O País das Histórias, Scholastique Mukasonga

Eu não sou uma estrangeira no país das histórias. Eu sei o que as abóboras falantes disseram para a grama. Sei por que o sapo coaxa e se enche de ar todo orgulhoso: ele abateu a alvéola-branca no meio do voo. Eu sei de quem é o grito insuportável, no meio da savana: é do imperyi, esse bichinho que não ganhou de Imana uma cauda. Todas as noites, ele grita, grita, grita, tentando fazer nascer esse belo apêndice que lhe foi recusado. Não é bom ouvir seu pranto de lamento e nem virar o pescoço para tentar ver a traseira dele. Eu sei por que esse homem sai de casa todas as noites. Ele vai até a floresta. Nesta noite, ele carrega um pequeno cesto. Nesse cesto há o seio de uma mulher, o seio que ele arrancou da própria esposa e prometeu dar à amante, filha da floresta, que tem apenas um seio. Mas, bem antes de amanhecer, o sábio arrancou sua lança (e o que seria de um homem sem sua lança?); ao longo do dia ele andará na trilha pelo alto das montanhas e, à noite, no terreno da casa, onde os sábios se reúnem, ele conversará com a criança de cabelos brancos. O pequeno pastor pode fazer a pergunta: “Existe amor recíproco?” Eu sei a resposta: “O seu mestre, pequeno pastor, ama apenas a esposa estéril e ela, por sua vez, só tem olhos para o primo que partiu para a terra do rei de Cyamakombe, que ele admira mais do que tudo, mas o rei só preza a própria filha que se apaixonou por um carneiro com a lã imaculada…” E você sabe por qual motivo o insaciável Sebugugu chora? Ele seguiu os conselhos do melro e matou sua única vaca: “Sacrifica sua vaca, sussurrou o melro, e você terá cem vacas.” Desconfie também das moças bonitas demais, às vezes, são leoas disfarçadas: ao ver uma carne crua, serão obrigadas a revelar sua natureza selvagem. Além disso, não vamos contar o que tem no ventre da hiena, mas ao rei contarei onde está a mulher com quem ele deve casar: a pobre órfã, cativa dos malefícios da madrasta, está escondida num barril…

Não quero ir até os confins do país das histórias, pois sei quem me espera lá. Na beira dos grandes pântanos, mora uma velhinha corcunda. Ela esconde o rosto debaixo dos trapos, mas sei que seus olhos estão fixos em mim.

Em seu ventre estéril, ela aceitou hospedar a Morte.

(De A Mulher de Pés Descalços).

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