Archive for the 'Sóbrio' Category



Complexo de Outsider

plague-doctorOutsider. Em português, estrangeiro, ou, talvez mais adequado, forasteiro. Se me perdoam o estrangeirismo, vou ficar com o termo em inglês dessa vez. Gosto dele; acho que ele confere um significado mais objetivo: aquele que está do lado (side[r]) de fora (out). Como geralmente acontece, o sentido do termo não precisa ser literal ou físico. Pode ser um “lado de fora” psicológico, ideológico ou mesmo social. Ser um outsider pode ser uma mácula, um motivo para ser tratado com frieza e desprezo pelos outros; mas também pode ser uma bênção: poder ver as coisas criticamente, sem a visão distorcida do envolvimento direto. Não é à toa que a antropologia fala muito do olhar antropológico, de olhar as coisas como quem os vê de fora; significa ter esse olhar crítico do outsider, não necessariamente para exercer um julgamento, mas com uma vontade sincera de compreensão.

Lembro de quando, anos atrás, eu li o primeiro volume de As Máscaras de Deus, tetralogia do Joseph Campbell em que ele analisa e compara os temas de mitologias do mundo todo, fazendo um complemento mais aprofundado e detalhado do que no seu clássico-mor (e infame, segundo alguns) O Heroi de Mil Faces. No caso, este falava sobre as “mitologias primitivas,” aquelas de povos selvagens e arcaicos, desde os neandertais paleolíticos com as suas pinturas rupestres até os aborígenes australianos mais contemporâneos. Um dos muitos temas que ele aborda no livro é o dos xamãs, que, em muitas destas sociedades, possuem uma função mista entre a de um sacerdote e a de um médico, que cura males físicos através de viagens e rituais no mundo espiritual.

Aí talvez entre um pouco a minha ingenuidade de garoto, e a fonte de onde vinha anteriormente o meu conhecimento sobre o tema, qual seja, livros de cenários de fantasia para RPG. O xamã na maioria deles era um membro importante da tribo de que fazia parte, respeitado e admirado, a quem todos recorriam atrás de sabedoria e conselhos. O xamã que fiquei conhecendo pelo livro, através de diversos relatos antropológicos citados por Campbell, era bem diferente: um ser estranho, respeitado mais por medo do que por admiração, a quem a tribo recorria quando necessário mas preferia manter distância na maior parte do tempo. O mundo a que ele pertencia não era o dos demais; ele não caçava com a tribo, não ensinava os garotos, não celebrava com eles. Vivia, ao contrário, muito mais no mundo dos espíritos do que no dos vivos, que conhecia como ninguém e que visitava na hora de curar uma enfermidade, mas que despertava um terror profundo em todos os demais. Era, para resumir, um outsider.

Lembrei bastante disso quando estava lendo The Way of Kings, do Brandon Sanderson. Entre as diversas histórias que o autor conta para enrolar o leitor e fingir que está tendo algum avanço no enredo, está a da juventude de um dos protagonistas, quando seu pai era um médico e cirurgião de uma cidade pequena, trabalhando de graça e vivendo basicamente de doações dos demais habitantes como agradecimento pelos seus serviços. A relação que possuía com eles, no entanto, é bem semelhante a dos xamãs descritos por Campbell, um misto de respeito e medo. Todos os aldeões recorriam a Lirin (o médico em questão) quando precisavam, para tratar de uma doença ou cuidar de um filho acidentado; mas eram frios e distante na relação com ele no resto do tempo. Ele não trabalhava com eles, afinal; não suava arando a terra nem carregava o peso das colheitas. Como tratá-lo como um igual?

Sanderson deve entender alguma coisa do assunto, acredito, visto que outro dos seus livros tem como dedicatória um pedido de desculpas para sua mãe, que queria vê-lo médico, de onde podemos supor que ele tenha ao menos começado os estudos para a profissão. Eu pessoalmente não sou especialista, mas, pelo meu conhecimento da História de maneira geral, consigo imaginar que a da Medicina tenha passado por situações como esta. Penso nos próprios pioneiros das ciências medievais e renascentistas, como o belga Andreas Vesalius, que visitava cemitérios para dissecar cadáveres e estudar anatomia, uma prática que não deveria torná-lo muito popular. E basta olhar também para as máscaras aviárias que médicos usavam para se proteger da Peste Negra, que os davam aquele ar um tanto monstruoso e assustador.

Hoje em dia os médicos são em geral bem mais respeitados. É uma carreira nobre, que paga bem para os melhores profissionais, e é por isso desejada por muitos e possui os vestibulares mais disputados. Nas grandes cidades, ao menos, é difícil vê-los como outsiders. Aquele conhecimento místico que tornava os xamãs assustadores hoje se tornou mundano, mesmo que não seja de livre acesso (apesar de que você sempre pode recorrer ao Google). Mas é difícil imaginar que não haja um resquício desse complexo de outsider na atitude de médicos recentes, não só nas críticas programas como o Mais Médicos como em toda essa agressividade com que os médigos estrangeiros que vêm trabalhar aqui estão sendo recebidos.

É claro que há razões muito mais profundas por trás, razões políticas e ideológicas que ficam bem explícitas em qualquer análise de discurso das notícias a respeito. Mas não há como não ver um certo sentimento de superioridade, de estar fora e acima dos padrões dos “comuns,” quando se vê declarações de médicos sugerindo sobrecarregar os laboratórios públicos com exames, não socorrer eventuais vítimas de erros de médicos estrangeiros, e outras atitudes que parecem vir de garotos birrentos de sete anos de idade; como se o resto da sociedade, esses que vão levar o golpe destas atitudes, não importassem. Afinal, eles são eles, e não nós.

Enfim, sei lá. Talvez quem esteja sendo o outsider aqui seja eu mesmo. Mas eu sempre fui um, de qualquer forma.

Velhos novos Ronaldinhos

BrunoLi esses dias uma reportagem sobre outro Bruno, esse ex-jogador do Grêmio, que era apontado na época em que se profissionalizou como um “novo Ronaldinho.” Guardada todas as bobagens que uma comparação dessas pode indicar, na época parecia mesmo algo plausível. Bruno não era só um destaque na base do Grêmio, mas tinha sido o principal jogador de todas as seleções de base que tinha participado. Até que, aos quinze anos, antes de assinar o primeiro contrato profissional com o clube, recebeu uma proposta milionária para trocar o Brasil pela Inglaterra.

O caso me marcou porque foi um que eu acompanhei de perto, sendo gremista e xará, em todas as suas fases. Lembro do bafafá da imprensa, a dúvida se ele ficaria no clube, a estréia promissora… E a decepção posterior. Achei curioso descobrir que ele não tenha sequer deixado o futebol depois disso, e seguido ainda por mais de uma década ganhando a vida em times menores.

Acho que é meio que um caso emblemático daquilo que o Nick Hornby chama de o “mundo paralelo” do futebol. Sendo obrigados a atravessar esse portal narniano desde cedo, acabam entrando para um mundo estranho, com regras diferentes, mas sem um leão-Deus bondoso confiável para guiar o seu caminho. Falo do que vejo em primeira mão mesmo: sou professor de uma escola de periferia, e agora mesmo tenho casos de alunos que pediram licença das aulas para fazer testes em clubes do interior do estado. Outras tantas histórias correm de ex-alunos que de fato passaram a integrar as categorias de base desses clubes, seus irmãos que tem o mesmo objetivo de vida, e mesmo um ou outro parente de um jogador mais famoso.

Filho da da classe média que sou, é um universo que me parecia muito distante, até eu me ver confrontado diretamente com ele. É difícil imaginar que muitos deles sejam melhor preparados psicologicamente do que o Bruno foi. São garotos de quinze, quatorze, treze anos. São raros os Neymares, que tem uma operação quase militar de blindagem organizada pelo próprio pai com o objetivo de protegê-lo desse fim.

E a realidade é que os problemas que isso causam até extrapolam a questão social, e atingem o futebol propriamente dito. Pensem naquele chavão todo que fala da “entressafra” do futebol brasileiro (ainda que eu pessoalmente tenha ojeriza por usar esse termo ao se referir a seres humanos, como se eles fossem meros produtos / coisas), com o fato de, Neymar à parte, os jogadores atuais não serem tão bons quanto foram em décadas anteriores. Então pensem que Bruno tem ainda 29 anos. Não teria nem direito a passe livre antes da Lei Pelé. Tivesse vingado a sua promessa, poderia muito bem estar ainda no auge da carreira – e que diferença não faria ter um “novo Ronaldinho” no auge para a própria seleção brasileira?

E quantos novos Ronaldinhos, Kakás, Robinhos e etc. não devem ter sido perdidos de forma semelhante?

Para não dizer que eu não falei do Mandela

Nelson MandelaTodo esse morre-não-morre do Nelson Mandela me lembrou uma reflexão que eu fiz tempos atrás sobre a morte de outro grande contemporâneo, o escritor José Saramago. Na época ela acabou ficando no meio de um longo pensamento sobre a última Copa de Mundo, a de 2010, justamente, olha só, na África do Sul. Acho que posso citar ela toda aqui, já que é uma reflexão que vale bastante para o caso do Madiba também.

E então chegamos ao outro assunto do fim de semana, a morte de José Saramago, primeiro (e acredito que até o momento único) escritor de língua portuguesa a ser premiado com o Nobel de literatura. Confesso que nunca li realmente qualquer obra dele, embora haja algumas em particular que me interesse em conhecer – em especial, História do Cerco de Lisboa. Mas já li entrevistas e alguns ensaios curtos perdidos pela internet, e não posso dizer que não admirava algumas das suas ideias.

Saramago tinha 87 anos, e, portanto, já não era exatamente um jovem. Sua carreira como escritor já estava consagrada, inclusive com adaptações cinematográficas de algum sucesso, então podemos dizer que ele certamente já havia dado a sua contribuição para a vida cultural e intelectual do mundo. Há sempre aquela expectativa de que ele pudesse dar mais, é claro, sobretudo se lembrarmos que não muito tempo atrás ele estava lançando Caim, seu último romance. Mas pessoas também morrem todo dia, principalmente pessoas velhas – e, mesmo assim, não faltaram as viúvas inconformadas, se perguntando nos twitters da vida por que se vão os escritores bons quando a Stephanine Meyer continua por aí (acredito, mas posso estar errado, é claro, que a juventude dela possivelmente lhe dê uma saúde um pouco mais estável).

Acho que, no fundo, todos temos alguma esperança inconsciente de que o mérito possa vencer a morte. A mortalidade do homem sempre foi um mistério estranho – é um grande problema filosófico (como viver sabendo que irei morrer?), além de uma situação esquisita (como acordar um dia e de repente não encontrar mais alguém que sempre esteve com você?), e acho que todas as religiões sempre tentaram oferecer uma resposta, transformando-a na passagem para um plano superior ou uma nova vida em outra encarnação ou qualquer outra coisa que permita alguma possibilidade de fuga. Alguém já disse por aí que o que nos difere de um animal comum é justamente  essa consciência da morte, muito embora eu realmente não saiba como os cachorros e os gatos foram questionados sobre o assunto. Arrisco até a dizer que algumas das dificuldades da ciência em enfrentar as crenças religiosas têm a ver com isso – a ciência pode te explicar como o seu corpo funciona, mas não tem ainda uma boa resposta para por que (ou pra que) ele funciona, e nem por que ele deve morrer um dia.

Talvez por isso a morte de alguém como o Saramago cause este tipo de comoção, mesmo quando já estava em uma idade em que ela deixa de ser uma surpresa. Não nos apoiando mais na religião para entendê-la, afinal, o que nos resta? É mais fácil imaginar que as pessoas que nos interessam e que admiramos estarão sempre por aí, e não pensar sobre o que vai ser quando se forem. E, numa sociedade que tenta ser individualista e meritocrática, pode ser reconfortante acreditar que alguma entidade transcedental de justiça cósmica concederia a vida eterna a alguém que fizesse por merecer. Claro, há quem diga que as grandes obras sobrevivem ao seu autor, conferindo a ele algum grau de imortalidade, mas então eu rebato com aquela genial citação a Woody Allen: Eu não quero alcançar a imortalidade pela minha obra. Eu quero tornar-me imortal não morrendo.

Por acaso, estou lendo atualmente um livro chamado Singularity Sky, do escritor inglês Charles Stross. É uma ficção científica bastante interessante, que tenta especular sobre a sociedade e a tecnologia do futuro a partir de teses e idéias científicas mais contemporâneas, com direito a espaçonaves quânticas e uma extrapolação genial das ciências da informação. E uma das tecnologias maravilhosas do futuro criado pelo autor trata justamente de técnicas de rejuvenescimento, capazes de tornar um ser humano efetivamente imortal. No entanto, por todas os problemas sociais e ambientais que uma civilização de imortais traria, uma das poucas regras com que todas as nações da Terra concordam sem restrições é justamente a de limitar o acesso a tais tecnologias; assim, apenas se qualificam candidatos que tenham feito grandes contribuições para a humanidade, ou que por acaso tenham funções importantes a cumprir nos governos e organizações que têm acesso a elas. Não deixa de ser uma especulação interessante, a ideia do mérito capaz de vencer a morte.

Em todo caso, é também uma reflexão curiosa que se pode fazer.

Um Réquiem para a Representação Política

bandeira-vermelhaA bandeira do meu partido
Vem entrelaçada em outra bandeira,
A mais bela, a primeira,
Verde-e-amarela, a bandeira brasileira.

Você pode discordar completamente da ideologia de um partido como o PC do B, ainda mais levando em consideração a sua história e representantes mais recentes, mas não dá pra negar que esses versos do seu hino são lindos. Colocar a bandeira do seu partido junto à bandeira nacional – uma forma de demonstrar que, independente das idéias que você defenda, acima de tudo o que você quer é o bem do país, e apenas acontece de você acreditar que tais ideias são o melhor para ele.

Acho que hoje, no entanto, alguém (ou alguma revista semanal) poderia ver estes versos de outra forma. Afinal, você está levantando a bandeira do seu partido tão alto quanto a bandeira nacional; é um exemplo claro da submissão da nação à ideologia! Saia já daqui, seu mensaleiro oportunista!

O ponto é que, ao ver as notícias das manifestações ao redor do país, tem me chamado um bocado a atenção a forma como eles repudiam agressivamente qualquer tentativa de associação com partidos políticos. A função dos partidos, afinal, deveria ser justamente esta – assumir as demandas da população e levá-las para o debate político. É assim que funciona (ou deveria funcionar) o sistema de representação que é a base da democracia moderna.

No entanto, também não dá pra simplesmente discordar da atitude dos manifestantes. A verdade é que eles têm razão. O sistema partidário brasileiro está tão deslegitimado que se associar com ele de qualquer forma diminuiria o movimento, e o faria ser visto como massa de manobra, joguete político ou apenas partidarismo descarado mesmo; seria um descrédito para as próprias demandas que eles estão fazendo. E quem se enfiou nesse buraco foram os próprios partidos, que em apenas trinta anos conseguiram acabar com todo o crédito adquirido nas lutas pela abertura política.

Todos os partidos têm um pouco de culpa no cartório. Isso tem a ver com o nosso sistema eleitoral proporcional surrealista, em que o seu voto em um candidato pode ajudar a eleger outro completamente diferente, que talvez sequer pertença ao mesmo partido (pois ele pode estar em uma coligação). Tem a ver com a forma como partidos como o PC do B, PSol e o PSTU se apropriam da política sindical e estudantil, usando-a como plataforma para lançar seus candidatos, e minando a própria credibilidade destes movimentos. Tem a ver com a forma como o próprio PT fez a mesma coisa no passado para crescer e adquirir relevância política – e, tão logo se lançou a voos mais altos, esqueceu completamente da sua base histórica, e o reflexo disso já pôde ser sentido nas últimas eleições municipais, como em Porto Alegre, por mais de uma década reduto eleitoral PTista, que no último ano elegeu uma mísera vereadora para o partido. E tem muito a ver também com a forma como praticamente todos os demais partidos, seja o PSDB, o PMDB, o PP, o DEM/PFL/PSD/qual seja a sua sigla atual, se apropriam da política nacional, tratando-a como um bem particular.

Chegamos a um ponto em que um partido nada mais é do que uma sigla, um conjunto aleatório de letras sem nenhum significado ou valor além de reunir qualquer número de pessoas com um mínimo de interesses comuns. Vejam só: o Partido dos Trabalhadores é formado por empresários; o do Movimento Democrático Brasileiro é autoritário; o da Social-Democracia Brasileira é neoliberal (e se você não entende como isso pode ser uma contradição, vá estudar história e ciência política, diacho); o Progressista é um dos mais reacionários; o Democratas possui as mesmas características, incluindo ideologias e até o viés religioso, dos republicanos norte-americanos; e eu poderia ir adiante.

Resumindo, o sistema partidário brasileiro está moralmente falido, e com ele o próprio sistema de representação política. O futuro talvez seja o que estamos vendo agora: a política da ruas, em que, ao invés de delegar um representante, é o próprio povo que declara diretamente suas demandas. Seria lindo, embora me pareça pouco prático (imagino se toda votação de orçamento tivesse que ser decidida com passeatas de apoio ou repúdio…). Ou talvez sigamos um modelo de democracia direta, nos moldes do chavismo venezuelano, em que tudo é decidido por plebiscitos. O tiro pode até sair pela culatra, e daqui a pouco nós vermos uma resposta dos “donos do poder” faorianos com um retorno a um autoritarismo ainda mais incisivo.

Mas isso já é futurologia. Não sou bom com conjecturas, queria apenas fazer algumas reflexões. E a constatação a que cheguei é essa: a representação política morreu.

Vida longa à próxima política (seja ela qual for).

Nádegas a Declarar

policia-sao-paulo-reprime-manifestacaoNão tenho nada a dizer sobre as manifestações em São Paulo que já tenha sido dito por aí com muito mais propriedade. Me sinto até um pouco intimidado, vendo textos tão lúcidos e incisivos, quando eu mal e mal consigo tecer meia dúzia de linhas a respeito. Recomendo muito o texto do site Impedimento – um site sobre futebol, vejam só -, que cita uma música do Raul Seixas e faz uma reflexão brilhante sobre o papel da mídia e os espólios sociais do ocorrido; e o do jornalista e escritor Carlos Orsi, que se concentra mais especificamente no histórico repressivo da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Eles dizem tudo que eu não tenho capacidade pra dizer. Só não me venham levar a sério qualquer coisa que saia na revista Veja, por favor.

Mas esse é um blog pessoal, então me perdoem se eu me concentro nos meus próprios sentimentos pessoais um pouco aqui também. Ninguém é obrigado a dar a mínima. Não é nada que vá mudar a opinião de ninguém sobre o ocorrido, já que não é um relato político. O que me chocou mesmo nisso tudo foi ver pessoas com quem eu convivi boa parte da minha adolescência, com quem eu posso dizer até que cresci um pouco junto, defendendo com todas as letras que manifestante tem mais é que apanhar mesmo. Eu não era exatamente um cara muito popular na escola, e na verdade me repreendo bastante por ter assumido a persona do anti-social amargurado e deixado de aproveitar muita coisa do meu segundo grau. Sei que muita gente prefere fingir que essa época da sua vida não aconteceu, esquecer todo o bullying e repressão típicos dessa fase da vida, mas o meu sentimento é um pouco diferente; tem mais a ver com um tipo de lamento saudoso, uma nostalgia do que eu nunca tive. Um arrependimento, pra resumir.

Ao ver esse tipo de comentário, então, acabo olhando em retrospecto, e de repente o abismo que me separa daquela época fica muito maior. Não dava pra esperar que fosse diferente, visto todas as diferenças que existiam já naquela época, e só se intensificaram. Aquela coisa de estudar em um colégio particular morando em um bairro pobre, ou de ter estudado História em uma universidade federal e não Economia em uma norte-americana de renome internacional. E não que eu queira desprezar estas diferenças também, é claro, pois a oportunidade de sair do meu cubículo acadêmico é algo que eu gostaria de ter também, e ainda pretendo aproveitar algum dia.

Mas sei lá. Eu lembro dessas horas do meu texto Náufrago, que eu republiquei dias atrás. E é por não querer republicar de novo que eu prefiro só deixar o link para quem quiser ler mesmo.

A Vingança como Valor

Falemos então do assunto mais comentado do país. Julgamento do mensalão? Derrota da seleção na final olímpica? Nah – Nina e Carminha, obviamente. Não, não sou noveleiro, mas também não sou esses hipsters que acham a teledramaturgia nacional a maior conspiração mundial para alienar a população desde Cidadão Kane. Na verdade, por ter tido algumas colegas de faculdade que se debruçaram a sério sobre o tema em projetos de pesquisa, até peguei alguns respingos de conhecimentos bem interessantes sobre o assunto; e recentemente, após passar uma semana na casa dos pais da minha namorada, ainda acabei assistindo alguns capítulos de duas novelas recentes que ela acompanha. Uma me surpreendeu bem positivamente – a novela das sete, Cheias de Charme, que é toda construída com um tom de farsa teatral bem divertido, com personagens propositalmente exagerados e até algum comentário social relevante, ao ter como fio condutor da trama o empoderamento de uma classe de trabalhadoras que até não muito tempo atrás estavam em condições de quase subemprego -, e a outra tenho que dizer me decepcionou bastante – justamente a dita cuja que todo mundo parece estar comentando.

À parte por ser tecnicamente muito bem produzida, com uma fotografia que não deve nada a superproduções internacionais, ela ainda se prende muito aos paradigmas da teledramaturgia mais kitsch que o país já produziu. Acho que esse foi um dos meus primeiros comentários a respeito dela no twitter, até: uma fotografia tão bonita, pra câmera continuar fazendo um close na atriz principal tentando forçar o choro… Até aí não é nada de realmente decepcionante, é claro, e é até bastante esperado. Acho que o que mais me incomodou mesmo no pouco que vi dela foi a forma como a referência a um dos meus filmes favoritos, a série Kill Bill de Quentin Tarantino, foi aproveitada. Há o mote principal da trama, que também envolve uma vingança pessoal da protagonista contra alguém que lhe causou um mal indescritível no passado; e mesmo a inspiração mais direta em algumas cenas, em especial a famosa sequência da protagonistas sendo enterrada viva. Um infográfico recente no Uol inclusive apontou todas as semelhanças principais entre as duas histórias.

O ponto em que quero chegar não é o de nenhuma acusação de plágio, até porque é bastante claro que se trata de uma inspiração assumida. Mas acho que tudo isso serve bem para ilustrar a forma como uma obra com bem mais significados acaba sendo pasteurizada para se adequar a um formato como esse, absorvendo no processo toda uma gama de valores sem nada a ver com os que ela originalmente possuía.

Começando pelas duas protagonistas, vejo algumas diferenças bem fortes entre a Noiva e Nina. Ambas são justiceiras atrás de reparação por coisas que lhes foram feitas no passado, e pode-se dizer mesmo que não estão totalmente erradas, pela crueldade daquilo que sofreram. A primeira, no entanto, é bem mais objetiva: nos dois filmes que compõem a história, segue sem rodeios a sua vendeta contra os antigos membros do grupo de assassinos do qual fazia parte, em uma evolução quase como a de um videogame, até chegar no “chefão final.” Nina, por outro lado, presa que está aos rodeios e reviravoltas do formato de folhetim, não pode ser tão direta, e, mesmo tendo a chance de acabar de vez com a sua inimiga, prefere primeiro torturá-la para encher os capítulos, transformando a sua vingança de uma busca minimamente justificada por justiça em uma demonstração de sociopatia pura e simples. Ela chega mesmo a se afastar de outras pessoas importantes para ela, em especial o seu par romântico da vez, outra diferença entre ela e a Noiva, que já não tinha nada a perder quando assume a vingança como missão.

A comparação que mais me incomodou, no entanto, foi entre os dois vilões. Aparecendo realmente em apenas um filme, Bill consegue demonstrar muito mais personalidade que a sua contraparte nacional. Você chega mesmo a simpatizar de alguma forma com ele, pois, por mais cruel que seja ao lidar com a assassina fugitiva, ele ainda demonstra sentimentos realmente humanos, como o ciúmes e até um pouco de compaixão. Expressão do materialismo tosco global, o único sentimento que Carminha demonstrou nos poucos capítulos que vi foi o amor ao dinheiro e ao conforto que havia conquistado; é por eles que tenta se livrar da sua inimiga, e não por ter desenvolvido qualquer empatia pela família que a havia acolhido. Assim, se encaixa na extensa tradição de vilãs unidimensionais cuja única função parece ser gritar histericamente, soltar gargalhadas malignas eventuais, e praticar maldades sem justificativa para chocar o público. Bem mais interessante como personagem acaba sendo o outro vilão, o seu comparsa Max, que pelo menos demonstra alguma humanidade e conflito interno.

Na soma dos dois pontos, Kill Bill, em apenas dois filmes e ainda tendo que dividir o desenvolvimento do roteiro com longas lutas de artes marciais, ainda consegue ser visivelmente mais profundo que Avenida Brasil. É interessante notar como ele não redime a vingança da protagonista, mas a coloca no meio de um processo mais longo, em que uma vingança gera outra vingança que gera outra vingança – antes de sair na sua vendeta, a própria Noiva já havia sido o alvo da vingança de Bill, por fugir dele estando grávida do seu filho; e ainda no primeiro filme ela se desculpa da filha de um de seus alvos dizendo que, se ela quiser se vingar no futuro, estará esperando, o que segundo alguns boatos pode virar o mote de um terceiro filme da franquia. Por simplória que seja, essa espiral interminável chega a remeter mesmo a uma prática comum em regiões rurais isoladas dos centros urbanos, onde uma ofensa causada contra um membro de uma família leva os seus irmãos/primos/etc. a buscar reparação, que por sua vez causará uma nova reparação contra eles e assim sucessivamente. A novela, até onde pude constatar, ainda não demonstrou um traço da mesma reflexão sobre si mesma, e corre o risco ainda de transformar uma sociopata em heroína nacional (mesmo que ainda haja sim bastante tempo para isso ser evitado, acredito, dada a natureza fluida dos enredos de telenovelas, sempre sujeitos a passarem por modificações e revisões de acordo com a resposta do público).

A Fantasia Além dos Livros

Então, esse ano eu tive uma oportunidade muito legal, ao ser chamado pelo Christopher Kastensmidt, da Bandeira do Elefante e da Arara, pra substituir de última hora o escritor Max Mallman em um dos painéis da Odisséia de Literatura Fantástica que aconteceu aqui em Porto Alegre no fim de abril. O tema era a fantasia em outras mídias além da literatura, e eu estava acompanhado do escritor Gerson Lodi-Ribeiro, do desenhista e roteirista de quadrinhos Estevão Ribeiro, e do roteirista e diretor de cinema Pedro Zimmerman. Meu papel seria falar principalmente sobre RPG, embora eu tenha preparado um material um pouco maior, falando também sobre duas outras mídias alternativas dos temas fantásticos. Fiz algumas pesquisas e reflexões bacanas, no entanto, e acho que seria interessante resgatar esse material em um textinho simples por aqui.

Pois bem. Como eu falei, apesar de ter preparado coisas para falar sobre outros assuntos, na minha fala eu acabei me reduzindo principalmente à fantasia no RPG. A maioria das pessoas deve saber bem que ele está ligado à literatura fantástica praticamente desde o seu surgimento; os criadores de Dungeons & Dragons, o primeiro e mais conhecido jogo de RPG, eram fãs confessos, e construíram a ambientação dos primeiros jogos com base nos autores que liam. A influência mais conhecida é Tolkien e O Senhor dos Anéis, mas quem conhece pode perceber uma presença bastante forte de elementos vindo de Michael Moorcock, autor das histórias do Elric de Melniboné, e também do Fritz Leiber, das histórias de Lankhmar, entre outros. Lankhmar inclusive chegou a ser adaptado como um cenário oficial do AD&D, muito antes da terceira e quarta edições do jogo que são mais jogadas atualmente.

Isso expõe, acredito, a característica principal do RPG com respeito a outras mídias do gênero fantástico: ele é, principalmente, um apropriador de elementos, mais do que um criador. Quer dizer, pensem na própria forma como ele é jogado: um jogo de grupo, focado na interação entre os participantes. Assim, mais importante do que ser original, é oferecer elementos que os jogadores reconheçam e com o qual tenham vontade de interagir no ambiente de jogo – se os jogadores gostam de piratas, use-se um cenário de piratas; se gostam de elfos, um cenário de elfos; e daí por diante. Isso se expande mesmo para a geração de jogos de terror sobrenatural que esteve muito em voga no fim do século passado, que se apropria de muitos elementos da literatura gótica. Independente de algumas bobagens que se houve por aí, jogar RPG é menos uma atividade individual e reflexiva do que uma atividade social.

Claro, isso não quer dizer também que um RPG não possa ter um papel criador e estar na vanguarda, apenas que é algo pouco comum, e não costuma ser exatamente uma característica dos jogos de maior sucesso. Acho que o melhor exemplo de um RPG na vanguarda das mídias de fantasia é o dieselpunk, termo que foi usado pela primeira vez em um jogo independente pouco conhecido chamado Children of the Sun, de 2002, e que recentemente foi tema de uma coletânea de contos da Editora Draco.

O segundo tema que eu havia preparado para falar no painel, mas acabei cortando da apresentação final, foram os videogames. Acredito que a fantasia nos jogos eletrônicos, pelo menos a dos primeiros anos, esteja ligada principalmente ao público-alvo dos primeiros consoles, que eram, em geral, crianças e pré-adolescentes, que são atraídas pelas cores fortes e brilhantes de jogos como Super Mario Bros. ou Sonic the Hedgehog. Some-se ainda as próprias limitações técnicas, que tornavam um tanto difícil apresentar gráficos mais realistas e sombrios com as limitações de tons de cores e limite de pixels dos modelos. Assim, muitas das suas séries clássicas acabaram tendo um elemento fantástico como característica marcante; foi um longo caminho até que a evolução técnica e do público-alvo permitiu o surgimento de franquias realmente realistas, como Call of Duty e Battlefield. Mesmo a fantasia atualmente adquiriu um tom mais sombrio e anatomicamente cuidadoso, visto em jogos como The Elder Scrolls e Dark Souls, mas ela ainda está bastante presente em jogos da nova geração.

Existem duas séries em especial que também merecem algum destaque devido à sua importância cultural e os intercâmbios realizados com outras mídias. A primeira são os RPGs eletrônicos da franquia Dragon Quest, cujo primeiro jogo foi lançado em 1986. Com um ambiente de fantasia medieval clássica, com forte inspiração do D&D, que havia sido publicado em japonês no ano anterior, a série logo se tornou extremamente popular no Japão, tendo sido por muito tempo a sua franquia de games mais popular. Uma lenda urbana conhecida diz mesmo que uma lei chegou a ser baixada proibindo a sua venda em dias úteis para evitar que os seus fãs faltassem ao emprego ou às aulas para comprar os lançamentos.

Sendo um fenômeno cultural tão grande, Dragon Quest de fato definiu muito do que os japoneses entendem por fantasia, e a influenciou em diversas outras mídias. A principal delas, é claro, são os animes e mangás: muitas séries de fantasia, acredito que a mais conhecida atualmente seja Fairy Tail, além da óbvia inspiração na ambientação, apresentam uma caracterização e técnicas especiais dos personagens que parecem ser feitas sob medida para a progressão matemática que é esperada de um jogo eletrônico. O próprio Dragon Quest chegou a ser adaptado para um mangá e série de animação, exibido no Brasil com o nome de Fly – O Pequeno Guerreiro.

O outro exemplo da influência dos videogames em outras mídias é na cultura zumbi que tem estado em evidência em anos recentes. Ainda que os zumbis certamente não sejam criações dos games, podendo ser resgatados desde os filmes de George Romero, a própria religião vudu e criaturas e monstros de jogos de RPG, existe um paralelismo muito suspeito entre a evolução dessa cultura e os jogos da série Resident Evil. Os dois primeiros lançamentos da franquia foram publicados em 1996 e 1998, e, calculando-se, pode-se facilmente concluir que quem os jogou como adolescentes naquela época hoje se encontram na faixa dos vinte e tantos até os trinta e poucos anos, justamente a que mais se identifica e envolve com histórias de zumbis. Claro que não se pode reduzir toda a popularidade dos zumbis apenas a isso – eu pessoalmente tenho a minha própria interpretação sociológica de bar sobre o tema -, mas é uma coincidência muito evidente para ser simplesmente ignorada.

Por fim, eu havia preparado também algumas linhas sobre a presença de fantasia na música, outra mídia que geralmente é ignorada nos meios interessados por literatura fantástica, mas que apresenta uma relação bastante forte com ela. Para além da óbvia relação com a poesia, ela possui alguns intercâmbios bastante fortes com a literatura como um todo. Pode-se resgatar isso inicialmente, acredito, desde a tradição de óperas dos séculos XVIII e XIX, como A Flauta Mágica ou O Anel de Nibelungos, mas pode-se notar a sua presença com bastante força mesmo em músicas populares mais atuais.

Tolkien, por exemplo, era um autor muito popular em comunidades hippies das décadas de 1960 e 1970, que viam principalmente nos elfos e a sua cultura ligada à natureza como um ideal a ser seguido, ainda que o próprio autor em geral os desprezasse enquanto público. Por isso, não é exatamente difícil de se encontrar referências às suas obras em músicas de bandas da época, sendo o caso mais conhecido, provavelmente, o do Led Zeppelin, que o fazem em músicas como The Battle of Evermore, Over the Hills and far Away e um punhado de outras. Outras bandas que fizeram referências a Tolkien incluem o Black Sabbath e o Rush, e reza a lenda que mesmo os Beatles chegaram a cogitar fazer uma adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis, tendo o Paul Mccartney interpretando o Frodo e o John Lennon como o Gollum.

Mais recentemente, a literatura fantástica é muito presente em músicas de algumas bandas de estilos mais pesados, como o heavy metal e suas vertentes (em especial o power metal), pelo menos desde a década de 1980. O exemplo mais conhecido é certamente o Blind Guardian, que possui discos inteiros em homenagem a Tolkien e seus personagens, além de Stephen King e outros autores do gênero, e recentemente também produziu algumas músicas inspiradas pela série A Song of Ice and Fire, do George R. R. Martin. Outro autor muito referenciado em bandas pesadas é H. P. Lovecraft e os seus Mitos de Cthulhu; só para ficar na mais conhecida, o Metallica possui uma música chamada The Call of Ktulu.

Três projetos relacionando literatura fantástica e música pesada também são interessantes de destacar. O primeiro é o Avantasia, projeto idealizado por Tobias Sammet, vocalista da banda Edguy, que reúne diversos músicos consagrados do gênero para formar uma espécie de “opera metal“, cujo enredo possui diversos elementos oriundos da literatura fantástica. A principal referência no caso é o ciclo arturiano, presente no próprio nome – “Avantasia” é uma mistura de Ávalon com fantasia. Outro projeto semelhante é o Ayreon, do músico holandês Arjen Anthony Lucassen, que também tentar uma montar uma espécie de opera pesada com temas fantásticos, reunindo artistas renomados do heavy metal e gêneros semelhantes. E Lucassen também é responsável pelo Star One, que tem a mesma premissa, mas desta vez com um enredo inspirado pela ficção científica.

E um último estilo musical com elementos fantásticos que eu gosto de destacar, desta vez já puxando mais para o meu gosto pessoal, é o blues tradicional norte-americano. Para quem não sabe, ele possui a sua origem na música folclórica do sul dos Estados Unidos, e por isso possui muitas canções que se estruturam quase como contos, com direito a personagens, enredos e reviravoltas. Algumas destas músicas incluem fortes elementos do sobrenatural, relacionada principalmente à religião vudu – como as gipsy women, por exemplo, ou bruxas/ciganas; e também o mojo, uma espécie de força sobrenatural. Temos ainda a famosa lenda imortalizada na canção de Robert Johnson, sobre esperar à meia-noite em uma encruzilhada para que o diabo apareça e afine o seu violão, e assim você pode aprender a tocar como os mestres do estilo.

Claro, podemos encarar estas referencias inicialmente como religiosas, e não propriamente fantásticas, uma vez que são baseadas em uma crença verdadeira e que ainda é praticada em alguns lugares. No entanto, é interessante notar como o próprio blues, na medida em que passou a ser ouvido e praticado em outros ambientes fora do seu original, não perdeu a referência a estes elementos, mesmo quando tocados por músicas para quem eles nada significam. Pode-se dizer que ele passou a ser encarado com um viés realmente fantástico, algo como vamos brincar de ser um músico errante do delta do Mississipi.

E este foi o material que eu havia preparado para o painel, apesar de a minha fala realmente acabar reduzida apenas à primeira parte, sobre o RPG. É claro que nada disso é propriamente um estudo muito aprofundado, mas acredito que sejam algumas notas e apontamentos gerais bastante válidos. Um dia, quem sabe, eu me debruço mais longamente sobre um ou outro destes temas.


Sob um céu de blues...

Categorias

@bschlatter

Estatísticas

  • 178,534 visitas

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 26 outros seguidores