Ele Está de Volta

er_ist_wieder_daEstava lendo recentemente uma resenha da biografia de Daniel Binchy, um diplomata irlandês que viveu no começo do século passado, quando um trecho destacado me chamou bastante atenção. Segundo relatado em seu diário, ele estava em Munique em 1921 quando, em um bar junto com um amigo, assistiu ao discurso exaltado de um então jovem e desconhecido aspirante a líder político e seu pequeno séquito de admiradores. Você sabe de quem estou falando.

– Um lunático inofensivo com o dom da oratória. – teria dito a seu respeito para o amigo que o acompanhava.

– Nenhum lunático com o dom da oratória é inofensivo. – foi a resposta que obteve.

Quando você olha representações mais recentes do nazismo e os seus líderes, pode ser desculpado por não lembrar disso. Já destaquei outras vezes como eles viraram vilões tão fáceis para a ficção contemporânea. De Indiana Jones a Bastardos Inglórios, do Capitão América ao Hellboy, você os encontrará tendo delírios de grandeza, fazendo experimentos ocultos, e sendo, de maneira geral, a sua caricatura de vilão megalomaníaco. A famosa lei de Godwin talvez seja a expressão máxima desse descrédito: o simples fato de mencioná-los em uma argumentação a joga no ridículo, tanto quanto se mencionasse Mickey Mouse ou o Pato Donald. E os próprios discursos de Hitler são lembrados mais pela encenação exagerada, considerada hoje até um pouco cômica, com gestos expansivos e oratória inflamada, do que pela forma magnética, ao ponto de ser assustadora, com que capturava a atenção dos ouvintes, tão bem documentada por mais de um correspondente internacional incrédulo.

O filme alemão Ele Está de Volta, adaptado a partir do romance homônimo de Timur Vermes, não comete esse erro. Ele faz, de fato, um jogo muito bom de se disfarçar de comédia. A sua própria premissa parte do absurdo: Adolf Hitler simplesmente acorda em Berlim setenta anos após o fim da guerra. Encontrado por um diretor de televisão desesperado por um programa, é confundido com um comediante especialmente imersivo no seu método de atuação, e prontamente levado à rede nacional.

Logo, toda uma nação acostumada a vê-lo quase como um personagem de desenho animado basicamente entra em tilt. Um pouco incrédula, sem saber como reagir, aplaude calorosamente aquilo que acredita ser nada mais do que uma grande performance artística. Os programas onde aparece repercutem em redes sociais, e ele próprio é atirado meio caoticamente na cultura dos memes de internet. E encontra aí a brecha que pode levá-lo de volta ao topo: encarando-o como mais uma piada, as pessoas voltam a lhe dar ouvidos, e a tratar as ideias que expõe com naturalidade e mesmo alguma seriedade.

O ator Oliver Masucci parece entender muito bem todo esse contexto, compondo um Hitler como personagem que foge da caricatura usual que se acostumou a fazer, sem delírios imperiais ou afetações ridicularizantes. Chega mesmo a ser um pouco assustador na sua impassividade, ainda que sem cair na seriedade dramática de um Bruno Ganz. Num dos toques de gênio da produção, ele saiu às ruas caracterizado, conversando com as pessoas como se fosse o próprio ditador. As gravações foram então incluídas no roteiro, emulando um documentário de forma semelhante a Borat.

É nesse ponto que o filme passa a se tornar muito mais sombrio, ao refletir sobre a ressurgência contemporânea de ideias e situações semelhantes às que levaram à formação do nazismo originalmente. A sua tese fundamental é a de que Hitler não seria capaz de fazer o que fez sem alguma conivência do próprio povo alemão, ou de uma parcela significativa dele – algo que é muito  bem explícito nestes comentários colhidos na rua. Diferente do livro, que tem muito mais um tom de brincadeira com uma figura polêmica deslocada do seu tempo, o filme, mesmo com algumas pequenas incoerências históricas (e que não diminuem em nada a sua mensagem), é realmente muito mais incisivo nesse comentário. Se é verdadeiramente engraçado, com momentos de rir em voz alta mesmo quando brinca com memes famosos do seu personagem principal, acaba deixando no monólogo final uma nota bastante sorumbática, quase como um aviso daquilo que podemos estar prestes a deixar acontecer de novo.

E seria muito reconfortante pensar que é um exagero, ou mesmo que é algo distante, próprio da sociedade alemã ou europeia. Mas qualquer um com alguma consciência política e social sabe que não é bem assim. Também sofremos aqui de uma certa negação do passado, e uma recusa a encará-lo e lidar com aquilo que ele representa sobre nós mesmos enquanto nação; e é nessa recusa que ele encontra as brechas por onde ressurgir, através de figuras públicas com discursos fáceis e inflamados, dizendo nas entrelinhas exatamente aquilo que certas parcelas da população querem ouvir. Usando de um lugar-comum bem clichê, se é verdade que o maior truque do diabo foi nos convencer da sua não existência, talvez o maior truque do nazismo – e do fascismo, autoritarismo e outras ideologias semelhantes de ignorância e intolerância – tenha sido nos convencer do seu ridículo, e de que não deve ser levado a sério.

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