MM9

MM9 libroQuem conhece o histórico de desastres naturais e não-naturais do Japão certamente não pode estranhar a fixação que o país tem com a invasão de monstros gigantes, os famigerados kaiju. Depois de duas bombas atômicas e um sem número de terremotos de grande magnitude, para um criador de histórias fantásticas é um passo bem natural imaginar que o causador de tais estragos tenha um tamanho proporcional a eles. Até um nome respeitado como Haruki Murakami já flertou com a idéia em um conto pouco conhecido chamado Super-Frog Saves Tokyo, em uma coletânea  que escreveu sobre o terremoto de Kobe em 1995.

Terremoto esse, aliás, que deixou uma marca bem grande no imaginário do país, pelo menos até a tragédia mais recente de Fukushima, e também é referenciado, e da mesma forma atribuído a um monstro gigante, em MM9, ficção científica de Hiroshi Yamamoto publicada em inglês pela editora Haikasoru, da qual eu já falei um pouco anteriormente. A sigla do título faz referência ao termo Monster Magnitude, uma escala de medição do tamanho e estrago potencial causado por um monstro gigante – algo como uma escala Richter para kaiju. Por ela podemos ter já alguma idéia do que o livro trata: o dia-a-dia do MMD, ou Monsterological Measures Department (algo como o “Departamento de Medidas Monstrológicas”), uma agência governamental que, como agências metereológicas, tem a missão de prever, analisar e eventualmente ajudar a remediar ataques de kaiju no Japão.

A idéia é bem criativa, e remete a algumas das séries originais que tornaram os bichos tão populares. É difícil não lembrar das equipes de apoio do Ultraman e seus descendentes, por exemplo. Apenas não aqui há um alienígena bondoso de tamanho colossal para enfrentar os bichos (bom, pelo menos não até o confronto épico final); o papel do MMD é principalmente o de avaliar as informações disponíveis sobre o bicho e então sugerir um plano de ação às forças de defesa japonesas, sempre tendo em vista o objetivo de manter o número de casualidades o menor possível.

O próprio livro é estruturado um pouco como uma série de TV. Os cinco capítulos parecem episódios, com direito ao “monstro da semana” e tudo mais – um deles até mesmo brinca com o formato, tendo como enredo a gravação de um programa-reportagem sobre a agência. Ainda que haja uma trama maior englobando todos eles, funcionariam perfeitamente como contos independentes. O estilo narrativo também é focado na ação e nos diálogos, com o cenário muitas vezes resumido a uma legenda no começo de uma cena indicando a sua localidade e tempo de acontecimento. Há um bom equilíbrio entre o trabalho no combate aos monstros e o desenvolvimento da personalidade dos personagens principais, mas também não é nada mais profundo do que você teria em um seriado semanal. Não me foi surpresa descobrir que o livro realmente foi transformado em um programa televisivo em 2010, que eu ainda estou tentando descobrir se foi legendado por fãs.

Mas isso está bem longe de ser um demérito, claro. Na verdade, achei que ajudou a tornar a leitura bem dinâmica e ágil, e no final achei as histórias todas muito divertidas. Há lá a sua dose de clichês (é claro, por exemplo, que os agentes com mais destaque são jovens recrutas cheios de determinação, o masculino chamdo Ryo e a feminina chamada Sakura), mas eles também não estragam a proposta de entretenimento do livro. Há mesmo espaço para algumas idéias instigantes no meio do caminho, como a pseudo-ciência que explica a existência dos kaiju, uma extrapolação do princípio antrópico aplicado à mitologia.

Na soma final, foi uma leitura bem divertida, que eu recomendo para quem cresceu assistindo monstros gigantes na televisão.

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