Três da Tarde

Três da tarde. Tudo aquilo parecia muito com três da tarde. Não fazia sentido, mas era o que pensava. Três da tarde. Era madrugada e estava em um quarto de motel, olhando para uma moça que dormia nua ao seu lado. Fossem realmente três da tarde, estaria sentado em uma mesa no escritório, preenchendo formulários e atendendo telefonemas. Mas havia algo no ar, ou no chão, ou na cama, que o fazia pensar naquele horário , nem um minuto a mais ou a menos.

Virou-se para o lado e pensou na esposa, dormindo sozinha na cama do casal. Ou não; a relação dos dois já era tão distante e vazia que não se surpreenderia se ela também procurasse companhias que melhor a satisfizessem. Tentou imaginá-la ao lado de outro homem, mas não conseguia lembrar dos traços do seu rosto. Tudo o que conseguia resgatar eram os seus olhos, e, de resto, via apenas uma fumaça escura, um nevoeiro que a ocultava exceto por uma silhueta sombria de olhos castanhos.

Pensou na filha recém chegada na adolescência, e como ela também logo passaria a procurar companhias que lhe fossem mais agradáveis. Não havia o que fazer; lembrava muito bem ainda da própria adolescência, e das companhias com que procurava para passar o tempo longe da família. Na verdade, pensava às vezes que nunca havia saído dela, e duvidava que um dia saísse, por mais as décadas passassem.

Pensou na moça ao seu lado, de quem não lembrava o nome e que possivelmente nunca mais veria. Tentou lembrar a cor dos olhos dela, mas não conseguiu. Por algum motivo, pensou também numa frase de um livro que lera muitos anos antes, que dizia como é bom, o aroma de morangos frescos em um sábado de manhã. Não lembrava do título ou do autor. Apenas aquela frase rondava os seus pensamentos como um fantasma.

Levantou, se vestiu. Olhou mais uma vez para a moça deitada na cama redonda, enrolada nos lençóis azuis, enquanto ela, ainda inconsciente, se virava para ocupar o espaço extra. Não conseguia lembrar a cor dos olhos dela. Sobre o criado mudo, ao lado do balde de champanhe oferecido como brinde, deixou algum dinheiro para pagar a diária do quarto. Então saiu.

Tudo continuava a parecer muito com três da tarde.

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