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O Deus dentro de nós (Ngugi wa Thiong’o)

– Diga, você é aquele cuja Segunda Vinda foi profetizada? – perguntou um dos garotos.
– Jesus Cristo? O Senhor que irá trazer a Nova Jerusalém aqui na Terra? – continuou outro.
Matigari hesitou por um instante. Ele olhou para as crianças. Então seu olhar foi além deles até o cemitério de carros, e além dele para as montanhas.
– Não. – ele respondeu. – O Deus que foi profetizado está em você, em mim e nos outros humanos. Ele sempre esteve lá dentro de nós desde o início dos tempos. O imperialismo tentou matar aquele Deus dentro de nós. Mas um dia esse Deus irá retornar dos mortos. Sim, um dia esse Deus dentro de nós se tornará vivo e libertará a nós que acreditamos n’Ele. Eu não estou sonhando.
“Ele irá retornar no dia em que Seus seguidores se tornarem capazes de se levantar sem se preocupar com tribo, raça ou cor, e dizer em uma só voz: Nosso trabalho produziu toda a riqueza nesta terra. Então deste dia em diante nós nos recusamos a dormir no frio, a caminhar em farrapos, a ir para a cama de barrigas vazias. Deixe a Terra retornar àqueles a quem ela pertence. Deixe o solo retornar ao lavrador, a fábrica ao trabalhador… Mas aquele Deus vive mais em vocês crianças da terra; e então se vocês deixarem o país ir para o inimigo imperialista e seus lacaios locais, é o mesmo que matar aquele Deus que está dentro de vocês. É o mesmo que impedi-Lo de ressuscitar. Aquele Deus irá retornar apenas se vocês quiserem que Ele o faça.”

(Matigari, Ngugi wa Thiong’o)

Estrelas Modernas (Ngugi wa Thiong’o)

Vá, então, e procure aqueles que estudam livros. Livros são as estrelas modernas. Aqueles que os estudam são os sábios de hoje. Por que você acha que eles são tão ameaçados? Por que você acha que são ordenados a cantar apenas no tom de uma pessoa? Que devem apenas ecoar o mesmo homem, cantar a voz do seu mestre? Felizes são os que sofrem na busca da verdade, pois seus corações e mentes são livres, e eles guardam a chave para o futuro. Mas isso não significa que tenham visto a mesma luz ao mesmo tempo, ou que foram todos liberados do medo! Diga-me: não é possível encontrar apenas um ou dois entre eles que se libertaram do medo e podem desfazer o nó e revelar o que está escondido?

(De Matigari)

Elas adoram (um diálogo)

– Eu coço o saco em público, cuspo no chão, arroto quando tenho vontade, espirro alto na rua, evito pegar nas mãos de homem, muito prazer eu sou machão e elas adoram.
– Me diga uma mulher que adore então.
– Ora, a minha esposa, com quem eu sou casado há trinta anos! Querida, vem cá!
– O que foi, querido?
– Você não adora que eu seja assim?
– Assim como?
– Ora, um machão! Que coça o saco em pública, cuspa no chão, arrote quando quer, não pegue na mão de homem!
– Bem, já que você perguntou… Eu tenho um pouco de vergonha de quando você coça o saco em público.
– Eu não dis… o quê?
– E cuspir no chão! Você não percebe o quanto isso é nojento? Eu viro a cara sempre que você faz isso pra não ver.
– Mas…
– E esses arrotos! Eu juro que, às vezes, quando estamos na rua, eu dou um passo pro lado e finjo que não te conheço.
– Mas querida…
– E qual o problema em pegar nas mãos dos seus netos de vez em quando? Eles genuinamente acham que você não gosta deles.
– Mas esse é o meu jeito machão!
– …
– …
– Sim, querido, eu adoro que você seja assim.
– Eu não disse? Elas adoram!

O País das Histórias, Scholastique Mukasonga

Eu não sou uma estrangeira no país das histórias. Eu sei o que as abóboras falantes disseram para a grama. Sei por que o sapo coaxa e se enche de ar todo orgulhoso: ele abateu a alvéola-branca no meio do voo. Eu sei de quem é o grito insuportável, no meio da savana: é do imperyi, esse bichinho que não ganhou de Imana uma cauda. Todas as noites, ele grita, grita, grita, tentando fazer nascer esse belo apêndice que lhe foi recusado. Não é bom ouvir seu pranto de lamento e nem virar o pescoço para tentar ver a traseira dele. Eu sei por que esse homem sai de casa todas as noites. Ele vai até a floresta. Nesta noite, ele carrega um pequeno cesto. Nesse cesto há o seio de uma mulher, o seio que ele arrancou da própria esposa e prometeu dar à amante, filha da floresta, que tem apenas um seio. Mas, bem antes de amanhecer, o sábio arrancou sua lança (e o que seria de um homem sem sua lança?); ao longo do dia ele andará na trilha pelo alto das montanhas e, à noite, no terreno da casa, onde os sábios se reúnem, ele conversará com a criança de cabelos brancos. O pequeno pastor pode fazer a pergunta: “Existe amor recíproco?” Eu sei a resposta: “O seu mestre, pequeno pastor, ama apenas a esposa estéril e ela, por sua vez, só tem olhos para o primo que partiu para a terra do rei de Cyamakombe, que ele admira mais do que tudo, mas o rei só preza a própria filha que se apaixonou por um carneiro com a lã imaculada…” E você sabe por qual motivo o insaciável Sebugugu chora? Ele seguiu os conselhos do melro e matou sua única vaca: “Sacrifica sua vaca, sussurrou o melro, e você terá cem vacas.” Desconfie também das moças bonitas demais, às vezes, são leoas disfarçadas: ao ver uma carne crua, serão obrigadas a revelar sua natureza selvagem. Além disso, não vamos contar o que tem no ventre da hiena, mas ao rei contarei onde está a mulher com quem ele deve casar: a pobre órfã, cativa dos malefícios da madrasta, está escondida num barril…

Não quero ir até os confins do país das histórias, pois sei quem me espera lá. Na beira dos grandes pântanos, mora uma velhinha corcunda. Ela esconde o rosto debaixo dos trapos, mas sei que seus olhos estão fixos em mim.

Em seu ventre estéril, ela aceitou hospedar a Morte.

(De A Mulher de Pés Descalços).

Pantera Negra, de Ta-Nehisi Coates

Um dia depois de eu me tornar rei, S’yan ofereceu-me um conselho.

– O poder não reside no que um rei faz, mas no que seus súditos creem que ele possa fazer.

Foi profundo, pois significava que a majestade dos reis está na sua aura de mistério, não em sua força. Cada ato de força apequena o rei, pois reduz sua aura de mistério. Pode expor os poderes do rei e, portanto, seus limites. Pode tornar o rei humano. Quebrável.

Por isso, parte de minha força eu escondi do mundo, permitindo que as lendas e o mito preenchessem a lacuna. Pois o que as pessoas conhecem não é o verdadeiro poder dos reis.

Hoje, meu tio S’yan está morto. Assassinado por outro rei. Eu o amava, mas gostaria que ele tivesse me falado não só do poder dos reis, mas da força do povo. Gostaria que tivesse me alertado que a população também tem segredos. Também guarda mistérios.

Também possui um poder próprio.

(Pantera Negra, do Ta-Nehisi Coates, sensacional).

R. I. P.

Esse me deixou triste mesmo. R. I. P.

Deathless, de Catherynne M. Valente

– Eu saboreio a amargura – ela nasce da experiência. É o privilégio daquele que realmente viveu. Você, também, deve aprender a preferi-la. Afinal, quando todo o resto se for, você ainda pode ter amargura em abundância.

Catherynne M. Valente, Deathless.


Sob um céu de blues...

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