achar uma boa dose de elementos estranhos, bem como alguém que espere algo mais na linha do Super pós-John Byrne (que também é bom nos seus próprios termos, claro, de um jeito diferente). Mas eu, pelo menos, apreciei bastante cada edição.

Naia Contra o Rei dos Dragões

Momento nostalgia: acho que esse foi o primeiro “anime” que eu assisti. Ok, é uma animação chinesa, não japonesa, mas vocês entenderam… Eu tava há anos tentando descobrir o nome dela pra procurar por aí, a única coisa que me lembrava era do enredo e algumas cenas esparsas, como a festa dos dragões embaixo do mar, que ainda era bem vívida na minha memória.

Enfim, é uma animação muito legal. Guardar o link pra mostrar pros meus filhos eventualmente.


Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 199,338 visitas