Arquivo de dezembro \29\UTC 2015

Beauty Is a Wound

beautyisawoundA literatura é também uma oportunidade de viajar, e conhecer através da leitura lugares que talvez você não tenha a chance de conhecer fisicamente. Dentro dessa proposta, eu geralmente gosto de procurar livros de locais diferentes, e fugir da literatura ocidentalizada, quase totalmente luso- ou anglófona que normalmente domina os lançamentos por aqui. Foi um pouco por isso que me interessei por Beauty Is a Wound, do autor indonésio Eka Kurniawan, somado ainda ao interesse por um dos países mais populosos do mundo mas que não costuma estar em evidência nos noticiários, trabalhos acadêmicos (com a notável exceção do Benedict Anderson, autor que muito admiro) e rodas de conversa de maneira geral.

De cara é possível notar ecos bem fortes no livro do realismo mágico latino-americano, sobretudo García Marquez e os seus Cem Anos de Solidão. Partindo de uma frase de abertura daquelas a serem estudadas em cursos acadêmicos futuros – Em uma tarde de um fim de semana de março, Dewi Ayu levantou do seu túmulo após estar morta por vinte e um anos. -, o autor nos apresenta Halimunda, a sua Macondo, cidade fictícia que servirá de cenário para a história da prostituta mestiça Dewi Ayu e suas quatro filhas, três delas de uma beleza capaz de levar os homens literalmente à loucura, e a quarta de uma feiúra equivalente. O pano de fundo é a própria história da Indonésia durante o século XX, quando o país saiu de uma colônia holandesa para a ocupação japonesa na Segunda Guerra Mundial, a guerra de independência, e os conflitos políticos violentos que marcaram as suas primeiras décadas como república. Halimunda ecoa e reflete todos estes eventos, servindo como um observatório da forma como eles afetaram a vida no país.

Há algumas coisas que não ajudam muito no livro. A personagem Dewi Ayu, em especial, incomoda na sua perfeição, naqueles termos que definem o tropo da Mary Sue. Sua força de personalidade praticamente desde a infância chega a soar um pouco caricata, enquanto ela encara com um misto de distanciamento e tédio todas as provações por que tem que passar, desde o abandono pelos pais, a morte dos avós e a prostituição durante a guerra. De maneira geral, para um livro que coloca logo cinco mulheres como protagonistas, ele é bastante controverso na sua representação delas. Praticamente todas são definidas pela sua aparência – ou são daquela beleza estonteante de causar loucura, ou são proporcionalmente feias -, e a recorrência ao estupro como saída narrativa, bem como a própria resignação das personagens a ele, chega a parecer gratuito mais de uma vez. No fim, não são muitos personagens com quem você realmente simaptiza, entre os mais proeminentes estando o camarada Kliwon, jovem comunista que por isso acaba sendo levado a um fim trágico, e o valentão Maman Gendeng, ex-revolucionário, vagabundo e mestre das artes marciais.

Isso pode fazer parecer que se trata de um livro ruim, mas não é bem assim. Ele realmente te desafia mais de uma vez a abandoná-lo, mas, em última instância, ainda é uma leitura bastante prazerosa. Kurniawan escreve muito bem, e possui uma ironia fina ao tratar de assuntos como política ou o sobrenatural que encanta com facilidade. Em um determinado momento, a mãe do camarada Kliwon, ao vê-lo cabisbaixo e depressivo, pergunta, preocupada: você se tornou um comunista? Apenas um comunista seria tão triste. Em outro, Kliwon encontra o fantasma de um antigo companheiro, e pergunta como ele está; ao qual a aparição logo responde, não muito bem, camarada. Estou morto.

A narrativa também sabe como prender, indo e vindo no tempo com frequência, embora nos capítulos finais o uso muito constante desse recurso num espaço muito curto pareça causar alguma confusão no próprio autor. Praticamente cada começo de capítulo te prende como um bom começo de romance, e você se verá seguindo a narração até o final do trecho, apenas para ver-se preso novamente no capítulo seguinte. E de maneira geral o livro se encontra no seu auge quando faz referência à trajetória do país durante o século, levando a algumas reflexões interessantes sobre a relação do povo indonésio com a sua história recente.

Enfim, está longe de ser um livro perfeito, mas, em última instância, é uma leitura que valeu a pena, e que senti que realmente me adicionou algo de novo.

Armello

armelloÉ muito interessante ver como as comunidades virtuais contemporâneas acabam afetando indústrias consolidadas e que, sem elas, talvez ficassem enrijecidas e condenadas à mesmice. Já falei antes da extensa comunidade de jogos eletrônicos independentes que puderam prosperar graças às tecnologias de compartilhamento digital, e nos permitiu conhecer pequenas pérolas como Brothers: A Tale of Two Sons e Journey. E há ainda outro fator bem contemporâneo que a ajuda ainda mais: as campanhas de financimanetos coletivos.

Armello surgiu de uma destas campanhas no kickstarter, criada pelo estúdio australiano League of Geeks. A equipe prometia um jogo que “daria vida às aventuras de mesa,” fazendo referência a jogos de tabuleiro e RPGs de fantasia, e foi muito bem sucedida em abril de 2014, com o lançamento ao público geral tendo acontecido setembro de 2015.

Podemos resumir o produto final como um jogo de tabuleiro eletrônico. Os personagens pertencem a clãs do reino fantástico de Armello, cada um personificado em um animal antropomórfico: o clã do Lobo, formado por cavaleiros e guerreiros; o clã do Rato, por ladrões e espiões; o clã do Coelho, por aventureiros, magos e políticos; e o clã do Urso, por xamãs e personagens mais próximos à natureza. O rei (obviamente, um leão) foi corrompido por uma energia maligna conhecido como a Podridão, e a cada dia se torna mais despótico; os quatro clãs, assim, ao mesmo tempo em que tentam derrubá-lo, disputam entre si para decidir quem irá sucedê-lo.

O clima em geral é descrito pelos autores como “Game of Thrones encontra Kung Fu Panda” – é uma boa descrição, acho, embora, com as referências nacionais, eu talvez preferiria compará-lo à Turma da Mata do Maurício de Sousa, inclusive pela reimaginação recente dos personagens na série de graphic novels da MSP. Mouse Guard / Os Pequenos Gaurdiões é outra boa referência. Os animais antropomórficos, em conjunto com uma belíssima direção de arte, ajudam a dar um clima de fantasia, mas quem esperar que ele seja por isso bobinho e infantil pode se surpreender – há um lado bem sombrio representado pela Podridão e a corrupção que ela causa, e no fim tudo se combina para criar um cenário bastante único e envolvente.

Quanto à mecânica de jogo, é um sistema bem complexo e dinâmico, com uma grande variedade de elementos que podem mudar os rumos de uma partida. Os quatro participantes se movem em turnos pelo mapa, realizando missões e se equipando para o embate final com o rei. Há uma mão de cartas de jogo com equipamentos especiais, seguidores, magias e mesmo “trapaças” que você pode usar para ajudá-lo ou atrapalhar seus concorrentes. E há ainda diversas opções de caminho para chegar a vitória, desde o simples e objetivo assassinato do rei, passando pelo “jogo de tronos” da política e acúmulo de prestígio, até deixar-se corromper pela Podridão.

Tudo é feito para emular um jogo de tabuleiro – você chega mesmo a rolar dados na hora de um combate, e há sacadas bem criativas como o uso do touch pad do controle do PS4 para lançá-los. A pegada é mais casual, sem uma grande campanha de um jogador; você apenas joga partidas avulsas, embora haja uma boa quantidade de troféus e itens destraváveis para incentivá-lo a jogar mesmo sozinho. Há também a opção de buscar adversários online, mas no fim senti bastante falta da opção para multiplayer local, uma modalidade da qual tenho sentido muita falta na maioria dos jogos recentes.

Em todo caso, Armello continua sendo um jogo bastante único e envolvente. Recomendo muito para quem gosta de jogos de fantasia de maneira geral, e jogos de tabuleiro em específico – acho que desde Dragon’s Crown não pego um jogo que capture tão bem o clima de uma mesa. Quem se interessar, ele está disponível para a maioria das plataformas de jogos atuais, desde o PS4 até Android, iOS e Steam.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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