Archive for the 'Sóbrio' Category



Um Réquiem para a Representação Política

bandeira-vermelhaA bandeira do meu partido
Vem entrelaçada em outra bandeira,
A mais bela, a primeira,
Verde-e-amarela, a bandeira brasileira.

Você pode discordar completamente da ideologia de um partido como o PC do B, ainda mais levando em consideração a sua história e representantes mais recentes, mas não dá pra negar que esses versos do seu hino são lindos. Colocar a bandeira do seu partido junto à bandeira nacional – uma forma de demonstrar que, independente das idéias que você defenda, acima de tudo o que você quer é o bem do país, e apenas acontece de você acreditar que tais ideias são o melhor para ele.

Acho que hoje, no entanto, alguém (ou alguma revista semanal) poderia ver estes versos de outra forma. Afinal, você está levantando a bandeira do seu partido tão alto quanto a bandeira nacional; é um exemplo claro da submissão da nação à ideologia! Saia já daqui, seu mensaleiro oportunista!

O ponto é que, ao ver as notícias das manifestações ao redor do país, tem me chamado um bocado a atenção a forma como eles repudiam agressivamente qualquer tentativa de associação com partidos políticos. A função dos partidos, afinal, deveria ser justamente esta – assumir as demandas da população e levá-las para o debate político. É assim que funciona (ou deveria funcionar) o sistema de representação que é a base da democracia moderna.

No entanto, também não dá pra simplesmente discordar da atitude dos manifestantes. A verdade é que eles têm razão. O sistema partidário brasileiro está tão deslegitimado que se associar com ele de qualquer forma diminuiria o movimento, e o faria ser visto como massa de manobra, joguete político ou apenas partidarismo descarado mesmo; seria um descrédito para as próprias demandas que eles estão fazendo. E quem se enfiou nesse buraco foram os próprios partidos, que em apenas trinta anos conseguiram acabar com todo o crédito adquirido nas lutas pela abertura política.

Todos os partidos têm um pouco de culpa no cartório. Isso tem a ver com o nosso sistema eleitoral proporcional surrealista, em que o seu voto em um candidato pode ajudar a eleger outro completamente diferente, que talvez sequer pertença ao mesmo partido (pois ele pode estar em uma coligação). Tem a ver com a forma como partidos como o PC do B, PSol e o PSTU se apropriam da política sindical e estudantil, usando-a como plataforma para lançar seus candidatos, e minando a própria credibilidade destes movimentos. Tem a ver com a forma como o próprio PT fez a mesma coisa no passado para crescer e adquirir relevância política – e, tão logo se lançou a voos mais altos, esqueceu completamente da sua base histórica, e o reflexo disso já pôde ser sentido nas últimas eleições municipais, como em Porto Alegre, por mais de uma década reduto eleitoral PTista, que no último ano elegeu uma mísera vereadora para o partido. E tem muito a ver também com a forma como praticamente todos os demais partidos, seja o PSDB, o PMDB, o PP, o DEM/PFL/PSD/qual seja a sua sigla atual, se apropriam da política nacional, tratando-a como um bem particular.

Chegamos a um ponto em que um partido nada mais é do que uma sigla, um conjunto aleatório de letras sem nenhum significado ou valor além de reunir qualquer número de pessoas com um mínimo de interesses comuns. Vejam só: o Partido dos Trabalhadores é formado por empresários; o do Movimento Democrático Brasileiro é autoritário; o da Social-Democracia Brasileira é neoliberal (e se você não entende como isso pode ser uma contradição, vá estudar história e ciência política, diacho); o Progressista é um dos mais reacionários; o Democratas possui as mesmas características, incluindo ideologias e até o viés religioso, dos republicanos norte-americanos; e eu poderia ir adiante.

Resumindo, o sistema partidário brasileiro está moralmente falido, e com ele o próprio sistema de representação política. O futuro talvez seja o que estamos vendo agora: a política da ruas, em que, ao invés de delegar um representante, é o próprio povo que declara diretamente suas demandas. Seria lindo, embora me pareça pouco prático (imagino se toda votação de orçamento tivesse que ser decidida com passeatas de apoio ou repúdio…). Ou talvez sigamos um modelo de democracia direta, nos moldes do chavismo venezuelano, em que tudo é decidido por plebiscitos. O tiro pode até sair pela culatra, e daqui a pouco nós vermos uma resposta dos “donos do poder” faorianos com um retorno a um autoritarismo ainda mais incisivo.

Mas isso já é futurologia. Não sou bom com conjecturas, queria apenas fazer algumas reflexões. E a constatação a que cheguei é essa: a representação política morreu.

Vida longa à próxima política (seja ela qual for).

Nádegas a Declarar

policia-sao-paulo-reprime-manifestacaoNão tenho nada a dizer sobre as manifestações em São Paulo que já tenha sido dito por aí com muito mais propriedade. Me sinto até um pouco intimidado, vendo textos tão lúcidos e incisivos, quando eu mal e mal consigo tecer meia dúzia de linhas a respeito. Recomendo muito o texto do site Impedimento – um site sobre futebol, vejam só -, que cita uma música do Raul Seixas e faz uma reflexão brilhante sobre o papel da mídia e os espólios sociais do ocorrido; e o do jornalista e escritor Carlos Orsi, que se concentra mais especificamente no histórico repressivo da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Eles dizem tudo que eu não tenho capacidade pra dizer. Só não me venham levar a sério qualquer coisa que saia na revista Veja, por favor.

Mas esse é um blog pessoal, então me perdoem se eu me concentro nos meus próprios sentimentos pessoais um pouco aqui também. Ninguém é obrigado a dar a mínima. Não é nada que vá mudar a opinião de ninguém sobre o ocorrido, já que não é um relato político. O que me chocou mesmo nisso tudo foi ver pessoas com quem eu convivi boa parte da minha adolescência, com quem eu posso dizer até que cresci um pouco junto, defendendo com todas as letras que manifestante tem mais é que apanhar mesmo. Eu não era exatamente um cara muito popular na escola, e na verdade me repreendo bastante por ter assumido a persona do anti-social amargurado e deixado de aproveitar muita coisa do meu segundo grau. Sei que muita gente prefere fingir que essa época da sua vida não aconteceu, esquecer todo o bullying e repressão típicos dessa fase da vida, mas o meu sentimento é um pouco diferente; tem mais a ver com um tipo de lamento saudoso, uma nostalgia do que eu nunca tive. Um arrependimento, pra resumir.

Ao ver esse tipo de comentário, então, acabo olhando em retrospecto, e de repente o abismo que me separa daquela época fica muito maior. Não dava pra esperar que fosse diferente, visto todas as diferenças que existiam já naquela época, e só se intensificaram. Aquela coisa de estudar em um colégio particular morando em um bairro pobre, ou de ter estudado História em uma universidade federal e não Economia em uma norte-americana de renome internacional. E não que eu queira desprezar estas diferenças também, é claro, pois a oportunidade de sair do meu cubículo acadêmico é algo que eu gostaria de ter também, e ainda pretendo aproveitar algum dia.

Mas sei lá. Eu lembro dessas horas do meu texto Náufrago, que eu republiquei dias atrás. E é por não querer republicar de novo que eu prefiro só deixar o link para quem quiser ler mesmo.

A Vingança como Valor

Falemos então do assunto mais comentado do país. Julgamento do mensalão? Derrota da seleção na final olímpica? Nah – Nina e Carminha, obviamente. Não, não sou noveleiro, mas também não sou esses hipsters que acham a teledramaturgia nacional a maior conspiração mundial para alienar a população desde Cidadão Kane. Na verdade, por ter tido algumas colegas de faculdade que se debruçaram a sério sobre o tema em projetos de pesquisa, até peguei alguns respingos de conhecimentos bem interessantes sobre o assunto; e recentemente, após passar uma semana na casa dos pais da minha namorada, ainda acabei assistindo alguns capítulos de duas novelas recentes que ela acompanha. Uma me surpreendeu bem positivamente – a novela das sete, Cheias de Charme, que é toda construída com um tom de farsa teatral bem divertido, com personagens propositalmente exagerados e até algum comentário social relevante, ao ter como fio condutor da trama o empoderamento de uma classe de trabalhadoras que até não muito tempo atrás estavam em condições de quase subemprego -, e a outra tenho que dizer me decepcionou bastante – justamente a dita cuja que todo mundo parece estar comentando.

À parte por ser tecnicamente muito bem produzida, com uma fotografia que não deve nada a superproduções internacionais, ela ainda se prende muito aos paradigmas da teledramaturgia mais kitsch que o país já produziu. Acho que esse foi um dos meus primeiros comentários a respeito dela no twitter, até: uma fotografia tão bonita, pra câmera continuar fazendo um close na atriz principal tentando forçar o choro… Até aí não é nada de realmente decepcionante, é claro, e é até bastante esperado. Acho que o que mais me incomodou mesmo no pouco que vi dela foi a forma como a referência a um dos meus filmes favoritos, a série Kill Bill de Quentin Tarantino, foi aproveitada. Há o mote principal da trama, que também envolve uma vingança pessoal da protagonista contra alguém que lhe causou um mal indescritível no passado; e mesmo a inspiração mais direta em algumas cenas, em especial a famosa sequência da protagonistas sendo enterrada viva. Um infográfico recente no Uol inclusive apontou todas as semelhanças principais entre as duas histórias.

O ponto em que quero chegar não é o de nenhuma acusação de plágio, até porque é bastante claro que se trata de uma inspiração assumida. Mas acho que tudo isso serve bem para ilustrar a forma como uma obra com bem mais significados acaba sendo pasteurizada para se adequar a um formato como esse, absorvendo no processo toda uma gama de valores sem nada a ver com os que ela originalmente possuía.

Começando pelas duas protagonistas, vejo algumas diferenças bem fortes entre a Noiva e Nina. Ambas são justiceiras atrás de reparação por coisas que lhes foram feitas no passado, e pode-se dizer mesmo que não estão totalmente erradas, pela crueldade daquilo que sofreram. A primeira, no entanto, é bem mais objetiva: nos dois filmes que compõem a história, segue sem rodeios a sua vendeta contra os antigos membros do grupo de assassinos do qual fazia parte, em uma evolução quase como a de um videogame, até chegar no “chefão final.” Nina, por outro lado, presa que está aos rodeios e reviravoltas do formato de folhetim, não pode ser tão direta, e, mesmo tendo a chance de acabar de vez com a sua inimiga, prefere primeiro torturá-la para encher os capítulos, transformando a sua vingança de uma busca minimamente justificada por justiça em uma demonstração de sociopatia pura e simples. Ela chega mesmo a se afastar de outras pessoas importantes para ela, em especial o seu par romântico da vez, outra diferença entre ela e a Noiva, que já não tinha nada a perder quando assume a vingança como missão.

A comparação que mais me incomodou, no entanto, foi entre os dois vilões. Aparecendo realmente em apenas um filme, Bill consegue demonstrar muito mais personalidade que a sua contraparte nacional. Você chega mesmo a simpatizar de alguma forma com ele, pois, por mais cruel que seja ao lidar com a assassina fugitiva, ele ainda demonstra sentimentos realmente humanos, como o ciúmes e até um pouco de compaixão. Expressão do materialismo tosco global, o único sentimento que Carminha demonstrou nos poucos capítulos que vi foi o amor ao dinheiro e ao conforto que havia conquistado; é por eles que tenta se livrar da sua inimiga, e não por ter desenvolvido qualquer empatia pela família que a havia acolhido. Assim, se encaixa na extensa tradição de vilãs unidimensionais cuja única função parece ser gritar histericamente, soltar gargalhadas malignas eventuais, e praticar maldades sem justificativa para chocar o público. Bem mais interessante como personagem acaba sendo o outro vilão, o seu comparsa Max, que pelo menos demonstra alguma humanidade e conflito interno.

Na soma dos dois pontos, Kill Bill, em apenas dois filmes e ainda tendo que dividir o desenvolvimento do roteiro com longas lutas de artes marciais, ainda consegue ser visivelmente mais profundo que Avenida Brasil. É interessante notar como ele não redime a vingança da protagonista, mas a coloca no meio de um processo mais longo, em que uma vingança gera outra vingança que gera outra vingança – antes de sair na sua vendeta, a própria Noiva já havia sido o alvo da vingança de Bill, por fugir dele estando grávida do seu filho; e ainda no primeiro filme ela se desculpa da filha de um de seus alvos dizendo que, se ela quiser se vingar no futuro, estará esperando, o que segundo alguns boatos pode virar o mote de um terceiro filme da franquia. Por simplória que seja, essa espiral interminável chega a remeter mesmo a uma prática comum em regiões rurais isoladas dos centros urbanos, onde uma ofensa causada contra um membro de uma família leva os seus irmãos/primos/etc. a buscar reparação, que por sua vez causará uma nova reparação contra eles e assim sucessivamente. A novela, até onde pude constatar, ainda não demonstrou um traço da mesma reflexão sobre si mesma, e corre o risco ainda de transformar uma sociopata em heroína nacional (mesmo que ainda haja sim bastante tempo para isso ser evitado, acredito, dada a natureza fluida dos enredos de telenovelas, sempre sujeitos a passarem por modificações e revisões de acordo com a resposta do público).

A Fantasia Além dos Livros

Então, esse ano eu tive uma oportunidade muito legal, ao ser chamado pelo Christopher Kastensmidt, da Bandeira do Elefante e da Arara, pra substituir de última hora o escritor Max Mallman em um dos painéis da Odisséia de Literatura Fantástica que aconteceu aqui em Porto Alegre no fim de abril. O tema era a fantasia em outras mídias além da literatura, e eu estava acompanhado do escritor Gerson Lodi-Ribeiro, do desenhista e roteirista de quadrinhos Estevão Ribeiro, e do roteirista e diretor de cinema Pedro Zimmerman. Meu papel seria falar principalmente sobre RPG, embora eu tenha preparado um material um pouco maior, falando também sobre duas outras mídias alternativas dos temas fantásticos. Fiz algumas pesquisas e reflexões bacanas, no entanto, e acho que seria interessante resgatar esse material em um textinho simples por aqui.

Pois bem. Como eu falei, apesar de ter preparado coisas para falar sobre outros assuntos, na minha fala eu acabei me reduzindo principalmente à fantasia no RPG. A maioria das pessoas deve saber bem que ele está ligado à literatura fantástica praticamente desde o seu surgimento; os criadores de Dungeons & Dragons, o primeiro e mais conhecido jogo de RPG, eram fãs confessos, e construíram a ambientação dos primeiros jogos com base nos autores que liam. A influência mais conhecida é Tolkien e O Senhor dos Anéis, mas quem conhece pode perceber uma presença bastante forte de elementos vindo de Michael Moorcock, autor das histórias do Elric de Melniboné, e também do Fritz Leiber, das histórias de Lankhmar, entre outros. Lankhmar inclusive chegou a ser adaptado como um cenário oficial do AD&D, muito antes da terceira e quarta edições do jogo que são mais jogadas atualmente.

Isso expõe, acredito, a característica principal do RPG com respeito a outras mídias do gênero fantástico: ele é, principalmente, um apropriador de elementos, mais do que um criador. Quer dizer, pensem na própria forma como ele é jogado: um jogo de grupo, focado na interação entre os participantes. Assim, mais importante do que ser original, é oferecer elementos que os jogadores reconheçam e com o qual tenham vontade de interagir no ambiente de jogo – se os jogadores gostam de piratas, use-se um cenário de piratas; se gostam de elfos, um cenário de elfos; e daí por diante. Isso se expande mesmo para a geração de jogos de terror sobrenatural que esteve muito em voga no fim do século passado, que se apropria de muitos elementos da literatura gótica. Independente de algumas bobagens que se houve por aí, jogar RPG é menos uma atividade individual e reflexiva do que uma atividade social.

Claro, isso não quer dizer também que um RPG não possa ter um papel criador e estar na vanguarda, apenas que é algo pouco comum, e não costuma ser exatamente uma característica dos jogos de maior sucesso. Acho que o melhor exemplo de um RPG na vanguarda das mídias de fantasia é o dieselpunk, termo que foi usado pela primeira vez em um jogo independente pouco conhecido chamado Children of the Sun, de 2002, e que recentemente foi tema de uma coletânea de contos da Editora Draco.

O segundo tema que eu havia preparado para falar no painel, mas acabei cortando da apresentação final, foram os videogames. Acredito que a fantasia nos jogos eletrônicos, pelo menos a dos primeiros anos, esteja ligada principalmente ao público-alvo dos primeiros consoles, que eram, em geral, crianças e pré-adolescentes, que são atraídas pelas cores fortes e brilhantes de jogos como Super Mario Bros. ou Sonic the Hedgehog. Some-se ainda as próprias limitações técnicas, que tornavam um tanto difícil apresentar gráficos mais realistas e sombrios com as limitações de tons de cores e limite de pixels dos modelos. Assim, muitas das suas séries clássicas acabaram tendo um elemento fantástico como característica marcante; foi um longo caminho até que a evolução técnica e do público-alvo permitiu o surgimento de franquias realmente realistas, como Call of Duty e Battlefield. Mesmo a fantasia atualmente adquiriu um tom mais sombrio e anatomicamente cuidadoso, visto em jogos como The Elder Scrolls e Dark Souls, mas ela ainda está bastante presente em jogos da nova geração.

Existem duas séries em especial que também merecem algum destaque devido à sua importância cultural e os intercâmbios realizados com outras mídias. A primeira são os RPGs eletrônicos da franquia Dragon Quest, cujo primeiro jogo foi lançado em 1986. Com um ambiente de fantasia medieval clássica, com forte inspiração do D&D, que havia sido publicado em japonês no ano anterior, a série logo se tornou extremamente popular no Japão, tendo sido por muito tempo a sua franquia de games mais popular. Uma lenda urbana conhecida diz mesmo que uma lei chegou a ser baixada proibindo a sua venda em dias úteis para evitar que os seus fãs faltassem ao emprego ou às aulas para comprar os lançamentos.

Sendo um fenômeno cultural tão grande, Dragon Quest de fato definiu muito do que os japoneses entendem por fantasia, e a influenciou em diversas outras mídias. A principal delas, é claro, são os animes e mangás: muitas séries de fantasia, acredito que a mais conhecida atualmente seja Fairy Tail, além da óbvia inspiração na ambientação, apresentam uma caracterização e técnicas especiais dos personagens que parecem ser feitas sob medida para a progressão matemática que é esperada de um jogo eletrônico. O próprio Dragon Quest chegou a ser adaptado para um mangá e série de animação, exibido no Brasil com o nome de Fly – O Pequeno Guerreiro.

O outro exemplo da influência dos videogames em outras mídias é na cultura zumbi que tem estado em evidência em anos recentes. Ainda que os zumbis certamente não sejam criações dos games, podendo ser resgatados desde os filmes de George Romero, a própria religião vudu e criaturas e monstros de jogos de RPG, existe um paralelismo muito suspeito entre a evolução dessa cultura e os jogos da série Resident Evil. Os dois primeiros lançamentos da franquia foram publicados em 1996 e 1998, e, calculando-se, pode-se facilmente concluir que quem os jogou como adolescentes naquela época hoje se encontram na faixa dos vinte e tantos até os trinta e poucos anos, justamente a que mais se identifica e envolve com histórias de zumbis. Claro que não se pode reduzir toda a popularidade dos zumbis apenas a isso – eu pessoalmente tenho a minha própria interpretação sociológica de bar sobre o tema -, mas é uma coincidência muito evidente para ser simplesmente ignorada.

Por fim, eu havia preparado também algumas linhas sobre a presença de fantasia na música, outra mídia que geralmente é ignorada nos meios interessados por literatura fantástica, mas que apresenta uma relação bastante forte com ela. Para além da óbvia relação com a poesia, ela possui alguns intercâmbios bastante fortes com a literatura como um todo. Pode-se resgatar isso inicialmente, acredito, desde a tradição de óperas dos séculos XVIII e XIX, como A Flauta Mágica ou O Anel de Nibelungos, mas pode-se notar a sua presença com bastante força mesmo em músicas populares mais atuais.

Tolkien, por exemplo, era um autor muito popular em comunidades hippies das décadas de 1960 e 1970, que viam principalmente nos elfos e a sua cultura ligada à natureza como um ideal a ser seguido, ainda que o próprio autor em geral os desprezasse enquanto público. Por isso, não é exatamente difícil de se encontrar referências às suas obras em músicas de bandas da época, sendo o caso mais conhecido, provavelmente, o do Led Zeppelin, que o fazem em músicas como The Battle of Evermore, Over the Hills and far Away e um punhado de outras. Outras bandas que fizeram referências a Tolkien incluem o Black Sabbath e o Rush, e reza a lenda que mesmo os Beatles chegaram a cogitar fazer uma adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis, tendo o Paul Mccartney interpretando o Frodo e o John Lennon como o Gollum.

Mais recentemente, a literatura fantástica é muito presente em músicas de algumas bandas de estilos mais pesados, como o heavy metal e suas vertentes (em especial o power metal), pelo menos desde a década de 1980. O exemplo mais conhecido é certamente o Blind Guardian, que possui discos inteiros em homenagem a Tolkien e seus personagens, além de Stephen King e outros autores do gênero, e recentemente também produziu algumas músicas inspiradas pela série A Song of Ice and Fire, do George R. R. Martin. Outro autor muito referenciado em bandas pesadas é H. P. Lovecraft e os seus Mitos de Cthulhu; só para ficar na mais conhecida, o Metallica possui uma música chamada The Call of Ktulu.

Três projetos relacionando literatura fantástica e música pesada também são interessantes de destacar. O primeiro é o Avantasia, projeto idealizado por Tobias Sammet, vocalista da banda Edguy, que reúne diversos músicos consagrados do gênero para formar uma espécie de “opera metal“, cujo enredo possui diversos elementos oriundos da literatura fantástica. A principal referência no caso é o ciclo arturiano, presente no próprio nome – “Avantasia” é uma mistura de Ávalon com fantasia. Outro projeto semelhante é o Ayreon, do músico holandês Arjen Anthony Lucassen, que também tentar uma montar uma espécie de opera pesada com temas fantásticos, reunindo artistas renomados do heavy metal e gêneros semelhantes. E Lucassen também é responsável pelo Star One, que tem a mesma premissa, mas desta vez com um enredo inspirado pela ficção científica.

E um último estilo musical com elementos fantásticos que eu gosto de destacar, desta vez já puxando mais para o meu gosto pessoal, é o blues tradicional norte-americano. Para quem não sabe, ele possui a sua origem na música folclórica do sul dos Estados Unidos, e por isso possui muitas canções que se estruturam quase como contos, com direito a personagens, enredos e reviravoltas. Algumas destas músicas incluem fortes elementos do sobrenatural, relacionada principalmente à religião vudu – como as gipsy women, por exemplo, ou bruxas/ciganas; e também o mojo, uma espécie de força sobrenatural. Temos ainda a famosa lenda imortalizada na canção de Robert Johnson, sobre esperar à meia-noite em uma encruzilhada para que o diabo apareça e afine o seu violão, e assim você pode aprender a tocar como os mestres do estilo.

Claro, podemos encarar estas referencias inicialmente como religiosas, e não propriamente fantásticas, uma vez que são baseadas em uma crença verdadeira e que ainda é praticada em alguns lugares. No entanto, é interessante notar como o próprio blues, na medida em que passou a ser ouvido e praticado em outros ambientes fora do seu original, não perdeu a referência a estes elementos, mesmo quando tocados por músicas para quem eles nada significam. Pode-se dizer que ele passou a ser encarado com um viés realmente fantástico, algo como vamos brincar de ser um músico errante do delta do Mississipi.

E este foi o material que eu havia preparado para o painel, apesar de a minha fala realmente acabar reduzida apenas à primeira parte, sobre o RPG. É claro que nada disso é propriamente um estudo muito aprofundado, mas acredito que sejam algumas notas e apontamentos gerais bastante válidos. Um dia, quem sabe, eu me debruço mais longamente sobre um ou outro destes temas.

Come to the Dark Side.

Lendo um texto do Sul 21, portal de notícias ligado algo mais do que ideologicamente à nossa esquerda política, sobre o famigerado encontro de Lula e Maluf pelo apoio na candidatura do Haddad à prefeitura de São Paulo, me vejo perdido em algumas reflexões. Há algumas informações interessantes lá – por exemplo, o fato de que o Maluf também já tinha sido procurado pelo José Serra na mesma semana sem um décimo do estardalhaço -, e alguns pensamentos e interpretações bastante válidos sobre o futuro dos partidos políticos. Ao mesmo tempo em que levanta questões relevantes, no entanto, o texto também se deixa levar por aquele conformismo típico da nossa política, fazendo o papel de advogado do diabo com suas piruetas hermenêuticas na apologia do pragmatismo das alianças partidárias.

No fundo, é claro que dá pra entender o encontro e a aliança decorrente dele sem qualquer dificuldade. É preciso muita má vontade para com o PT para se recusar a ver que se trata de um jogo político, uma forma de adquirir mais tempo nos horários eleitorais, além de angariar toda a militância de um partido tradicional para o seu lado. Ao mesmo tempo, no entanto, cada vez que se vê algo assim acontecendo, a cada mensalão ou Cachoeira ou tanto faz qual seja o alvo da metralhadora giratória da Veja essa semana, se perde um pouco de inocência, e com isso muito da própria fé na política como instrumento de mudança da sociedade.

Como o próprio texto bem destaca, o descrédito das instituições públicas é um fato. É algo que se vê no dia-a-dia, nas charges e piadas sobre políticos sustentados pela população, em qualquer conversa em almoços de família e amigos. Então você tenta puxar tudo o que você estudou de Aristóteles e John Locke, o quanto você leu de Charles Tilly e Robert Dahl e quem quer que seja o cientista político do momento, pra dizer que não é bem assim, que há uma função na política e nos políticos, que o que falta na maioria dos casos é informação adequada… Mas chega um ponto em que não há mais argumentos, a realidade simplesmente supera qualquer base teórica, e o que sobra é esse desânimo com qualquer debate político, a certeza de que seja o PT ou o PSDB, seja a Dilma ou o Serra ou o Aécio, no fundo nada vai ser muito diferente, e que você ganha mais tirando esse tempo pra ler o capítulo de Naruto da semana. Ou alguém duvida que o Serra e o Aécio também não correriam atrás do Maluf, do Sarney e de todos esses caso fossem eleitos?

Não é algo que tenha a ver com ideologias ou simpatias políticas. Não to aqui pra discutir isso, e nem quero pregar adesão ao partido A, B ou C. No fundo, acho que é mais um cansaço mesmo. Cansaço de todo esse pragmatismo, misturado a um pouco de nostalgia das velhas utopias. Seja o comunismo final marxista ou o futuro encantado do progresso capitalista, uma boa utopia às vezes faz falta. Algo com o que sonhar e a ter como objetivo último, mesmo que inalcançável. A única utopia que temos ultimamente parece ser um mundo sem sacolas plásticas nos super mercados.

Às vezes também me pego imaginando se não apoiaria incondicionalmente qualquer um que simplesmente mandasse esse tal pragmatismo às favas. Nem precisa ser alguém com quem eu tenha afinidades políticas ou cujo plano de governo seja razoável. Qualquer um que chamasse um encontro público com o Onyx Lorenzoni só pra quebrar o nariz dele na frente dos fotógrafos já tá valendo.

Sei lá. Coisas de uma madrugada sem sono, talvez.

Futebol-Arte (marcial)

Por ser gremista, gaúcho e admirador do futebol do Felipão e do Eduardo Costa, muitos às vezes pensam que eu sou um defensor do dito “futebol-força”, aquele que olha feio pra bola e, ao invés de pedir com jeitinho, praticamente intimida ela até o gol adversário. Sabe como é, aquela filosofia anti-bailarinos da bola, tão bem enunciada na famosa frase que abre o ensaio brilhante do Eduardo “Peninha” Bueno sobre o imortal: futebol-arte, todo mundo sabe, é coisa de veado. (E este é o único trabalho dele, aliás, que realmente merece esse adjetivo).

Por mais que não seja uma inverdade completa, cabe aqui, como de praxe, alguns poréns. Cito outro grande texto sobre o esporte, agora do inglês Nick Hornby: Fever Pitch, lançado aqui no Brasil como Febre de Bola. O livro é uma espécie de auto-biografia dele como torcedor fanático, até o ponto do hooliganismo mesmo, do Arsenal Football Club, uma das principais equipes da Inglaterra. Quem já leu algum dos meus outros textos de futebol por aqui sabe que eu não me canso de citar ele, porque, pra mim ele, é de longe o melhor livro que aborda o futebol do ponto de vista de quem realmente o faz ter o tamanho que tem: o torcedor.

Tem uma passagem muito interessante nesse livro, em que ele comenta uma frase de um técnico inglês da década de 1980, Alan Durban, que, após um jogo especialmente entediaste, teria dito: se você quer entretenimento, vá assistir palhaços. Citando o livro diretamente, em tradução minha (já que só tenho a edição importada):

De minha parte, eu sou um fã do Arsenal primeiro e um fã de futebol segundo (e, sim, eu conheço todas as piadas). Eu jamais conseguirei admirar um gol de Gazza, e existem inúmeras outras situações similares. Mas eu sei o quão divertido o futebol é, e realmente adorei as relativamente poucas vezes em que o Arsenal conseguiu produzir isso; e quando outros times que não estão competindo com o Arsenal de qualquer forma jogam com graça e imaginação, eu posso apreciar isso, também. (…) Reclamar de futebol chato é um pouco como reclamar do final triste de Rei Lear:  é perder completamente o ponto, e isso é o que Alan Durban entendia tão bem (…).

Acho que o ponto fica bem claro aí. Gosto de futebol, mas gosto muito mais do Grêmio. Isso não significa que eu não goste de futebol bonito. Não é que eu não goste de dribles desconcertastes e gols de placa. Mas não é pra isso que eu acompanho os campeonatos. Já discuti em outro momento sobre o que eu acredito que o esporte realmente representa, e que passa bem longe de qualquer definição parecida com “espetáculo.” Mas isso não quer dizer que eu simplesmente execre quando ele seja algo próximo disso, e consegue de fato entreter ao mesmo tempo em que cumpre o que eu realmente espero dele.

Em outras palavras, por mais que eu respeite a técnica de um D’Alessandro ou Damião, eu nunca vou conseguir torcer por eles. Nunca vou aplaudir um gol deles, por mais bonito e espetacular que seja, muito menos se for em um Gre-Nal. Mas posso sim apreciar o futebol de um Barcelona – em especial quando estamos falando de um time que, mais do que dar toquinhos pro lado e dribles no meio-campo, e graças principalmente à presença de um Messi que, talentoso como é, usa esse talento com objetividade e pragmatismo, sabe procurar aquilo que o torcedor de fato quer : o gol, e, no médio prazo, a vitória. Ao mesmo tempo, consigo apreciar as retrancas que a Inter de Milão e o Chelsea fizeram pra vencê-lo – principalmente porque fizeram ela muito bem. E se algum dia, por acaso, ele estiver frente a frente com o Grêmio… Sinto muito, espetáculo, mas eu estou do lado da retranca.

No fundo, é isso. Não é que eu não goste de um futebol bem jogado, que faça quinze gols em quatro jogos, ou qualquer coisa assim. Eu gosto, e adoro quando o Grêmio faz algo parecido. Mas eu também adoro quando ele ganha de 1 a 0 com gol de bola parada aos quarenta do segundo tempo. Ganhar jogando bem é ótimo, mas ganhar jogando mal não é tão ruim assim. Dependendo da situação, pode ser até mais emocionante e empolgante pro torcedor, além de muito mais catártico. Um chocolate com a torcida gritando olé durante metade do segundo tempo é muito bonito, sim, e eu gosto. Mas uma retranca bem armada também pode ser bonita demais nos seus próprios termos.


Sob um céu de blues...

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