Damned

damnedVocê está aí, Satã? Sou eu, Bruno. Tenho que dizer que achei bastante instigante o relato feito por Maddy Spencer dos eventos ocorridos após sua morte, quando acordou em meio a uma cela no inferno após uma overdose de maconha, conforme relatado pelo hábil escritor Chuck Palahniuk. Sim, aquele mesmo de Clube da Luta e Pygmy. Em um tom de conversa casual, quase um romance epistolar, ela descreve a você, um pouco como estou fazendo agora, a formação do seu próprio Clube das Cinco infernal – aliás, o que há com essa mania de recontar filmes cult em versões infernais, hein? -, e as desventuras e tomada de consciência a que eles eventualmente a levaram.

Tudo é muito bem arredondado e aparado, é claro, com o típico humor negro e cáustico de Palahniuk. A partir das condições surreais que condicionaram sua vida e levaram à sua morte, Maddy aproveita para tecer comentários críticos sobre o mundo das celebridades, da ciência e religião, e, bem, da sociedade ocidental contemporânea como um todo. Um destaque especial vai para a sua visão do inferno, que foge dos clichês e estereótipos mais fáceis – nada de copiar os nove círculos de Dante, nem os incontáveis círculos das repartições burocráticas públicas, ou qualquer coisa assim. O inferno de Palahniuk é formado pelos dejetos humanos, tudo aquilo que é ignorado jogado fora como sujeira, formando grandes acidentes geográficos como o Oceano de Esperma Desperdiçado ou a Planície das Unhas Cortadas. E, é claro, os maiores dejetos de todos são as próprias pessoas: legiões de almas condenadas a passar a eternidade trabalhando como atendentes de telemarketing, garotas de webcam, ou, se preferirem uma punição mais severa a ter que se rebaixar desta forma, a assistir reprises intermináveis de O Paciente Inglês.

Do seu outro lado, passando por cima da acidez e do tom de galhofa, o livro também se propõe a fazer uma reflexão bastante dura a respeito da morte, essa tão estranha certeza que temos, e da relação dos vivos com ela. Palahniuk diz que o escreveu para purgar os seus sentimentos sobre a morte da sua mãe, e é isso talvez que rende algumas passagens mais intensas que ele possui quando se encaminha para o seu desfecho. Maddy pouco a pouco vai tomando consciência não só da sua situação pós-vida, mas também dela enquanto viva; e é ao se confrontar com estes seus demônios em vida, a sua relação com os seus pais, com bullies escolares, com o seu irmão adotivo convertido em paixão platônica, que ela ganha forças para encarar de fato a sua morte, e passar pela transformação que pode enfim salvá-la de fato.

Acho que o contra mais evidente que o livro possui é apenas uma certa reviravolta nos momentos finais, que parece um tanto gratuita e serve apenas para que o autor o termine com um to be continued safado. Sim, aparentemente, Palahniuk quer tirar uma trilogia da personagem, cujo segundo volume, Doomed, já foi publicado. Vou tentar lê-lo quando possível, mas a impressão que fica deste primeiro é que não era realmente necessário: à parte por esse pequeno elemento adicionado quando tudo já se encaminha para o desfecho, o livro é bem auto-contido, com direito mesmo a um final que só não é plenamente catártico devido a esse mesmo detalhe.

Em todo caso, ainda é um livro muito instigante e envolvente, além de verdadeiramente engraçado, com algumas tiradas de acidez e ironia que o fazem parar a leitura para conter o riso. E além disso, é também um daqueles livros que o faz de fato parar e refletir sobre sua vida, além, é claro, da morte que inevitavelmente virá para todos nós um dia.

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