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The Sacred Book of Werewolf, de Victor Pelevin

– Mas qual a diferença entre um membro da intelligentsia e um intelectual?
– Tem uma diferença grande. – ele respondeu. – Só consigo explicar alegoricamente. Você entende o que isso significa?
Eu assenti.
– Quando você era ainda muito pequena, haviam cem mil pessoas vivendo nesta cidade que eram pagas para puxar o saco de um dragão vermelho horrível, do qual você provavelmente não se lembra…
Eu balancei a cabeça. Uma vez na minha juventude eu havia visto um dragão vermelho, mas tinha esquecido como se parecia – a única coisa de que lembrava era o medo. Era improvável que Pavel Ivanovich tivesse aquele incidente em mente.
– Claro, essas cem mil pessoas odiavam o dragão, e sonhavam em ser governadas pelo grande sapo verde que o enfrentava. Então, enfim, chegaram a um acordo com o sapo, envenenaram o dragão com um batom que receberam da CIA e começaram a viver uma nova vida.
– Mas o que a intelig
– Espere. – ele disse, levantando a mão. – Inicialmente eles pensaram que com o sapo estariam fazendo exatamente como antes, mas receberiam dez vezes mais dinheiro. Mas acontece que ao invés de cem mil puxa-sacos havia apenas a demanda para três profissionais trabalhando em turnos de oito horas para dar ao sapo um boquete majestoso sem fim. E quais dos cem mil esses três seriam, seria decidido em uma competição aberta, na qual os candidatos deveriam não apenas demonstrar suas habilidades, mas também a capacidade de sorrir otimisticamente com os cantos da boca enquanto estavam trabalhando…
– Acho que perdi o fio da meada.
– Esse é o fio da meada. Essas cem mil pessoas eram chamadas de a intelligentsia. E esses três são chamados intelectuais.

(O livro é cheio de problemas, mas essa citação é ótima).

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R. I. P.

Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia, escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.

– Umberto Eco (1932-2016), Baudolino.

Wizard of the Crow, de Ngũgĩ wa Thiong’o (2)

Houve um tempo em que a escravidão era boa. Ela fez o seu trabalho, e quando terminou de criar capital, definhou e morreu uma morte natural. O colonialismo foi bom. Ele espalhou a cultura industrial e compartilhou recursos e mercados. Mas reviver o colonialismo hoje seria um erro. Houve um tempo em que a Guerra Fria ditava cada cálculo nas relações internas e internacionais. Isso acabou. Nós estamos na era pós-Guerra Fria, e nossos cálculos são guiados pelas leis e necessidades da globalização. A história do capital pode ser resumida em uma frase: em busca da liberdade. Liberdade para se expandir, e agora ele tem a chance de ter todo o planeta como o seu teatro. Ele necessita de espaço democrático para se mover pelas suas próprias demandas e lógicas. Então eu fui enviado para instá-lo a transformar o seu país em uma democracia.

Às vezes a literatura é capaz de sintetizar aquilo que a História leva livros e livros pra explicar. Que resumo do imperialismo.

Wizard of the Crow, de Ngũgĩ wa Thiong’o

WizardOfTheCrowPalavras são o alimento, o corpo, o espelho e o som do pensamento. Você vê agora o perigo de palavras que querem sair mas não conseguem? Você quer vomitar e a massa fica presa na sua garganta – você pode até mesmo se engasgar e morrer.

Leitura do ano até o momento.

O Ramo Dourado, de Sir James Frazer

Queen_of_the_-OromosEntre os Gallas [povo habitante do leste africano], quando uma mulher se cansa de cuidar da casa, ela começa a falar incoerências e a se comportar de maneira extravagante. Este é o sinal da descida do espírito santo Callo sobre ela. Imediatamente o seu marido se prostra ante ela e começa a adorá-la; ela deixa de usar o título humilde de esposa e passa a ser chada “Lorde;” deveres domésticos não possuem mais poder sobre ela, e o seu desejo é a lei divina.

Do capítulo sobre deuses encarnados do clássico sobre religião comparada O Ramo Dourado, de Sir James Frazer.

Trecho

(…)

Para aqueles que enfrentarem estes desafios, no entanto, as recompensas são generosas. Qualquer coisa pode ser encontrada em Odisseia – desde que você esteja disposto a viver uma aventura. Não é incomum encontrar viajantes de mundos assolados por doenças aparentemente incuráveis, mas cuja cura pode ser encontrada em Odisseia após se atravessar a Floresta da Morte e explorar o Pântano da Escuridão. Monstros que deveriam ser imbatíveis podem ser vencidos com armas daqui, mas apenas se elas forem forjadas por elementais do magma que vivem no interior do Vulcão dos Dragões Vermelhos. Dizem que mesmo a arma definitiva contra a Tormenta pode ser encontrada em Odisseia – mas a aventura necessária para obtê-la é tão grandiosa, épica e perigosa que nenhum dos que se dispuseram a empreendê-la até hoje tiveram sucesso.

The Thrill Is Gone…

R. I. P.


Sob um céu de blues...

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