Relatos Selvagens

relatos cartazJá faz um bom tempo que o cinema argentino tem lançado filmes de sucesso, tanto de crítica como público. Em comparação, o cinema brasileiro em geral é bem vexatório, apesar de um ou outro filme do Jorge Furtado ou outro diretor eventual que fuja dos chavões Globo Filmes / filme de arte pra ganhar subsídio governamental. Se nem sempre um Wagner Moura é sinônimo de um bom filme, um Ricardo Darín no pôster consegue ser sim um bom indicativo de que você passará umas duas horas muito bem aproveitadas.

Relatos Selvagens se insere muito bem nessa tradição dos nossos hermanos. O filme é composto, na verdade, por seis histórias curtas, coladas por um mesmo tema: pessoas comuns que simplesmente perdem a paciência, e por um momento cruzam a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Da história introdutória que lembra uma música do Chumbawamba à festa de casamento que acaba por dar certo de um jeito bem errado, as histórias tentam explorar um pouco desse absurdo que há no cotidiano, e o quanto ele é em realidade bastante frágil e fácil de se quebrar por motivos que podem ser tão banais quanto uma ofensa no trânsito ou tão sérios quanto uma propina policial.

Damián Szifron, o diretor, conduz cada uma das histórias com grande maestria, lançando mão de uma bela gama de recursos narrativos e visuais. Há uma influência tarantinesca bem evidente nos enquadramentos e na trilha sonora; mas, muito mais, há um quê kafkiano em algumas das tramas, e muito de tragédia grega na forma como elas sempre descambam rapidamente para o desespero generalizado dos personagens.

Subjaz, é claro, uma crítica não muito velada ao mundo moderno e às hipocrisias que permitem que ele funcione. Você pode sair da sessão refletindo sobre o absurdo das burocracias governamentais, os preconceitos do sucesso financeiro que te permitem comprar o carro do ano, ou o papel da fidelidade conjugal. Mas, mais do que tudo, há apenas o prazer de se contar e ouvir uma boa história: você com certeza sairá da sessão após dar muitas risadas de um humor negro que consegue ser crítico sem ser preconceituoso, e inteligente sem ser obscuro.

Assistam Relatos Selvagens, enfim. Posso dizer sem medo de errar que é o filme mais engraçado, e um dos mais imperdíveis, de 2014.

1 Response to “Relatos Selvagens”


  1. 1 Phil Souza 02/12/2014 às 15:53

    Eu li a resenha e não pude parar de pensar em outra que li no Ambrosia falando exatamente do Ricardo Darín e o cinema argentino http://ambrosia.virgula.uol.com.br/critica-setimo-acerta-na-atmosfera-exigida-pelo-suspense/


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