Publicidade e Infância

hemanAcho que era o Nelson Rodrigues que dizia que toda unanimidade é burra. Eu rebateria dizendo que toda generalização é burra, ou pelo menos certamente mais do que as unanimidades. Mas aí eu também estaria generalizando. Em todo caso, aprendi a desconfiar de unanimidades: discordar faz parte do debate, e me sinto desconfortável quando ele é tão pendente para um único lado. No momento, nada é mais unânime nas internets do que a condenação da proibição à publicidade infantil; e bem, acho que dessa vez eu posso ser a voz discordante aqui no meu bloguinho merreca de trinta visitas por dia.

Veja bem, eu vou ser o primeiro a desconfiar também de uma proibição radical, pura e simples. Meu espírito de rebelde adolescente gostaria de sempre gritar o bordão de 68, aquele sobre ser proibido proibir. Mas se a coisa chega nesse ponto, talvez seja uma oportunidade também dos afetados pararem um pouco para refletir como isso aconteceu. Quer dizer, pode ser um bom momento para uma autocrítica, e tentar entender por que foi necessário algo desse nível. No caso, acho que já seria um bom começo se publicitários, conglomerados de entretenimento infantil e afins analisassem suas consciências parassem para se perguntar: eu quero mesmo ganhar a vida enganando crianças de dez anos?

Ok, não precisa ser algo tão extremado, e eu mesmo não acredito totalmente no que eu acabei de dizer. Um professor meu dizia que o publicitário é um profissional que ganha salário para mentir, mas é claro que era um exagero jocoso, feito para forçar a reflexão. Todo exagero parte de algum ponto de verdade, no entanto, e no fundo, se você a despir de toda pompa e glamourização – não trocar “receber para mentir” por “vender sonhos” ou qualquer bobagem pseudo-poética do tipo -, verá que esta não é uma afirmação tão ridícula assim. O publicitário ainda é aquele cara que vai tentar te convencer que usar o desodorante certo vai te transformar em um ímã do sexo oposto; que comprar um carro é a mesma coisa que comprar sucesso pessoal (pra mim uma das mentiras publicitárias mais perversas, por todas as implicações urbanas e sociais); ou que aquele suco na caixinha colorida com o mascote fofinho não é 50% composto de açúcar e corantes. E é claro que eu sei diferenciar o que é jogo da publicidade do que é informação verdadeira, mas eu sou um marmanjo de trinta anos, e não um moleque de dez. Quando eu tinha dez anos eu realmente achava que podia ser um Power Ranger (ok, na verdade um Changeman, mas só outros marmanjos de trinta anos ou mais saberão do que se trata), e um produto que me prometesse isso facilmente teria a minha atenção.

Aí vamos para os argumentos que tentam protestar contra uma proibição, ahem, arbitrária. Falam que deviam é investir em educação, por exemplo. Claro que deviam, isso não é excluído com ou sem proibição. Mas não é isso que justifica a falta de regulação ou de controle, que valha tudo na hora de anunciar um produto e a criança que use a sua, ahem, capacidade de discernimento para determinar o que vale ou não a pena pegar birra contra os pais. Proibir talvez seja um exagero, mas é uma medida concreta de um controle que no fundo é necessário em algum nível, sim – e quem não concordar, sinto muito, mas só pode ser alguém não convive com nenhuma criança de verdade.

Sobre o fim da programação cultural infantil, que, como tudo na televisão, sempre se sustentou na publicidade, eu pessoalmente acho que é um problema mais complicado. Tipo, é claro que eu adorava He-Man e Thundercats, como todo mundo, mas hoje eu sei reconhecer a armadilha que eles eram. Continuo achando séries legais, mas que talvez não valessem as úlceras que tive porque um amigo tinha o Castelo de Greyskull e eu não. Aí dizem que as crianças serão “privadas” de assistir essas obras-primas da cultura contemporânea, e eu, historiador, tenho que esquecer que é a mesma coisa que os adultos de outrora diziam quando nós mesmos às assistíamos, ao invés de estarmos na rua jogando bola como crianças normais e saudáveis…

(Em um adendo, lembro de uma entrevista anos atrás com a Angélica, na época ainda apresentadora infantil. Ela dizia que não achava o que fazia ruim, mas, se tivesse filhos, faria eles assistirem a outro canal, conhecido pela programação infantil de qualidade mas sem apelo publicitário. Imagino se ela pensa o mesmo hoje que de fato tem filhos, sendo casada com quem é…)

O problema começa bem antes disso, na verdade. O fim da publicidade vai terminar de sepultar a programação infantil nacional? Pra mim isso é muito mais culpa de um modelo de sociedade tão voltado para o consumo que seja simplesmente impossível manter vivo um produto cultural que não o promova de alguma forma. O Castelo Rá-Tim-Bum que não vendia bonecos do Nino. Ou o Up que vai ser esquecido pelas crianças, enquanto o insosso Aviões recebe continuação porque é mais fácil vender um modelo de avião falante do que um boneco de velho ranzinza.

“Ah, mas assim é o capitalismo. Tu que está sendo idealista demais, seu petralha esquerdopata ateu pagão satanista.” Sinceramente, estou mesmo. Se vocês dizem valorizar tanto a imaginação construída com bonecos de ação de noventa reais, deixem eu usar a minha também. Talvez seja ingenuidade querer sonhar com um mundo tão melhor que o nosso. Mesmo assim, sempre que alguém vem chamar a publicidade de direito (inclusive alguns ícones nacionais que eu tentava admirar), como o direito que todos têm à vida ou à educação, ou que uma revista semanal escreve que ela é “uma das maiores conquistas da humanidade,” a verdade é que uma parte dessa criança supostamente feliz que eu fui apodrece e morre mais um pouco dentro de mim.

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