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R. I. P.

Esse me deixou triste mesmo. R. I. P.

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Deathless, de Catherynne M. Valente

– Eu saboreio a amargura – ela nasce da experiência. É o privilégio daquele que realmente viveu. Você, também, deve aprender a preferi-la. Afinal, quando todo o resto se for, você ainda pode ter amargura em abundância.

Catherynne M. Valente, Deathless.

The Magicians, de Lev Grossman

– Eu tenho uma teoriazinha que eu gostaria de compartilhar, se eu puder. O que você acha que faz de você um magos? – Mais silêncio. Fogg já estava muito dentro no território das perguntas retóricas de qualquer forma. Ele falou mais levemente. – É porque vocês são inteligentes? É porque vocês são corajosos e bons? É porque vocês são especiais?

“Talvez. Quem sabe. Mas eu vou dizer uma coisa: eu acho que vocês são magos porque vocês são infelizes. Um mago é forte porque ele sente dor. Ele sente a diferença entre o que o mundo é e o que ele faria dele. Ou o que você pensa que aquela coisa no seu peito era? Um mago é forte porque ele sente mais dor do que os outros. Sua dor é sua força.

“A maioria das pessoas leva essa dor dentro delas por toda sua vida, até que matam a dor por outros meios, ou a dor mata elas. Mas vocês, meus amigos, vocês encontraram um meio, um meio de usar a dor. De queimá-la como combustível, para luz e calor. Vocês aprenderam a quebrar o mundo que tentou quebrar vocês.

Lev Grossman, The Magicians.

White Noise, de Don Delillo

– Não se preocupe comigo. -, ele disse. – Mancar não significa nada. Pessoas da minha idade mancam. Mancar é algo natural em uma certa idade. Esqueça a tossida. É saudável tossir. Você movimenta a coisa. A coisa não pode machucá-lo desde que não pare em um só lugar e fique lá por anos. Então tossir está ok. O mesmo para a insônia. A insônia está ok. O que eu ganho dormindo? Você chega a uma idade em que cada minuto dormindo é um minuto a menos para fazer coisas úteis. Para tossir ou mancar. Não se preocupe com as mulheres. As mulheres estão ok. Nós alugamos um filme e fazemos sexo. Isso bombeia o sangue para o coração. Esqueça os cigarros. Eu gosto de falar para mim mesmo que estou escapando com algo. Deixe os mórmons largar o fumo. Eles morrerão de algo tão ruim quanto. O dinheiro não é problema. Estou tranquilo em termos de renda. Nenhuma pensão, nenhuma poupança, nenhuma ação ou título. Então você não precisa se preocupar com isso. Tudo está resolvido. Não se preocupe com os dentes. Os dentes estão ok. Quanto mais soltos estiverem, mais você pode mexer com eles com a língua. Isso dá à língua algo para fazer. Não se preocupe com a tremedeira. Todo mundo tem uma tremedeira de vez em quando. É apenas a mão esquerda, de qualquer forma. A forma de aproveitar a tremedeira é fingir que é a mão de outra pessoa. Não se preocupe com a perda repentina de peso. Não há razão para comer o que você não pode ver. Não se preocupe com os olhos. Os olhos não podem ficar pior do que estão agora. Esqueça a mente completamente. A mente vai antes do corpo. É assim que deve ser. Então não se preocupe com a mente. A mente está ok. Se preocupe com o carro. A direção está ruim. Os freios foram trocados três vezes. O capô salta em terrenos esburacados.

Essa citação ainda me dá calafrios.

The Sacred Book of Werewolf, de Victor Pelevin

– Mas qual a diferença entre um membro da intelligentsia e um intelectual?
– Tem uma diferença grande. – ele respondeu. – Só consigo explicar alegoricamente. Você entende o que isso significa?
Eu assenti.
– Quando você era ainda muito pequena, haviam cem mil pessoas vivendo nesta cidade que eram pagas para puxar o saco de um dragão vermelho horrível, do qual você provavelmente não se lembra…
Eu balancei a cabeça. Uma vez na minha juventude eu havia visto um dragão vermelho, mas tinha esquecido como se parecia – a única coisa de que lembrava era o medo. Era improvável que Pavel Ivanovich tivesse aquele incidente em mente.
– Claro, essas cem mil pessoas odiavam o dragão, e sonhavam em ser governadas pelo grande sapo verde que o enfrentava. Então, enfim, chegaram a um acordo com o sapo, envenenaram o dragão com um batom que receberam da CIA e começaram a viver uma nova vida.
– Mas o que a intelig
– Espere. – ele disse, levantando a mão. – Inicialmente eles pensaram que com o sapo estariam fazendo exatamente como antes, mas receberiam dez vezes mais dinheiro. Mas acontece que ao invés de cem mil puxa-sacos havia apenas a demanda para três profissionais trabalhando em turnos de oito horas para dar ao sapo um boquete majestoso sem fim. E quais dos cem mil esses três seriam, seria decidido em uma competição aberta, na qual os candidatos deveriam não apenas demonstrar suas habilidades, mas também a capacidade de sorrir otimisticamente com os cantos da boca enquanto estavam trabalhando…
– Acho que perdi o fio da meada.
– Esse é o fio da meada. Essas cem mil pessoas eram chamadas de a intelligentsia. E esses três são chamados intelectuais.

(O livro é cheio de problemas, mas essa citação é ótima).

R. I. P.

Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia, escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.

– Umberto Eco (1932-2016), Baudolino.

Wizard of the Crow, de Ngũgĩ wa Thiong’o (2)

Houve um tempo em que a escravidão era boa. Ela fez o seu trabalho, e quando terminou de criar capital, definhou e morreu uma morte natural. O colonialismo foi bom. Ele espalhou a cultura industrial e compartilhou recursos e mercados. Mas reviver o colonialismo hoje seria um erro. Houve um tempo em que a Guerra Fria ditava cada cálculo nas relações internas e internacionais. Isso acabou. Nós estamos na era pós-Guerra Fria, e nossos cálculos são guiados pelas leis e necessidades da globalização. A história do capital pode ser resumida em uma frase: em busca da liberdade. Liberdade para se expandir, e agora ele tem a chance de ter todo o planeta como o seu teatro. Ele necessita de espaço democrático para se mover pelas suas próprias demandas e lógicas. Então eu fui enviado para instá-lo a transformar o seu país em uma democracia.

Às vezes a literatura é capaz de sintetizar aquilo que a História leva livros e livros pra explicar. Que resumo do imperialismo.


Sob um céu de blues...

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