A “magia” do futebol brasileiro

jogadoresrajaagradecemapSabe, acho que esse fiasco todo do Atlético Mineiro, aquele mesmo onde atualmente joga o tal-que-não-deve-ser-nomeado, no Mundial de Clubes da FIFA, revela muito sobre o futebol brasileiro. Quando foi o Bayern de Munique enfrentar o mesmo Raja Casablanca esse fim de semana, o resultado não podia ser mais óbvio: uma vitória direta, ao natural, sem exageros ou pelancas sobrando. Já na disputa do terceiro lugar, por muito pouco o vexame final não foi ainda maior…

Acho curioso notar isso, que a meu ver advém, mais do que de um mero Sobrenatural de Almeida rondando o clube, de uma própria postura diferente que os jogadores do clube europeu parecem ter sobre o seu ofício. Já teci antes as minhas linhas sobre aquilo que chamei de a cultura do deus ex machina no futebol brasileiro; aquela espécie de pensamento futebolístico mágico, de que o jogo não é resolvido pelo trabalho de um grupo de profissionais (muito) bem pagos, mas por uma virada sobrenatural súbita que garantirá que o destino manifesto do time irá a qualquer momento se concretizar.

Você pode ver isso em uma dúzia de situações. Aqui no sul do Brasil mesmo, temos uma outra equipe cujo nome não deve ser citado que todo ano entra como favorita nas principais competições nacionais e internacionais. Na vez mais recente, por muito pouco escapou de um rebaixamento vexatório na última rodada. Mas, vendo as colunas da imprensa, vendo a atitude dos torcedores, a qualquer momento a virada começaria – afinal, com um time de jogadores tão experientes, tão tarimbados e reconhecidos e convocados para as seleções de seus países, não poderia ser diferente, certo? O resultado final já está garantido, e o caminho até lá é só um detalhe.

Não sei bem se é a distância, o fato de não encarar os torcedores cara a cara todo o dia, mas acho difícil de ver uma postura assim em equipes de outros países. Claro, zebras eventuais acontecem, mas você não vê os jogadores trocando passes para os lados, recuando a bola indefinidamente, por saberem que o gol da vitória virá magicamente a qualquer momento. Há uma cultura da objetividade: eu realmente preciso passar pelo meio, e garantir cada resultado, antes de chegar ao final. Não é a mágica dos deuses do futebol que irá garantir isso.

Acho que a única equipe brasileira que me pareceu ter uma postura semelhante foi o Cruzeiro deste ano, que não por acaso conquistou o campeonato com uma margem tão absurda de diferença para os demais. Era uma equipe que entrava em campo de fato com uma postura de quem quer ganhar, e não de quem ganhou. Não é à toa que teve uma sequência tão grande de goleadas sobre diversos adversários, enquanto outros, tão tarimbados e, ahem, grandes que eram, na verdade sofriam as suas para os times já rebaixados.

É uma postura de fato profissional, de encarar com seriedade o ofício de entrar em campo e jogar. Muito se fala do futebol brasileiro “alegre,” “mágico” e tudo mais, e há o seu valor nisso, mas esse é também um ponto em que o paradigma acaba sendo de fato bastante negativo. Acho que foi o Hilário Franco Jr., no seu excelente livro A Dança dos Deuses, sobre a história do futebol, que me chamou a atenção para um certo fato: os jogadores brasileiros são praticamente os únicos reconhecidos pelos seus nomes e apelidos, e não pelos sobrenomes. Nenhum narrador chama o Ibrahimovic de Zlatan, e nem é esse o nome que está escrito na sua camisa; mas o que dizer de Robinho, Ronaldinho, Hulk?

Pode parecer bobagem, mas é um indicativo de um paradigma muito enraizado na nossa cultura esportiva, e que tem o tipo de consequência que se viu nestes jogos no Marrocos. E muitas mais, na verdade: o desdém com que iniciativas como o Bom Senso FC tem sido encarados é também um reflexo muito forte disso. Se na Europa um caso famoso como o de Jean-Marc Bosman mudou completamente a relação entre clubes e jogadores, por aqui ainda é muito forte a idéia de que os atletas não são mais do que crianças crescidas, que devem ser isoladas do mundo e guiadas com carinho pelos sábios técnicos e cartolas, que passam a mão na sua cabeça e dizem que tudo vai ficar bem frente a qualquer contratempo.

Mas isso também já daria todo um outro texto.

0 Responses to “A “magia” do futebol brasileiro”



  1. Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 193,077 visitas

%d blogueiros gostam disto: