Arquivo de junho \22\UTC 2014

O Cavaleiro dos Sete Reinos

cavaleiroNem só de zumbis gelados, intrigas palacianas e dragões revividos vive Westeros. (Ok, isso já é bastante coisa de qualquer forma). Além da série principal d’As Crônicas de Gelo e Fogo, o autor George R. R. Martin também possui uma outra série ambientada no mesmo universo – as aventuras de Sor Dunk, o Alto, e Egg, seu escudeiro que é mais do que aparenta, ambientada noventa anos antes dos acontecimentos da saga maior. Ela foi desenvolvida em uma série de novelas – para quem não está acostumado com a nomenclatura, isso significa histórias um tanto maiores do que um conto, mas ainda mais objetivas e longe do tamanho de um romance completo – publicadas em coletâneas de fantasia lá fora, reunidas agora neste volume lançado no Brasil pela editora LeYa.

O livro reúne as três primeiras histórias da dupla: O Cavaleiro Errante, em que sabemos como os dois se conheceram em um torneio fatídico na região da Campina; A Espada Juramentada, em que eles devem ajudar a resolver um conflito entre lordes; e O Cavaleiro Misterioso, em que um novo torneio nas Terras Fluviais esconde uma conspiração muito maior do que aparenta. Originalmente, haviam sido publicadas lá fora em coletâneas de histórias sobre guerreiros; a idéia de Martin era continuar a série de aventuras em outras coletâneas, como Dangerous Women (sobre mulheres perigosas), de 2013, e Rogues (sobre ladrões e trapaceiros), de 2014, mas aparentemente as histórias não ficaram prontas a tempo, sendo substituídas por excertos do livro World of Ice and Fire que deve ser lançado ainda este ano. No entanto, ele diz que pretende ainda seguir com a série, e contar toda a história da dupla até a sua morte.

De maneira geral, pode-se dizer que a Westeros de Dunk e Egg é um tanto diferente daquela que conhecemos na série de TV e nos livros principais. Ainda é um lugar sujo e tomado de intrigas, é claro; mas há mais espaço para honra e heroísmo, com um pouco menos de risco de se ter a sua cabeça cortada por isso. Um escudeiro de um cavaleiro errante de menor importância pode ver a sua vida mudar com um misto de sorte, força de vontade e cabeça-dura, que o fazem cair nas graças de um príncipe de uma certa casa nobre de grande importância. Uma atitude corajosa e honrada, porém estúpida, possui alguma chance de não terminar em uma grande tragédia – mas não de não terminar em alguma tragédia, é claro, com um custo alto a ser pago para compensar a estupidez. Grosso modo, pode-se dizer que é um universo muito mais propício para uma campanha de RPG do que o cenário posterior, durante a sua saga mais importante.

As histórias da dupla são episódicas, o que quer dizer que cada uma conta uma aventura com início, meio e fim. No entanto, é possível ver claramente alguns esboços maiores se desenvolvendo ao fundo, enquanto os protagonistas devem lidar com os espólios da Rebelião Blackfyre, uma revolta envolvendo um bastardo Targaryen pretendente ao trono, citada levemente nos livros principais mas que aqui terminou apenas alguns anos no passado. Aos poucos os temas típicos que permeiam o mundo de Westeros se apresentam, como as noções de honra e lealdade medievais, sempre em conflito com a dureza e frieza da realidade, ou o fato de que toda guerra ou disputa de maior escala é sempre determinada pelos seus tons de cinza, e não por noções maiores de moral e justiça muito bem definidas. Há mesmo espaço para algumas pequenas referências à história maior que se desenvolveria quase um século depois, como a presença de um certo herdeiro da casa Frey, aqui um mancebo de apenas quatro anos, ou um outro personagem importante que depois acabaria levado para o extremo norte do cenário.

Outro ponto relevante é que eu havia lido os livros da série original em inglês, então este na verdade é o meu primeiro contato com a polêmica tradução deles para o português. Muito já se falou a respeito, e eu não tenho muito mais o que adicionar, na verdade. De maneira geral a leitura é fluida e fácil, mas é difícil não se pegar imaginando sobre algumas arbitrariedades nas nomeações. Pessoalmente, sou simpático à idéia de traduzir nomes de pessoas e lugares sim, mas é preciso ser consistente. É meio estranho ver uma espada de aço valiriano ser chamada Irmã Negra, e a outra Blackfyre. Ou então chamar uma cidade de Campina de Vaufreixo mas depois manter todos os nomes bastardos, como Flowers e Rivers, no original. Claro, há que se admitir que algumas traduções seriam ingratas (traduzir o nome de Egg para Ovo perderia todo o seu sentido original, cuja revelação seria um spoiler), mas não se pode dizer isso exatamente de todos os casos.

Enfim, pequenos detalhes à parte, a verdade é que gostei muito de O Cavaleiro dos Sete Reinos. São histórias mais leves, mas que ainda possuem a marca própria de Westeros e d’As Crônicas de Gelo e Fogo. Em certo sentido, achei elas até melhores do que a saga principal – são muito menos ambiciosas, é claro, mas pelo menos são também muito mais divertidas e carismáticas, sem o ar soturno que permeia os Sete Reinos de noventa anos depois. Dunk e Egg possuem naturalmente o tipo de química que a série de TV se esforça tanto para criar com Brienne e Podrick, por exemplo, e no final fica, sim, aquele gostinho e vontade de ler mais aventuras com os dois no futuro.

A Pátria (Pendurando As) Chuteiras – ou, Futebol e Política na Nova República

chuteirasNão sei quem foi o deus indígena, santo milagreiro ou gênio marqueteiro que definiu que as eleições da Nova República Brasileira pós-ditadura militar sempre cairiam em ano de Copa do Mundo. Em todo caso, basta chegar um novo ano fatídico e ouvimos sempre os mesmo chavões: “brasileiro só quer saber de futebol,” “o futebol aliena o povo,” “se a seleção ganhar vão todos votar no [insira  a sigla do partido de situação corrente que não deve ser reeleito sob hipótese alguma, mesmo que as alternativas sejam o Sauron e o Comandante Cobra]” e etc. etc. etc. Esse ano, em especial, em virtude de tudo o que ocorreu no país desde o ano passado, tem sido um argumento especialmente recorrente – não sei quantas variações do “ninguém está torcendo mais pra essa seleção do que a Dilma” que eu já ouvi. Bem, não quero me estender demais no assunto, mas apenas resgatar alguns fatos da história esportiva e política recente do país.

Vamos descontar aqui 1994, que tinha uma série de peculiaridades – segunda eleição direta para presidente desde 1960, considerando que o eleito na anterior havia sido impedido de terminar o mandato por um escândalo de corrupção, e toda a própria questão econômica que enfim se estabilizava após um período hiperinflacionário bastante tenso. Pulemos direto para 1998, ano em que o Brasil perdeu a final da Copa para a França, em uma partida humilhante e uma atuação mais do que luxuosa do capitão adversário (um certo Zinedine Zidane), envolvendo ainda polêmicas estranhas com nossos jogadores principais (ataque epilético na véspera do jogo e coisas assim). Considerando como o povo brasileiro é alienado pelo futebol, podemos imaginar que ele certamente se sentiria ultrajado com tal atuação, e iria demonstrar a sua revolta com toda a força nas urnas no mesmo ano… Exceto que o então presidente, Fernando Henrique Cardoso, foi reeleito para um segundo mandato na provável eleição mais fácil da história brasileira, decidida ainda no primeiro turno.

Mas quatro anos depois, em 2002, a glória! Desacreditada, com duas trocas de técnico nos período anterior, a seleção passou por cima de todos os céticos e venceu a Copa do Japão e Coreia do Sul com 100% de aproveitamento. Que felicidade! O povo não poderia estar mais feliz, e com toda certeza elegeria um presidente que continuasse com tudo o que estava sendo feito de certo para garantir esse resultado… E então tivemos a eleição do opositor mais antigo do partido no poder, um certo Luís Inácio Lula da Silva, que liderou as pesquisas do início ao fim e venceu no segundo turno, mas ainda com certa facilidade.

2006 e 2010 acredito que sejam próximas o bastante para não que eu não precise recapitulá-las em detalhes, mas, resumindo, o Brasil foi eliminado em ambas nas quartas de final, saiu da Copa desacreditado pela população, e tivemos eleitos presidentes que garantiam a continuidade política – o próprio Lula reeleito em 2006, a Dilma escolhida por ele como sucessora em 2010. Percebem uma tendência aqui?

Se seguirmos a lógica, me parece que o mais adequado para Dilma seria torcer contra a seleção nesta Copa… Mas vou confessar que não acredito que faça diferença, realmente. Pelo menos a minha visão empírica é a de que a seleção perdeu há muito o poder de influir na política nacional. É inegável que ela já teve essa capacidade – 1970 não faz tanto tempo assim -, mas hoje? Do tricampeonato ao tetra tivemos cinco Copas perdidas, pelo menos três delas ainda em período autoritário, e o regime ainda foi capaz de escolher como queria terminar, em uma eleição indireta para escolher o primeiro presidente civil em vinte anos.

Não sei se sou capaz realmente de diagnosticar as razões disso, a bem da verdade. Talvez seja um esgotamento natural, depois de 1970 e os anos seguintes sem muitas vitórias, que levou as pessoas a perceberem que uma coisa não tem nada a ver com a outra de verdade. Ou talvez seja o afastamento gradual da seleção das suas bases populares, com o crescimento geométrico dos ganhos dos jogadores e as suas carreiras cada vez mais associadas a times de outros países. Mas, na eventualidade de a seleção realmente ganhar a Copa, alguém consegue realmente imaginar que uma campanha baseada em “a Dilma nos deu a Copa, votem nela” seria levada a sério?

E não que eu não veja, é claro, o futebol em si como capaz de exercer influência política; apenas não é mais na seleção que este poder está, mas muito mais nos clubes. E é uma influência muito mais direta, na verdade (e por isso mesmo, talvez, mais perigosa): basta ver nomes como o de Marques, segundo deputado estadual mais votado em Minas Gerais nas últimas eleições para o cargo, ou Danrlei, quarto deputado federal mais votado no Rio Grande do Sul no mesmo ano, ambos fortemente associados aos clubes que defenderam, e sem uma plataforma de campanha que fosse muito além disso e os chavões sobre atuar com garra e determinação e fazendo o que o professor mandar. E mesmo antes deles, em tantos Paulos Odones e Euricos Mirandas que fizeram suas carreiras políticas em cima deste mote.

Enfim, não quero realmente fazer uma tese aqui, mas apenas encadear alguns fatos. É muito fácil concluir que o povo brasileiro é alienado e só quer saber de futebol, mas cavando um pouco mais profundamente pode-se ver que a coisa é mais complicada que isso, e que é preciso fugir de uma conclusão tão simplista para entender realmente o que há nesta relação.

Haicai (7)

Tanta coisa
Que podia ser
Mas não foi…


Sob um céu de blues...

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