South of the Border, West of the Sun

southoftheborderAcho que todos passamos vez ou outra por aqueles momentos de inflexão e revisão da vida, em que revemos aquilo pelo que passamos e avaliamos o que poderíamos ter feito diferente, ter tentado ou não em determinados momentos, e que efeitos teriam no longo prazo da nossa vida. E se eu tivesse me declarado para a minha paixão platônica da oitava série? E se tivesse escolhido estudar Administração ao invés de História? E se tivesse me esforçado para manter contato com amigos, conhecidos, parentes?

Há quem dê a isso nomes próprios – crise dos vinte anos, dos trinta anos, da meia-idade -, e há quem simplesmente passe por elas sem aviso prévio. Em South of the Border, West of the Sun, o japonês Haruki Murakami encontra talvez a sua metáfora perfeita: a síndrome de Piblokto, ou histeria Ártica, que acomete os membros de povos inuit a partir de determinada idade, quando muitos abandonam tudo o que têm e começam a caminhar em direção ao pôr do sol, buscando alguma terra mágica que se encontraria no extremo oeste do mundo conhecido.

Da mesma forma, Hajime, o protagonista do livro, após uma década de incertezas e morosidade, finalmente se encontrou na vida como pai de família e administrador de dois bares de jazz bem sucedidos em Tóquio. No entanto, tudo é posto em perspectiva no momento em que ele reencontra Shimamoto, amiga de infância com quem perdera contato aos doze anos de idade, mas cuja sombra nunca o abandonou completamente. Andando em uma linha tênue entre o delírio e a realidade, ele passa a rever então os erros que cometeu na sua trajetória, a repensar os meios pelos quais chegou até aquele ponto, e a imaginar as tantas outras formas pelas quais a sua vida poderia ter se encaminhado.

Como os velhos inuit, Hajime busca nesse reencontro aquela terra mágica de felicidade que perdera ao se afastar da amiga, como se partisse na sua própria jornada de delírio rumo ao pôr do sol. No entanto, por mais que tente adiar a decisão, em algum momento sabe que terá que fazer a opção entre a vida que conquistou e aquela que sempre desejou para si.

É um romance curto, porém incrivelmente intenso. Não há nada das mil páginas e três volumes de um 1Q84; no entanto, suas frases e temas são também muito mais objetivos, sem gorduras sobrando, deixando entre os capítulos momentos de reflexão profunda sobre o relacionamento que temos com o passado e as opções que fizemos ao longo da vida. É um Murakami naquilo que ele tem de melhor, e extremamente recomendado.

1 Response to “South of the Border, West of the Sun”



  1. 1 Trilogia do Rato | Rodapé do Horizonte Trackback em 26/06/2015 às 18:00

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