The Future is Japanese

TheFutureIsJapanese_coverVez por outra a gente passa por fases em que lemos praticamente só coisas dentro de um mesmo campo temático. Já tive a minha fase new weird, a minha fase autores russos / soviéticos… Atualmente, estou na fase Japão. E nem falo só de Haruki Murakami, claro – tenho lido alguns autores japoneses mais alternativos, classificados no próprio país dentro daquele paradigma da literatura “de gênero.”

Tenho que agradecer por isso à editora Haikasoru, que tem se dedicado a traduzir algumas obras de gênero de lá para o inglês, permitindo o contato com essa vertente da literatura de um país que tanto desperta curiosidade pelos lados de cá do meridiano de Greenwich. Graças a ela pude entrar em contato com a romanização do videogame Ico, por exemplo; bem como uma obra tão única no seu escopo como Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights. E é ela também que editou este The Future is Japanese, que em treze contos busca fazer um pequeno panorama da literatura de gênero, em especial a ficção científica, do e sobre o Japão.

Como esta premissa parece indicar, nem todos os autores presentes nela são realmente japoneses. Há muitos autores ocidentais no meio, que possuam alguma ligação particular com o país ou que se disporam a escrever histórias que de alguma forma remetessem à sua cultura, inclusive nomes conhecidos como Bruce Sterling (um dos pais do cyberpunk ao lado de William Gibson), Ekaterina Sedia (premiadíssima autora de Alquimia de Pedra, recentemente publicado em português pela Tarja Editorial) e Catherynne M. Valente (autora também premiada de Palimpset e do fenômeno de financiamento coletivo The Girl Who Circumnavigated Fairyland in a Ship of Her Own Making); e também alguns outros naquele campo mais nebuloso dos autores de dupla nacionalidade, como o sino-americano Ken Liu.

De maneira geral, foram estes autores que se fixaram mais fortemente nos paradigmas e clichês tão associados à terra do sol nascente. Há as distopias cyberpunk, realidades virtuais, seres folclóricos… Algo esperado até, já que eles tinham que justificar a sua seleção para uma coletânea com este tema. Mas isso também não os impediu de entregar histórias bastante interessantes. Chitai Heiki Koronbin, de David Moles, por exemplo, é a única história que envolve os famigerados mecha, ou robôs gigantes; mas é um conto envolvente sobre pilotos jovens enfrentando seres alienígenas, e poderia ser mesmo o começo de um bom mangá ou anime. A história de Sterling, Goddess of Mercy, que envolve um futuro distópico onde Tóquio foi destruída por um ataque nuclear norte-coreano, é bastante instigaste politicamente; e Rachel Swirsky foi uma das poucas autoras que fugiram da ficção científica, se aventurando pelas histórias de fantasmas em The Sea of Trees. Por fim, Cathrynne M. Valente talvez tenha entregue a história mais tocante do livro, One Brush, One Stroke, um pequeno conto com ares folclóricos que versa, entre outras coisas, sobre a paixão platônica de um pincel por uma mulher-caracol.

É claro, no entanto, que, para o leitor ocidental, o grande astro do livro são os autores nipônicos. Talvez tenha havido aqui um certo corporativismo safado da editora: muitos dos autores tem sido publicados em inglês pela Haikasoru, como uma rápida no catálogo presente nas páginas finais permite constatar. Nada fora do esperado também, acredito. Acho que o único autor que já conhecia anteriormente seja Hideyuki Kikuchi, cujos livros já foram adaptados como animes relativamente conhecidos como Vampire Hunter D e A Wind Named Amnesia. Seu conto aqui se chama Mountain People, Ocean People, e é uma pequena fantasia / ficção científica com ares pulp sobre uma civilização de homens voadores nos picos da montanhas, incluindo aí batalhas com monstros e conflitos juvenis. Outro autor que achei bastante interessante foi Issui Ogawa, que em uma pequena space opera chamada Golden Bread fez uma inversão de papeis bem curiosa, com um descendente do império japonês no futuro distante sendo confrontado com uma colônia caucasiana em um asteroide onde os costumes orientais atuais estão mais vivos do que nele.

Dois dos contos mais marcantes do livro foram os de Project Itoh (pseudônimo do autor Satoshi Ito) e TOBI Hirotaka. O do primeiro se chama The Indifference Engine, e, apesar do nome fazer referência à obra fundadora do steampunk, possui ecos mais fortes de A Laranja Mecânica, mas trocando os delinquentes juvenis irlandeses por crianças-soldado africanas. E o do segundo é chamado Autogenic Dreaming: Interview with the Columns of Clouds, um pequeno épico virtual que brinca com a forma da entrevista, e é repleto de ideias provocantes e uma extrapolação muito instigante sobre o Google e o seu projeto de digitalizar as grandes obras da humanidade.

Na soma final, como todo livro de contos, e ainda mais os que reúnem uma dúzia de autores diferentes, The Future is Japanese também possui seus altos e baixos, com algumas histórias que andam e andam sem avançar, e outras que você deseja que continuassem em livros maiores. Mas achei o saldo bastante positivo, e foi interessante poder entrar em contato com alguns autores novos que posso procurar conhecer melhor no futuro.

4 Responses to “The Future is Japanese”


  1. 1 Ana Carolina Silveira 27/07/2013 às 18:42

    Achei uma proposta muito interessante, até, como amostra do que se faz em literatura especulativa japonesa. A ficção científica japonesa em outras mídias, como em animes, mangás e jogos, vem muito facilmente para o ocidente, mas a literatura é tão deixada de lado que às vezes pode ser considerada inexistente, quando não é. E também corrobora os já citados como forma válida de expressão artística e narrativa, já que muitos dos temas dessas ficções científicas também são debatidos em outros meios, tem uma espécie de convergência temática. Bem interessante.


  1. 1 MM9 | Rodapé do Horizonte Trackback em 14/09/2013 às 13:52
  2. 2 The Melancholy of Mechagirl | Rodapé do Horizonte Trackback em 09/05/2014 às 19:31
  3. 3 Yukikaze | Rodapé do Horizonte Trackback em 16/07/2014 às 15:41

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 193,076 visitas

%d blogueiros gostam disto: