Meu Desencanto

eleiçõesTempos atrás, no auge das “jornadas de junho,” eu fiz um pequeno desabafo de quanto certas opiniões e atitudes de conhecidos me faziam colocar a minha própria experiência em perspectiva, e me deixavam um tanto desanimado com a vida. Tenho experimentado um sentimento muito semelhante com os desenvolvimentos recentes da campanha eleitoral, esse tiroteio de acusações baixarias generalizadas de todos os lados que ela tem sido, e um pouco para exorcizar isso da minha mente volto a usar esse meu espaço pra debater comigo mesmo a minha própria dificuldade em tomar uma atitude e sair de cima do muro.

Acho que, no fundo, independente de quem saia vencedor no próximo domingo, eu sei que estou entre os perdedores. Perdi amigos, conhecidos, familiares – não no sentido “bati boca e não posso mais olhar na cara,” algo que pelo menos acho que sou inteligente o bastante para não fazer (muito), e sim na linha de um “passei a conhecer melhor e perdi o tesão de conviver” mesmo. Como resultado, perdi também um tanto mais do meu ânimo de viver e ser um cidadão social e politicamente ativo.

Só pra dar um exemplo, pra mim é muito surreal que haja um candidato com sérias chances de se tornar presidente do país incluindo na sua plataforma de campanha um ponto como a redução da maioridade penal. É uma idéia que pra mim só se justifica pela pura preguiça de entender o problema e procurar uma solução de verdade, e busque meramente números de estatística vazios para mostrar sem trazer nenhuma mudança concreta de médio ou longo prazo. E não é algo que você precise cavocar em citações fora de contexto retiradas de discursos obscuros – é anunciado em jornais, em outdoors, no horário eleitoral televisivo, com todas as letras: “no meu governo reduzirei a maioridade penal.” (Meu único consolo é que ele não terá esse poder sozinho de qualquer forma, mas deve passar pelo congresso primeiro; por outro lado, com as bancadas conservadoras que foram eleitas…) E ainda aponta o dedo e acusa o candidato adversário de ser contra, como se isso mesmo fosse um crime, fosse esse o ponto que irá mudar o destino dos seus votos. Certamente não mudará o do meu (muito pelo contrário, só me dá mais convicção dele), mas me incomoda e desanima a consciência de que não são poucos aqueles para quem isso é mesmo verdade.

E ai de mim se eu quiser discutir. De repente tudo o que eu passei os últimos doze anos estudando perde o valor – minha pós-graduação foi uma especialização em história do Brasil contemporâneo, p*rra. Não interessa qual teoria política de renome acadêmico ou dado concreto de estudo publicado em periódico científico sério eu cite, a frase pronta contra o Bolsa-Esmola e qualquer informação de alguma revista semanal são sempre mais corretos e confiáveis. Tudo porque alguém foi convencido por jornais da época de que teria um golpe comunista em 1964, abençoados sejam os militares que nos salvaram de se transformar em uma nova Cuba, e malditos sejam os corruPTos que hoje querem nos levar ao mesmo fim… Incomoda notar que gente na minha própria família despreza tudo o que eu fiz e estudei na última década, sabe.

Não que o outro lado seja muito melhor, é bom destacar. Não se pode fazer uma crítica honesta à forma como o governo maquia índices de inflação, algo que qualquer um que frequente super mercados e saiba fazer contas pode perceber, sem ser respondido com um TRENSALÃO TUCANO MARINA EXTREMA DIREITA AÉCIO CHEIRADOR!!!11!!1ONZEONZE!!!11 Sem nem mencionar temas muito mais espinhosos como os direitos humanos e de minorias políticas, e são muito mais desanimadores de discutir – e eu tenho lá minhas críticas ao pensamento econômico como centro supremo de toda política, afinal. Tem pombos enxadristas em todos os lados do espectro político, e isso é uma das coisas que no fundo desanima de sair do muro e tomar uma posição.

E o pior de tudo é quando eu faço uma auto-crítica do meu próprio discurso, e vejo todas as falácias a que me levam a mera preguiça de entrar em um debate em que nenhum dos lados está disposto a abrir mão do seu ponto de vista. Talvez o que mais me desanime seja justamente isso – ter que adotar um discurso de pseudo-autoridade só para evitar o desgaste de um confronto que não vai levar a nada de qualquer forma: “eu estudei isso; vocês que não são iluminados que não entendem.” Me corroi por dentro ser levado a pensar assim. Eu realmente gostaria de acreditar que um debate sério, em que ambos os lados apresentem seus argumentos de forma racional e desapaixonada, e saibam avaliar os do adversário e então reavaliar os seus próprios para chegar a uma síntese, fosse possível; mas me salva um bocado de úlceras e confrontações mais exteriores saber que não é.

Nos meus momentos mais sombrios eu chego mesmo a ir um passo além, e cortejar por um instante um pensamento mais radical, resgatando alguma coisa daquela república dos filósofos de Platão. É difícil não pensar que essa dificuldade de discussão tem a ver mesmo com a entrada no debate de interlocutores sem preparo, e que talvez houvesse uma razão para que aquela massa de alienados fosse, bem, alienada. Mas prefiro me afastar logo dessa idéia, e repetir como um mantra que o sistema que temos ainda é melhor do que qualquer alternativa…

Enfim. Um meme correndo pela internet, que tá ilustrando o post, parafraseia Renato Russo dizendo que é preciso amar as pessoas como se não houvesse eleições. Eu bem que tento, mas olha… É difícil. Depois eu prefiro fugir pro Japão feudal (de preferência com mechas) e ninguém me entende.

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