Deathless

deathlessA Morte de Koschei o Imortal, ou Marya Morevna, é um conto de fadas tradicional da cultura eslava, que conta a história do heroi russo Ivan Tsarevitch, o seu encontro com a princesa guerreira Marya Morevna e o seu confronto por ela com Koschei, uma espécie de demônio recorrente em diversas histórias dessa tradição. Deathless, de Catherynne M. Valente, é um romance que reconta essa história sob o ponto de vista de Marya, tendo como cenário não a Rússia idílica medieval, mas sim a Leningrado / São Petesburgo pós-Revolução de 1917.

É claro que esse resumo não faz realmente jus ao romance. Valente de fato reinventa a história, fazendo de Marya a protagonista e Ivan o coadjuvante, e mesmo Koschei, ainda que mantenha a sua faceta demoníaca e assustadora, é muito diferente de um vilão ou antagonista, mas forma com os dois um triângulo amoroso incrivelmente intenso e diversas vezes surpreendente. O tom de conto de fadas, no entanto, é mantido, com uma narrativa belíssima repleta de simbolismos e lirismo, e a presença de criaturas e personagens tradicionais do folclore eslavo, de demônios caseiros e espíritos da natureza até as próprias Baba Yaga e Likho.

O cenário na Rússia pós-revolucionária é explorado de forma bastante criativa. Há um resumo bastante inteligente da história anterior do país nos casamentos sobrenaturais das três irmãs de Marya, e então você logo começa a encontrar situações como um soviete formado por fadas caseiras ou um dragão que dorme sobre os “ossos” (qual seja, documentos de execução) de presos políticos. A autora joga bastante com as mudanças trazidas pela revolução, a paranoia da delação de espiões e informantes, e a forma como ela afeta o mundo dos seres mitológicos. Uma parte importante do livro ocorre ainda durante o cerco de Leningrado na Segunda Guerra Mundial, que reflete a guerra que ocorre no mundo sobrenatural, e serve de pano de fundo para a divisão e conflito internos da personagem sobre os seus dois amantes.

Acima de tudo, no entanto, há o personagem Koschei conforme descrito por Valente, que tem talvez uma das caracterizações mais fascinantes da literatura fantástica recente, e o relacionamento que ele desenvolve com Marya, remetendo aos romances góticos e com um certo quê de Labirinto no meio do caminho. Boa parte dos temas do romance dizem respeito às relações de poder no casamento entre eles, visto mais de uma vez sob a metáfora da guerra, com combates e manobras táticas. Koschei é um marido abusivo e violento, mas também amargurado e dependente emocionalmente da esposa, e Marya, antes de apenas se submeter, possui personalidade e força próprias, e aos poucos vai conseguindo dele a mesma submissão que ele exige dela. O breve momento de equilíbrio na sua relação é talvez a descrição mais verdadeira da felicidade que há no romance, e o seu momento de catarse antes da tragédia final da história, com o encerramento um pouco abrupto que o deixa perplexo e olhando para o vazio por vários minutos após a última linha.

Como complemento, a narrativa de Valente se apoia ainda em uma prosa bastante viva e envolvente, repleta de poesia e passagens que você tem vontade de sair citando em redes sociais. A sua descrição de paisagens e personagens fantásticos evocam uma sensação de maravilhamento que por vezes lembra uma animação do Studio Ghibli; ela é muito bem sucedida naquilo que o Neil Gaiman tenta fazer com seus romances mais fantásticos, mas não consegue tantas vezes quanto os fãs querem acreditar.

No fim, Deathless é um romance muito intenso e envolvente, talvez um dos mais fortes livros de fantasia que li nos últimos tempos. Recomendo muito.

After School of the Earth

after schoolAcho que todos já devem ter tido em algum momento a fantasia do sobrevivente – de ser o último sobrevivente de alguma catástrofe, e como viver nessa situação. Pra um cara tímido e solitário como eu, que tem certa dificuldade em se relacionar intimamente com outras pessoas, o mundo de repente parece um lugar muito mais simples pra se viver quando se tira essas pessoas da paisagem, ou pelo menos a maior parte delas. Alguma parte do apelo de jogos como Shadow of the Colossus e Journey, ou mesmo livros/filmes como Eu Sou A Lenda e todos os demais que seguem o tropo do apocalipse zumbi, pelo menos para mim, está justamente em oferecer a visão de um ambiente assim, um mundo onde você é livre para explorar os cenários idílicos e desoladas sem o risco de dar de cara com outro ser humano no caminho.

After School of the Earth é um mangá que explora um pouco esse tema. Dois anos após figuras misteriosas conhecidas como phantoms começarem a capturar pessoas e fazê-las desaparecer, apenas quatro indivíduos sobraram em todo o Japão (ao menos, até onde eles mesmos saibam): o garoto Masashi e as garotas Anna, Yaeko e Sanae. Os capítulos então acompanham o seu dia-a-dia no mundo desabitado, buscando mantimentos e tentando sobreviver enquanto tentam descobrir as razões que levaram à situação atual.

O tom na maior parte do tempo é o que se costuma chamar de slice of life, ou seja, aquelas “fatias da vida,” histórias de tramas mundanas como fazer um filme, cuidar de uma gripe e os relacionamentos que se desenvolvem entre os personagens a partir disso. O próprio título é bem claro como metáfora: é o período “pós-escola” (ou talvez de férias escolares) da própria Terra, em que os personagens não têm mais responsabilidades além de se divertir e aproveitar o tempo livre para o lazer.

Vez por outra há um encontro com um phantom, e então a trama maior do desaparecimento da humanidade é retomada por algumas páginas. No entanto, achei estes os momentos mais descartáveis – a história está no seu auge enquanto explora os próprios personagens e seus relacionamentos, aquilo que perderam quando os phantoms atacaram, e a solidão que sentem no mundo desabitado e como os demais ajudam a superá-la. Os phantoms acabam funcionando mais como um lembrete de que aquilo não pode durar para sempre, e eventualmente a escola voltará para acabar com a alegria das férias.

A arte é boa, com personagens de traços mais mundanos e sem os exageros de estilização que são comuns em certos mangás com pitadas de humor. Gostei especialmente da composição das capas, evocando a idéia das férias com personagens em geral em trajes de banho em um cenário desolado qualquer na capa da frente, e então referindo o tema dos desaparecimentos ao mostrar o mesmo cenário mas sem os personagens na contra-capa.

E então há a questão do fanservice. O tema é polêmico, e não quero realmente fazer um juízo de valor aqui. Goste ou não, o fato é que ele meio que se tornou um elemento da própria linguagem dos mangás, ainda mais quando a trama já parte de elementos tão característicos do gênero infame dos haréns – fato do qual a própria história é bem consciente, e chega a usar como fonte de humor em alguns momentos. Pelo menos ele não chega a ser exagerado, talvez com exceção das piadas bobas sobre os peitos das protagonistas que cansam com certa rapidez, e não chega a ser usado como justificativa única da história na maior parte do tempo. Só o que incomoda é quando você se dá conta de que a fonte desse fanservice são personagens adolescentes; você tenta relevar isso com a consciência de que, bem, o próprio protagonista também é adolescente, e é impossível evitar alguma tensão sexual entre personagens na situação em que eles se encontram (e não é como se as minhas próprias fantasias de sobrevivente fossem totalmente livres de algumas perversões), mas também não há como evitar aquela pulguinha atrás da orelha durante a leitura. Pelo menos o autor sabiamente evita cruzar certos limites, e não sensualiza a personagem mais nova do grupo, que possui apenas onze anos.

Em todo o caso, mesmo com os poréns do parágrafo anterior, há algo nesse mangá que realmente me pegou e me envolveu. Provavelmente seja a aura de solidão dos personagens e da situação em que se encontram, algo com a qual eu posso me identificar e sentir empatia.

Vício Inerente

vicio-inerenteFiz trinta anos de idade em 2014. Muita gente costuma tratar isso como um marco – o fim da juventude, fim da pós-adolescência tardia, tanto faz; no fundo, é pouco mais do que aquele fetiche das pessoas por números redondos, como se a vida pudesse ser colocada numa régua e medida segundo o sistema numérico decimal. Não partilho (ou tento não partilhar) dele, mas é difícil não passar por estes momentos sem fazer um certo balanço da sua juventude, daquilo que você fez ou deixou de fazer, e os eventuais arrependimentos que te mantêm acordado durante a noite. Por coincidência, acabei lendo esse ano dois livros que tratavam, de alguma maneira, justamente sobre essa passagem: Caçando Carneiros, do meu guru atual Haruki Murakami, um dos poucos livros dele que li e não resenhei, mas apenas fiz uma citação avulsa; e este Vício Inerente, de Thomas Pynchon, cuja adaptação cinematográfica está para estrear por aqui nos próximos meses.

O livro narra as desventuras de Doc Sportello, detetive particular na distante Califórnia do ano de 1970, e a sua jornada pra desvendar o desaparecimento de uma ex-namorada e o seu atual amante, um figurão da indústria imobiliária. Claro, estamos falando de um romance pynchoniano, então você pode esperar que ele nunca será apenas sobre isso – os personagens únicos, as alucinações à base de erva e ácido, as incontáveis referências enciclopédicas à cultura geral, a sensação de paranoia e de estar envolto em uma trama muito maior do que você é capaz enxergar, tudo está lá como em Arco-Íris da Gravidade ou qualquer outro dos seus livros mais conhecidos. Este, no entanto, consegue ser um pouco mais tradicional em termos de estrutura; ao invés de mais de quatrocentos personagens cujos pontos de vista se revezam, a narrativa segue mais de perto apenas as investigações de Sportello, como em um romance de detetive clássico, e é sob a sua ótica que você entra em contato com personagens e situações a cada capítulo mais estranhas e psicodélicas.

No fundo, no entanto, o que me pegou mesmo no livro foi essa referência à passagem para a maturidade. Sportello possui na história exatamente trinta anos, e frequentemente se vê de frente com os dilemas que a idade lhe impõe – há uma tensão constante entre ele e o policial Pé-Grande Bjornsen, que optou pelo estilo de vida mais regrado e dentro da linha, e diversas vezes o tenta a trocar de lado e se tornar um informante da polícia, acabando por desenvolver por ele, por trás de todo aparente desprezo pelo seu estilo de vida, um tipo muito singular de empatia. Ao mesmo tempo, muitos momentos são passados em flashbacks, em que Sportello repassa momentos passados com os personagens que o levaram até ali, e você não consegue deixar de ver nisso algum quê de nostalgia, um entendimento de que certas coisas que eram tão boas ficaram para trás e hoje já não podem mais ser resgatadas ou feitas de forma diferente.

O romance trata o tema de forma muito intensa, usando os dilemas pessoais do detetive para tratar do que é uma crise de maturidade não apenas dele, mas de toda a sua geração e aquilo que ela representou. O ano escolhida para ação é muito simbólico, sem nada de aleatório: trata-se do adeus definitivo aos anos 1960, a década dos hippies, das drogas, do sexo e da música jovem, forçado a amadurecer de forma por vezes dolorosa e desencantadora, como a constante lembrança à seita de Charles Manson durante a narrativa nos faz lembrar. Você vê isso no próprio Sportello, e também nos personagens com que ele é obrigado a interagir, sejam seus parceiros de viagens com drogas, músicos convertidos em agentes governamentais, ou executivos do capitalismo imobiliário passando por crises de consciência (e então não mais).

Não posso dizer que tenha sido esse o objetivo de Pynchon ao escrever o livro, ou talvez tenha sido mesmo, não sei. Mas um livro também não pertence só ao seu autor, e, ainda mais quando se trata de uma obra que toca uma variedade tão grande de temas, cada um pode fazer uma leitura bastante pessoal dele – e, possivelmente pelo próprio momento pelo qual estou passando, foi essa a que fiz, e não dá pra dizer que ela não me atingiu de forma bastante forte. Após uma jornada de encontros psicodélicos e aventuras um tanto quanto picarescas, a forma como ele se encerra, com um retorno mundano de carro para casa, tem um ar anticlimático, mas também de melancolia, distensão e desencantamento. Não posso dizer que não entendi.

Pacific Rim – Tales From Year Zero

Pacific_Rim_Tales_from_Year_ZeroAcho que não preciso falar mais de como me apaixonei por Pacific Rim / Círculo de Fogo logo à primeira assistida. Talvez não seja o filme perfeito em todos os menores detalhes, com um ou outro buraco de roteiro ou desenvolvimento de personagem que poderia ter sido mais trabalho… Mas francamente, quem se importa com isso quando você tem um robô gigante batendo com um barco em um monstro do mesmo tamanho? E não também que o filme não seja nada além de pornografia para nerds, claro – há sim um bocado de coisas legais para ver nele além da simples (e, na minha nem tão modesta opinião, satisfatória em si mesma) pancadaria colossal.

Uma dessas coisas é todo o universo que o filme sugere existir além do que foi apresentado nesta história. É possível ver isso em todos os jaeger e kaiju que recebem nomes e são meramente mencionados, nas tatuagens do cientista interpretado por Charlie Day sugerindo uma espécie de kaijumania apesar de toda a destruição que causam, no mercado negro administrado por Ron Perlman, e em um punhado de outros pequenos detalhes e pormenores que passam rapidamente por uma cena ou outra; é um universo em que você tem vontade de mergulhar, jogar campanhas de RPG (e teria também de jogar videogame, se o jogo correspondente não fosse melhor deixar esquecido), e o que mais for possível. Na verdade, você tem mesmo a impressão de que o filme é um pouco como uma história de origem, que conta apenas o primeiro episódio do que poderia ser uma saga bem maior – o ato final mesmo, com aquela correria para explodir a fenda dimensional que traz os monstros gigantes para o nosso mundo, rola um pouco como overkill, com o papel único de oferecer uma resolução final que não necessite (mas também não necessariamente exclua) uma seqüência direta.

A graphic novel Pacific Rim: Tales From Year Zero tenta explorar um pouco mais deste universo, funcionando como uma introdução ao mundo do filme. Usando como deixa uma repórter que entrevista certos personagens chave a respeito do começo da invasão dos monstros e dos projetos de construção dos jaeger, ela resgata um tanto da história não contada na tela grande, bem como aprofunda um pouco mais certos personagens que vemos apenas de relance na trama maior. São três pequenos contos que resgatam o início da invasão dos monstros, o desenvolvimento dos primeiros jaeger, e o começo da carreira de certos personagens importantes para o filme.

Um dos pontos que achei mais interessante é notar como a pilotagem dividida, com dois pilotos que devem entrar em conexão neural para movimentar o jaeger, é bastante explorada. O diretor Guillermo del Toro sempre destacou em entrevistas antes do lançamento como foi este elemento que o fez acreditar de vez no projeto, por tornar possível que uma história sobre robôs combatendo monstros gigantes subitamente se tornasse também uma história sobre relacionamentos; mas a verdade é que, mesmo que bastante usada para mover o enredo e desenvolver personagens, ela acaba ficando bastante obscurecida atrás dos, bem, combates entre robôs e monstros gigantes. Aqui, no entanto, o conceito é explorado com mais profundidade, e você é capaz de ver como a conexão, mais do que fazer o robozão correspondente andar, une e separa os seus pilotos, e modifica os seus relacionamentos entre si e com as outras pessoas.

Não vou dizer que seja uma graphic novel imperdível, ou que as histórias sejam especialmente tocantes e envolventes. É um volume bastante curto, afinal – apenas 112 páginas -, e ainda divide este espaço entre três relatos distintos. Por isso, não funciona exatamente como um produto independente, mas, como acessório ao filme, cumpre muito bem o seu papel, e traz um pouco mais de camadas e elementos para quem já estava cativado pelo seu universo.

Universos Paralelos (2)

de_leonTodos os anos, após a última rodada do campeonato, o físico quântico soltava uma bateria de fogos de artifício.

- Mas o seu time perdeu! – diziam os amigos. – Foi rebaixado! Nem chegou à final!

A todos, ele calmamente respondia:

- Ah, mas em algum universo paralelo…

The Star Wars / A Fortaleza Escondida

the star warsRecentemente a nerdosfera entrou em polvorosa com o lançamento do trailer do sétimo episódio de Guerra nas Estrelas (ou, para quem prefere se manter fiel as determinações marquetícias, Star Wars). Claymores de luz à parte, no momento em que a saga se volta (finalmente, diga-se) para o futuro, talvez seja uma oportunidade bacana para voltar ao passado dela, e conhecer um pouco das guerras estelares que nunca tivemos.

Estou falando especificamente de The Star Wars, uma série de quadrinhos de 2013 que faz uma adaptação dos primeiros rascunhos de George Lucas para o seu famoso universo. Trata-se de uma história bastante diferente da que viemos a conhecer e amar: Luke Skywalker não era ainda um garoto de fazenda que sonhava em pilotar uma X-Wing contra o Império, mas um general veterano protegendo o legado dos jedi e muito mais; Han Solo, no lugar de um contrabandista e mercenário, era um soldado veterano bombado e, er, verde; e há mesmo a presença de um certo Annikin Starkiller, um aprendiz jedi (ou padawan, como preferir) sob a tutela de Luke.

As diferenças, é claro, vão muito além do que a situação de apenas alguns personagens. O que primeiro chama a atenção é quando você vê um certo robô com aparência de lata de lixo se comunicar com palavras, ao invés de assobios. Mas logo você perceberá também que sabres de luz não parecem ser exclusividade de jedi ou sith – você o vê na mão de praticamente todos os stormtroopers genéricos pelo caminho. A própria Força é também menos evidente: não parece haver muitos deus ex machinas associados, e ela surge mais como uma citação semi-religiosa recorrente à “Força dos Outros.”

Os artistas também aproveitaram para incluir algumas referências mais específicas, como no design de C3PO, que se antes já era claramente inspirado no clássico Metrópolis de Fritz Lang, agora passou a ser escancaradamente inspirado. E a nova (velha?) aparência de Luke Skywalker, com barba e topete grisalhos, também lembra de forma muito suspeita o próprio George Lucas, dando a ele um ar de Mary Sue muito curioso.

O roteiro em si parte de uma premissa semelhante daquele que ficou conhecido como Uma Nova Esperança, o primeiro filme da saga – ainda temos uma princesa em perigo que deve recorrer a um velho jedi e seu recém aceito aprendiz para combater um Império personificado em uma estação espacial do tamanho de uma lua. Isso acontece porque, em realidade, ele ainda se inspira na mesma fonte, do qual falarei com mais detalhes um pouco mais adiante. Muitos dos pormenores, no entanto, bem como os próprios personagens, diferem bastante: o resgate de Leia na “Estrela da Morte,” por exemplo, aqui é o desfecho, e não o começo; o sub-enredo romântico da princesa com o aprendiz jedi é muito mais evidente; e os droides possuem um papel de fato muito reduzido em evoluir o enredo. Aliás, em alguns momentos ele chega mesmo a lembrar mais Spaceballs / Tem Um Louco Solto no Espaço, a paródia de Mel Brooks da série, o que me fez pensar se ele não teve de alguma forma acesso a esse roteiro quando a estava escrevendo…

Não vou dizer que não seja uma história legal, que diverte e possui alguns bons méritos próprios. Mas, com o desenvolvimento dos quadrinhos, me pareceu sim que ela não teria a mesma força da história que conhecemos. Ainda que seja interessante da sua própria forma, o arrogante Annikin Starkiller não é um protagonista tão empático quanto o jovem Luke Skywalker, que com a sua história de garoto comum elevado a herói da galáxia cativou com grande força o público jovem da sua época e além. Momentos marcantes como a morte de Obi-wan Kenobi fazem falta, ainda que hajam algumas tentativas de substituí-la, e mesmo os antagonistas aqui também não possuem o mesmo carisma dos que conhecemos no cinema, a começar pelo próprio Darth Vader convertido em mero general imperial. Não é uma história ruim, enfim, mas acredito que as mudanças realizadas realmente a tornaram mais empolgante e interessante.

fortalezza escondidaO que mais chama atenção, no entanto, é quando comparamos este roteiro com o de outra história, esta mais antiga e referência confessa do próprio George Lucas: o filme A Fortaleza Escondida, de Akira Kurosawa, que recentemente foi relançado em uma Edição Definitiva pela Versátil. Se as semelhanças já eram bastante visíveis no próprio filme original – na história da princesa escoltada por um guerreiro veterano e companheiros por entre as linhas inimigas, ou na dupla de personagens de nível mais baixo (droides ou ladrões) de cujo ponto de vista a trama é contada -, elas acabam ficando bem mais evidentes nesta versão do roteiro. É mais fácil traçar um paralelo entre os generais Luke Skywalker e Makabe Rokurota do que era entre o segundo e Obi-wan Kenobi, por exemplo; além de que de fato há uma fortaleza escondida com função e destino muito semelhantes aos do filme de Kurosawa. Certas cenas e reviravoltas do roteiro – como a virada de casaca de um certo inimigo no ato final, permitindo que os heróis saiam vitoriosos – também lembram muito as da versão com samurais, e a impressão final que fica é que Lucas apenas partiu do roteiro de Kurosawa e começou a adicionar personagens, a começar por um protagonista masculino jovem com quem certa parte do público poderia se identificar.

Claro, há muito mais no filme de Kurosawa do que apenas uma versão inicial do que viria a ser uma das maiores sagas de ficção da nossa época. Trata-se de uma aventura muito bem dirigida e envolvente, que consegue combinar momentos divertidos e tensos de uma forma bastante satisfatória, como tantos blockbusters de hoje em dia tentam fazer e nem sempre conseguem. É um filme muito recomendado para quem gosta da temática samurai, ou apenas quer um filme interessante para passar o tempo numa tarde de sábado. Mas, consciente de que há uma parcela do público que se interessaria pelo filme apenas por isso, a nova edição contém comentários do próprio George Lucas, falando da relação do filme com o seu universo mais famoso.

The Star Wars, enfim, é uma curiosidade muito interessante para os fãs da saga, um retrato da história que poderia ter sido mas nunca teve a oportunidade de virar uma trilogia e angariar milhões de dólares em merchandising. E A Fortaleza Escondida, além de ter o mesmo valor para os fãs de Star Wars, ainda vale muito para fãs de cinema de maneira geral, e da história do Japão dos samurais em particular.

Aniquilação

aniquilaçãoJeff VanderMeer tem um problema com fungos. Não se tratam de micoses ou pés-de-atleta, claro (ou pelo menos até onde eu posso falar); mas é uma fixação tão constante na sua obra que chega a ser curioso, no mínimo. O ciclo de histórias de Ambergris, por exemplo, que são as suas obras mais conhecidas, possui como elemento central uma civilização de cogumelos que existiria sob a cidade, influenciando de alguma toda a sua história repleta de mistérios – algo assim como um gritty reboot de Super Mario Bros., digamos. E também na sua trilogia do Comando Sul, cujo primeiro volume, Aniquilação, foi lançado recentemente em português, o tema volta a ser recorrente.

Mas vamos por partes. Segundo a sinopse do livro, décadas atrás algum tipo de catástrofe ambiental se abateu sobre uma região do planeta, cuja localização exata nunca sabemos realmente, isolando-a do resto do mundo. Aos poucos a natureza foi tomando os últimos vestígios da presença humana, dando origem a uma fauna e flora exótica e surpreendente. Para entender exatamente o que aconteceu, uma série de expedições foram organizadas e enviadas para lá. Nem todas retornaram; algumas tiveram mesmo resultados catastróficos, com o desaparecimento, morte ou mudança de todos os membros enviados.

No livro conhecemos o destino da décima segunda destas expedições, formada por quatro mulheres: uma antropóloga, uma topógrafa, uma psicóloga, que é também a líder da missão, e uma bióloga, a narradora da história. Não sabemos, a princípio, quase nada sobre seus passados, apenas que foram escolhidas por critérios obscuros e enviadas para lá de uma maneira misteriosa. Aos poucos, no entanto, o que ocultam sobre suas vidas é justamente o que vai semear a catástrofe na missão, sobretudo na medida em que elas se depararem com situações imprevisíveis e encontros que desafiam a sua sanidade e o seu entendimento sobre o mundo.

VanderMeer domina como poucos a narrativa de suspense. Há algo de tenso e sombrio na sua escrita praticamente desde a primeira frase – você consegue perceber logo de início que algo muito errado acontecerá, e a tensão sobre o que o desencadeará o acompanha a cada virada de página. Essa sensação se intensifica a cada novo encontro com os horrores impossíveis que se escondem na Área X. Para quem joga videogames, a história lembra um jogo do auge dos survival horrors, como Silent Hill ou os primeiros Resident Evil: há um ambiente misterioso e perigoso, em que você nunca sabe ao certo o que está acontecendo; e a ansiedade a cada parágrafo de não saber se ele será seguido um novo confronto aberrante ou uma revelação perturbadora sobre aquilo que o cerca. Cada solução encontrada se abre em dez novos mistérios, porém sem a garantia de que tudo acabará bem no final.

Uma coisa muito pontual, apenas, acaba quebrando o clima que o autor constrói com tanta habilidade no resto do tempo. Há um papel muito grande dado aos efeitos da hipnose sobre as personagens, usado como deus ex machina para garantir certos desenvolvimentos em alguns momentos importantes. Para os céticos (como eu), é preciso forçar um pouco a suspensão de descrença e passar por cima deste detalhe. (Por outro lado, estamos falando de um livro de horror cósmico de ascendência lovecraftiana, então há quem vá dizer que este é o elemento menos fantástico da história de qualquer forma…)

Em todo caso, Aniquilação ainda é uma história de suspense e horror cósmico muito bem escrita e executada, recomendadíssima. Aguardo com bastante ansiedade pelos próximos livros da trilogia, que lancem mais luzes (e consequentemente tragam mais mistérios) sobre o que se esconde afinal sob a assustadora Área X.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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