Estrelas Modernas (Ngugi wa Thiong’o)

Vá, então, e procure aqueles que estudam livros. Livros são as estrelas modernas. Aqueles que os estudam são os sábios de hoje. Por que você acha que eles são tão ameaçados? Por que você acha que são ordenados a cantar apenas no tom de uma pessoa? Que devem apenas ecoar o mesmo homem, cantar a voz do seu mestre? Felizes são os que sofrem na busca da verdade, pois seus corações e mentes são livres, e eles guardam a chave para o futuro. Mas isso não significa que tenham visto a mesma luz ao mesmo tempo, ou que foram todos liberados do medo! Diga-me: não é possível encontrar apenas um ou dois entre eles que se libertaram do medo e podem desfazer o nó e revelar o que está escondido?

(De Matigari)

Anúncios

Elas adoram (um diálogo)

– Eu coço o saco em público, cuspo no chão, arroto quando tenho vontade, espirro alto na rua, evito pegar nas mãos de homem, muito prazer eu sou machão e elas adoram.
– Me diga uma mulher que adore então.
– Ora, a minha esposa, com quem eu sou casado há trinta anos! Querida, vem cá!
– O que foi, querido?
– Você não adora que eu seja assim?
– Assim como?
– Ora, um machão! Que coça o saco em pública, cuspa no chão, arrote quando quer, não pegue na mão de homem!
– Bem, já que você perguntou… Eu tenho um pouco de vergonha de quando você coça o saco em público.
– Eu não dis… o quê?
– E cuspir no chão! Você não percebe o quanto isso é nojento? Eu viro a cara sempre que você faz isso pra não ver.
– Mas…
– E esses arrotos! Eu juro que, às vezes, quando estamos na rua, eu dou um passo pro lado e finjo que não te conheço.
– Mas querida…
– E qual o problema em pegar nas mãos dos seus netos de vez em quando? Eles genuinamente acham que você não gosta deles.
– Mas esse é o meu jeito machão!
– …
– …
– Sim, querido, eu adoro que você seja assim.
– Eu não disse? Elas adoram!

O País das Histórias, Scholastique Mukasonga

Eu não sou uma estrangeira no país das histórias. Eu sei o que as abóboras falantes disseram para a grama. Sei por que o sapo coaxa e se enche de ar todo orgulhoso: ele abateu a alvéola-branca no meio do voo. Eu sei de quem é o grito insuportável, no meio da savana: é do imperyi, esse bichinho que não ganhou de Imana uma cauda. Todas as noites, ele grita, grita, grita, tentando fazer nascer esse belo apêndice que lhe foi recusado. Não é bom ouvir seu pranto de lamento e nem virar o pescoço para tentar ver a traseira dele. Eu sei por que esse homem sai de casa todas as noites. Ele vai até a floresta. Nesta noite, ele carrega um pequeno cesto. Nesse cesto há o seio de uma mulher, o seio que ele arrancou da própria esposa e prometeu dar à amante, filha da floresta, que tem apenas um seio. Mas, bem antes de amanhecer, o sábio arrancou sua lança (e o que seria de um homem sem sua lança?); ao longo do dia ele andará na trilha pelo alto das montanhas e, à noite, no terreno da casa, onde os sábios se reúnem, ele conversará com a criança de cabelos brancos. O pequeno pastor pode fazer a pergunta: “Existe amor recíproco?” Eu sei a resposta: “O seu mestre, pequeno pastor, ama apenas a esposa estéril e ela, por sua vez, só tem olhos para o primo que partiu para a terra do rei de Cyamakombe, que ele admira mais do que tudo, mas o rei só preza a própria filha que se apaixonou por um carneiro com a lã imaculada…” E você sabe por qual motivo o insaciável Sebugugu chora? Ele seguiu os conselhos do melro e matou sua única vaca: “Sacrifica sua vaca, sussurrou o melro, e você terá cem vacas.” Desconfie também das moças bonitas demais, às vezes, são leoas disfarçadas: ao ver uma carne crua, serão obrigadas a revelar sua natureza selvagem. Além disso, não vamos contar o que tem no ventre da hiena, mas ao rei contarei onde está a mulher com quem ele deve casar: a pobre órfã, cativa dos malefícios da madrasta, está escondida num barril…

Não quero ir até os confins do país das histórias, pois sei quem me espera lá. Na beira dos grandes pântanos, mora uma velhinha corcunda. Ela esconde o rosto debaixo dos trapos, mas sei que seus olhos estão fixos em mim.

Em seu ventre estéril, ela aceitou hospedar a Morte.

(De A Mulher de Pés Descalços).

Pantera Negra, de Ta-Nehisi Coates

blackpantherUm dia depois de eu me tornar rei, S’yan ofereceu-me um conselho.

– O poder não reside no que um rei faz, mas no que seus súditos creem que ele possa fazer.

Foi profundo, pois significava que a majestade dos reis está na sua aura de mistério, não em sua força. Cada ato de força apequena o rei, pois reduz sua aura de mistério. Pode expor os poderes do rei e, portanto, seus limites. Pode tornar o rei humano. Quebrável.

Por isso, parte de minha força eu escondi do mundo, permitindo que as lendas e o mito preenchessem a lacuna. Pois o que as pessoas conhecem não é o verdadeiro poder dos reis.

Hoje, meu tio S’yan está morto. Assassinado por outro rei. Eu o amava, mas gostaria que ele tivesse me falado não só do poder dos reis, mas da força do povo. Gostaria que tivesse me alertado que a população também tem segredos. Também guarda mistérios.

Também possui um poder próprio.

(Pantera Negra, do Ta-Nehisi Coates, sensacional).

R. I. P.

Esse me deixou triste mesmo. R. I. P.

Deathless, de Catherynne M. Valente

– Eu saboreio a amargura – ela nasce da experiência. É o privilégio daquele que realmente viveu. Você, também, deve aprender a preferi-la. Afinal, quando todo o resto se for, você ainda pode ter amargura em abundância.

Catherynne M. Valente, Deathless.

100ft Robot Golf

100ft100ft Robot Golf é um desses raros jogos que já dizem tudo o que são logo no título: robôs de cem pés (mais ou menos trinta metros) de altura jogando golfe. Não há muitas dúvidas sobre o que você encontrará dentro dele.

É claro, você não esperaria um jogo sério com esse tema, e ele de fato não o é por um segundo sequer. Há uma história, sobre a tentativa de reorganizar um torneio de golfe de robôs cancelado após um acidente misterioso no passado, mas ela é praticamente apenas um pretexto para fazer piadas com clichês e clássicos dos animes de mecha. Há espaço para todos: do seu genérico de Gundam até um jaeger de Pacific Rim, passando por Evas, Gunmen (de Tengen Toppa Gurren Lagann) e robôs-carros. Para pilotá-los, você encontrará desde vendedores de carros usados até um grupo de cinco corgis que se unem para formar o seu clone de Megazord da vez.

O jogo se ganha facilmente nesse humor galhofeiro, que se recusa a se levar mesmo que minimamente a sério. Os personagens são dublados por comediantes do YouTube, com direito a uma apresentação animada no início de cada episódio – e muitas são mesmo de largar o controle para rir, como a dos cinco corgis mencionados acima. Claro, é um humor de nicho, que você dificilmente entenderá se não tiver as referências certas – você certamente não RIRÁ EM VOZ ALTA (em maiúsculas) na cena final, como eu fiz, se não tiver assistido Neon Genesis Evangelion -, mas, para o seu público específico, é uma das experiências mais divertidas que você pode ter.

Com esse foco todo na galhofa, é verdade que a jogabilidade acaba não sendo o elemento principal, e parece adicionada quase que por obrigação. Enquanto jogo de golfe, ele certamente não é muito desenvolvido – poucos tacos, campos simples, controles não muito eficientes. A parte divertida é que não funciona realmente como um jogo de golfe padrão: ao invés de apenas acertar o buraco da vez com o menor número de tacadas, o objetivo é fazer isso antes do adversário, que também está tentando acertá-lo simultaneamente, como em uma espécie de corrida. Você pode até atrapalhá-lo, desviando a bolinha em pleno ar, ou atacando-o com golpes de taco para impedi-lo de avançar! Tudo isso em cenários abertos, como grandes cidades e até uma base lunar, que você destrói enquanto corre de um ponto a outro.

Há alguns toques pequenos nessa jogabilidade que adicionam cor ao jogo. Cada robô, por exemplo, utiliza um sistema completamente diferente para determinar a eficiência da sua tacada – um requer que você o acelere como um carro, outro que sincronize os seus pilotos, e no clone de Eva você deve sincronizar corpo, mente e alma para ter o melhor resultado. Há ainda habilidades especiais, como a espada do Megazord ou um hoverboard para o jaeger, que tornam cada um mais único à sua maneira. No entanto, o jogo carece também de tutoriais que o ajudem a entendê-lo, forçando-o a descobrir como cada robô funciona na base da experimentação.

Se a jogabilidade é simplória e até deficiente, no entanto, a verdade é que ela também não tenta ser mais do que isso. O melhor que se pode dizer é que não é frustrante: com comandos simples e sem muitas firulas, é feita apenas para não ficar no caminho da galhofa, e me parece que esse é claramente o objetivo. Nem todo jogo precisa ser uma experiência estética profunda e intelectualizante, afinal. Você quase consegue imaginar ele sendo concebido em cada cena, com os desenvolvedores rodeando uma grande mesa com uma dúzia de garrafas de cerveja vazias; e há um tom quase nostálgico no seu formato, de quando videogames eram pouco mais do que um passatempo para tardes chuvosas depois da escola (ele até chega a se parecer com um jogo barato de PSOne, pra falar a verdade).

No fim, 100ft Robot Golf é, antes de tudo, um jogo divertido. Não é o jogo que o fará abandonar o seu The Witcher ou Final Fantasy, mas ele pode bem lhe ajudar a passar o tempo entre uma campanha deles e outra. No mínimo, é garantia de umas boas risadas. Good boy!


Sob um céu de blues...

Categorias

Arquivos

@bschlatter

Estatísticas

  • 199,564 visitas