Ensaio Sobre o Desânimo

Acho que lembro bem do último evento de anime que fui. Um amigo tinha recebido espaço da organização pra divulgar um fanzine de RPG, e eu era parte do “staff” dele; talvez já nem tivesse ido não fosse por isso, já que fazia um bom tempo tinha desanimado de pagar ingresso e pegar fila. O fato é que foi durante ele que eu tive um daqueles momentos de epifania, em que nossas vidas mudam de uma hora pra outra. Você sabe, tipo aquele meme da internet.

clarence

Você olha para os lados se perguntando, “o que eu tô fazendo aqui?” Não era o único cara de vinte e poucos anos lá, mas claramente era parte de uma minoria. Muitos adolescentes, gente quatro, cinco, seis anos mais jovem que eu; muitos cosplays e tudo mais. De repente, comecei a pensar como era quando eu mesmo comecei a me interessar por esse tipo de coisa. Eu comprava fitas de animes legendados em fansubbers. Devia ser o único cara que gostava de animes na minha turma de colégio. Mangás? Era uma coisa quase mítica, salvo um eventual Lobo Solitário ou Akira encontrado num sebo.

A verdade é que, olhando ao redor, eu não sentia raiva de ninguém lá, dessa “juventude perdida” ou qualquer coisa assim. Pelo contrário – sentia inveja. Assistir animes, jogar videogames, consumir nerdices quase sempre havia sido uma atividade solitária para mim, um momento de introspecção. Tive meus amigos com quem joguei Magic: the Gathering e RPG, mas boa parte deles já tinha abandonado essa vida – havia talvez dois ou três com quem eu ainda dividia essas atividades eventualmente, se tanto. E agora via aqueles adolescentes em bandos se divertindo, interagindo, namorando. O tipo de experiência que eu não tinha conseguido ter na idade deles (sim, eu era o seu típico nerd virjão aos quinze anos).

A impressão que eu tinha era de ter me adiantado ao zeitgeist. Tivesse sido só alguns anos mais jovem, poderia estar aproveitando o evento como eles.

Esse mesmo tipo de isolamento, de se sentir alheio a tudo, me perseguiu por quase toda a vida. Acho que desde que tomei consciência de mim mesmo tenho sido uma pessoa melancólica. Lembro de já ter falado disso aqui antes, não? De como tenho a impressão de viver na Era da Depressão. (Que nome pra um volume apócrifo do Hobsbawn, hein). Outro dia, uns meses atrás, tirei uma foto com colegas de faculdade, e, na legenda, ao darem um adjetivo para cada um, me descreveram como “melancolia;” é engraçado, pois me lembro claramente de estar tentando sorrir. E juro por Marc Bloch que, cada vez que me pedem para sorrir, em pelo menos dois terços das vezes eu já estou sorrindo.

Tenho pensado muito nesse tipo de coisa recentemente, ao me deparar com esses extremismos de Facebook. Cada vez que um parente anuncia apoio ao Bolsonaro ou ao MBL; cada vez que um ex-colega de escola defende que bandido tem mais é que apanhar; cada vez que descontam como “opinião” a análise de especialistas com quarenta anos de carreira acadêmica (afinal, é tudo ideologia mesmo)… Acabo voltando a esses pensamentos. Já passei muito do estágio da negação, da irritação, do enfrentamento. Cada vez que olho um deles, hoje em dia, a única coisa que consigo sentir é desânimo.

Tenho uma esperança sincera de que as coisas melhorem eventualmente; de que racismos, machismos, classismos se resolvam e deixem de existir, ou pelo menos diminuam gradualmente. Da minha forma, do alto dessa melancolia e desânimo que minam boa parte da minha proatividade, tenho tentado ajudar – sei que tento, eu mesmo, ser uma pessoa melhor, menos preconceituosa, mais consciente e crítica dos meus próprios privilégios. Talvez nem sempre consiga, mas pelo menos sempre tento.

Ao mesmo tempo, no entanto, me sinto desanimado de viver num mundo em que esse estágio ainda não tenha sido atingido. Às vezes sinto que, de novo, estou me adiantando demais ao zeitgeist.

2 Responses to “Ensaio Sobre o Desânimo”


  1. 1 Chris 08/03/2016 às 22:56

    De onde você tirou esses valores de “querer o melhor pro mundo”?

    E por que os aceitou como algo tão desejável que a incapacidade de realizá-los o atinge?

    Também, o que te faz estar feliz com o que te faz feliz e desanimado com o que te deixa desanimado? O que é a base geradora destes processos?

    Você acredita que seja possível diagnosticá-lo como tendo altruísmo excessivo e lhe prescrever 2 doses de seja feliz cuidando de si mesmo por dia?


  1. 1 Final Fantasy XIV: A Realm Reborn | Rodapé do Horizonte Trackback em 12/03/2016 às 12:20

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