Arquivo de setembro \07\UTC 2015

Cowboys do Asfalto

cowboysAcho que um dos temas mais recorrentes aqui no blog é a música. Falo muito de jazz, blues e rock, minhas paixões; mas acabo falando bastante também de músicas mais populares, como o sertanejo ou o funk. Tendo a ver elas sob uma perspectiva histórica, de média ou longa duração – para um historiador, é realmente difícil não comparar todo o preconceito que se vê com respeito a elas ao preconceito que outros estilos também sofreram, desde o rock ou jazz recentemente, até a polka ou a valsa em séculos já mais passados. Acho que o meu texto mais visitado na história do blog inclusive é sobre isso, um dos primeiros que publiquei aqui no wordpress também, e acabo voltando ao tema com muita frequência.

Mais do que observações empíricas, no entanto, é bom ter um referencial mais técnico para falar a respeito. E foi isso que ganhei com Cowboys do Asfalto – Música sertaneja e modernização brasileira, tese de doutorado do historiador carioca Gustavo Alonso recentemente publicado como livro.

Fundamentalmente, o livro corrobora muitas das teses que eu já defendia aqui, como a de que o preconceito musical muitas vezes é apenas o que está na superfície de um preconceito muito mais profundo, com origem no embate de classes e na oposição entre cultura erudita/de elite e a cultura popular. No caso da música sertaneja, no entanto, esse embate raramente esteve muito dissimulado, por ela ser muito identificada praticamente desde o seu início com um fenômeno social bem específico (o êxodo rural), e também pela sua identificação posterior com um determinado período político da história brasileira (a era Collor). O preconceito com o sertanejo tem muito a ver com o preconceito que existe entre a população do litoral – em especial do litoral sudeste, a terra do samba e da MPB – com as populações do interior, oposição que vem praticamente desde a colonização portuguesa original, o que fica muito evidente quando o autor nota que boa parte dos artistas clássicos do gênero eram migrantes, saídos do interior do Paraná, de São Paulo e de Goiás para a cidade grande.

Isso tudo é sintetizado na tese que o livro apresenta já na sua introdução, que acredito ser bastante acertada: a de que o povo brasileiro, embora tenha tido tendências políticas conservadoras durante a maior parte da sua História, foi na verdade bastante progressista no campo cultural – exatamente ao contrário das classes mais intelectualizadas, tanto as de esquerda como as de direita. O livro também me enriqueceu bastante ao me tornar ciente de diversos debates que eu jamais imaginaria existir dentro do gênero, como aquele que opunha a música caipira (essencialmente saudosa e nostálgica do campo) e a sertaneja (do camponês já urbanizado, vivendo na cidade grande), que parece ter sido resolvido nas gerações mais recentes; bem como na própria origem dos ritmos sertanejos, que trazem influências estrangeiras de países periféricos como o México e o Paraguai, o que contribuiu para as décadas de preconceito sobre ele.

Há algumas críticas pontuais a serem feitas. O estilo do texto é meio exagerado, com muitos clichês e frases feitas, e às vezes carece de uma estrutura mais cadenciada, alternando longas narrativas biográficas com contextualizações de períodos políticos e eventuais debates analíticos. Na verdade, achei que ele poderia se focar mais na última parte, e talvez reduzir o papel das biografias dos artistas, que realmente ocupam um espaço demasiado. O que senti falta realmente foi de uma análise mais social, e menos política, da música sertaneja como fenômeno. Há pouco espaço dado a como se formou e desenvolveu o público destes artistas, por exemplo; apenas no capítulo final, debatendo a emergência do sertanejo universitário, o papel do público é problematizado. Fiquei imaginando como seria uma linha de análise que relacionasse o fato dos artistas sertanejos serem em sua maioria migrantes com o seu público ser formado muitas vezes também por migrantes, ou por filhos de famílias migrantes.

Também achei que o autor muitas vezes foi conivente com as escolhas políticas dos artistas em muitos momentos da História do país. Talvez possa se ver nisso uma ênfase, louvável, em compreender, ao invés de julgar, o seu papel na sociedade nestes períodos; no entanto, algumas vezes parece que há realmente uma esquiva de adotar uma postura mais crítica, como se escolhesse poupar os artistas de encarar o que estava acontecendo então.

Em todo caso, é um livro muito instigante e enriquecedor, fruto de uma pesquisa profunda cruzando fontes bastante diversas, de artigos de jornais a entrevistas diretas com os artistas. Recomendo para qualquer um que queira entender a música sertaneja como fenômeno social, bem como tentar rever alguns preconceitos bastante comuns ainda nos dias de hoje.

Narrativa e Empatia

kurt_vonnegutKurt Vonnegut é, fácil, um dos meus autores preferidos. Matadouro 5 é um desses livros que deveria ser leitura obrigatória para… A vida, mesmo. Acho que ele consegue ter uma percepção de como o mundo funciona que eu mesmo queria ter, e ainda é capaz de por isso em palavras com uma clareza, objetividade e ironia com as quais eu jamais conseguiria.

Mesmo nos seus livros menores, esses que parecem diminuídos frente à sua magnum opus, você vai encontrar essa inteligência e acidez ao explicar como tudo funciona. Pegue Café-da-Manhã dos Campeões, por exemplo; é um livro que parece confuso, com um enredo que não vai a lugar nenhum. Já tive relatos de gente que leu e não conseguiu entender o que tem de tão especial no autor, porque ele é tão celebrado e hypado. Mesmo para mim, não é exatamente um dos meus preferidos. Mas mesmo nele você ainda consegue encontrar aquela citação perfeita, que faz com que todo ele de repente ganhe o sentido devido. Falo dessa aqui, especificamente, posta na boca do próprio Vonnegut convertido em narrador-personagem da sua própria história:

Conforme meu quinquagésimo aniversário se aproximava, tornava-me mais e mais enfurecido e assombrado pelas decisões estúpidas tomadas pelos meus compatriotas. E então, de repente, comecei a sentir pena deles, porque compreendi como para eles era inocente e natural se comportar de modo tão abominável e com resultados tão abomináveis: estavam fazendo o melhor possível para viverem pessoas inventadas em livros de histórias. Este era o motivo pelo qual os americanos matavam uns aos outros a tiro com tanta freqüência: era um truque literário conveniente para terminar contos e livros. Por que tantos americanos eram tratados por seus governos como se suas vidas fossem descartáveis como lenços de papel? Porque era assim que os autores costumavam tratar personagens menores em suas histórias inventadas.

E assim por diante.

Depois que compreendi o que estava tornando a América uma nação tão perigosa e infeliz, de pessoas que não tinham nada a ver com a vida real, decidi me abster de contar histórias. Eu escreveria sobre a vida. Cada pessoa seria exatamente tão importante quanto qualquer outra. Todos os fatos também receberiam o mesmo peso. Nada seria deixado de fora. Deixaria os outros trazerem ordem ao caos. Eu, em vez disso, traria caos à ordem, o que acho que acabei fazendo. Se todos os escritores fizessem isso, talvez os cidadãos fora dos ofícios literários compreendessem que não há uma ordem no mundo ao nosso redor, que, em vez disso, devemos nos adaptar às exigências do caos.

É difícil se adaptar ao caos, mas é possível. Sou uma prova viva disso: é possível.

Tenho pensado bastante nela recentemente. Vejo muito desse mesmo fenômeno em tantos casos recentes, desde manifestações políticas até polêmicas culturais fabricadas no mundo virtual. Gente que, tomada pela mitomania, perde a capacidade de enxergar o que existe fora da narrativa que criou para si e para o seu mundo.

Pode ser curioso pensar isso para um materialista histórico, mas a ficção tem mesmo poder. Talvez não poder de curto prazo – publique um romance e bum, o mundo mudou -, mas certamente de médio e longo, em normalizar ideias e visões de mundo. A verdade é que as pessoas buscam criar narrativas para si, contar histórias em que elas próprias são as protagonistas, que se não são totalmente ficcionalizadas, são sim estruturadas na forma de histórias mais tradicionais. Eu já falei de como isso afeta as narrativas do futebol antes, mas é algo que entra mais profundamente na vida de muita gente – ainda mais em um mundo tão bombardeado com ficção de todos os lados, em livros, séries de TV, filmes, videogames.

O ponto é que as pessoas veem essas mídias como modelos, e acabam acreditando que precisam encontrar os mesmos elementos em outros aspectos das suas vidas. Ela também precisa ter vilões, protagonistas, reviravoltas e arcos narrativos. Você vê isso desde aquela conhecida que acha que todas as colegas de serviço estão conspirando contra ela, até o cara que se veste de super-herói no protesto político, o que, com a chuva de filmes do gênero que temos atualmente, acaba como uma visão bem emblemática da “ficcionalização” de questões reais. E a coisa fica mais complicada ainda quando entramos em toda a questão de direitos e representações de minorias, que mesmo pessoas que apoiam às vezes ficam meio perdidas quanto ao seu papel quando eles próprios não fazem parte delas.

Nisso tenho um caso bem específico em mente, de um amigo que considero bastante. É um militante de esquerda, que em geral possui ideias progressistas e bem fundamentadas, mas que não pode ouvir falar em “roubar o protagonismo” sem fazer algum comentário de como são esses extremistas que atrapalham os movimentos sociais. A própria noção de protagonismos aí já tem a ver com essa fixação pela narrativa, mas há algo mais oculto nessa reação – a ideia, talvez até um pouco de medo, de que, se ele não for o protagonista dessa narrativa, o que sobra para ser? Um “mero” coadjuvante?

É difícil, às vezes, abrir mão desse protagonismo, e se reduzir ao papel de coadjuvante. Todos querem ser o Batman, ninguém quer ser o Robin (nem o próprio Robin, aliás, que precisou virar Asa Noturna). O que falta aí é a segunda parte do título do texto, empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro e compreender que ele também precisa se sentir importante e protagonista na sua própria narrativa. Existe uma razão pela qual o tropo do “salvador branco” é tão criticado em histórias sobre a escravidão – e falamos aí de uma fórmula narrativa da qual nem um filme tão forte quanto 12 Anos de Escravidão conseguiu fugir.

E até aí ainda estamos falando de alguém que, em última instância, apoia movimentos sociais e políticas progressitas. Imagine agora alguém que talvez já nem se importe tanto com isso em primeiro lugar. O cara pode ter crescido sonhando em ser o Batman – o que cada vez mais me convenço de que tem uma série de problemas intrínsecos próprios, mas deixo isso para outro texto -, ou jogando videogames – o que, sem essa capacidade de auto-crítica, pode ser ainda pior, uma vez que é uma forma de ficção em que você está de fato sendo colocado no papel direto de protagonista. Aí de repente vem alguém e diz que ele não é tão importante assim, que pessoas diferentes, mulheres, negros, homossexuais, talvez sejam, no mínimo, tão importantes quanto ele. Então vem a reação – como ele pode não ser tão importante assim? É mais fácil buscar a narrativa contrária, e procurar seu modelo naquelas histórias em que o protagonista se mantém firme e resoluto independentemente dos valores distorcidos que o cercam. Heróis não mudam de opinião, afinal; é o mundo ao seu redor que mais frequentemente está errado.

Então Vonnegut me volta à cabeça cada vez que eu vejo a repercussão dessas polêmicas virtuais. Ou as figuras quase cômicas que aparecem nas manifestações políticas. Ou em qualquer notícia de “criminosos” linchados por turbas populares (que frequentemente se descobre depois não serem realmente criminosos, mas quem se importa, né?). A fixação por se encaixar na narrativa é muito maior do que o desejo por compreensão sincera – é mais fácil, e mais recompensador, eleger seus vilões, sejam eles os bandidos cracudos, comunistas infiltrados, feminazis escondidas. Então pelo menos você pode achar que sabe o que fazer, e a argumentação de fato se torna cada vez mais impossível.

Enfim. Para não parecer que o meu ponto é que toda ficção é maléfica e devíamos abolir filmes, livros, jogos e tudo mais. Não é isso. Eu gosto de tudo isso. Consumo tudo isso. Até produzo um pouco, dentro das minhas limitações. Bem, é só ver o resto do blog. Se tanto, talvez as pessoas realmente precisem transformar suas vidas nesse tipo de narrativa – ou não fariam isso desde as épocas míticas descritas em religiões antigas.

O que falta mesmo no mundo é empatia. Devia ter algum jeito de se ensinar isso na escola.


Sob um céu de blues...

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