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The Jennifer Morgue

The Jennifer Morgue é o segundo livro da série dos Laundry Files estrelada pelo Bob Howard, personagem criado pelo escritor de ficção científica Charles Stross. Para quem não sabe, o primeiro volume, The Atrocity Archives, já foi resenhado por a qui, e ela versa sobre o dia-a-dia de uma agência governamental britânica de espionagem sobrenatural – digamos assim, é mais ou menos o que você consegue quando Ian Flemming e H. P. Lovecraft fazem uma dança da fusão.

O primeiro livro, a bem da verdade, não tinha tanto da super-espionagem que tornaram o primeiro autor tão célebre – ao invés de James Bond, sua inspiração era muito mais os suspenses de Len Deighton, com sua visão mais mundana e burocrática do trabalho de um espião. The Jennifer Morgue, por outro lado, faz uma sátira/homenagem bem mais evidente ao personagem de Flemming, de uma forma que é mesmo incorporada ao enredo através de um deus ex machina bastante criativo.

Claro, ainda é um livro dos Laundry Files antes do que do James Bond, o que quer dizer que muitos elementos devem ser adaptados. Assim, não se surpreenda se encontrar guelras na Bond girl da vez, ou um milionário excêntrico que, ao invés de satélites com raios da morte, possui um plano para despertar seres antigos além da nossa compreensão. Do outro lado, todo universo burocrático da Laundry também se faz presente, de forma que o nosso herói, com sérias restrições orçamentarias, deve, por exemplo, dirigir um Smart 42 (uma espécie de versão alemã do nosso Uno Mille) ao invés de um Aston Martin.

E mais do que tudo, deve-se levar em conta que o protagonista Bob Howard é um simples técnico em informática, e não um assassino galanteador com sangue frio e licença para matar em nome da Inglaterra. Se sente mais à vontade com uma namorada fixa do que trocando de parceira a cada ato da história, é mais efetivo com os aplicativos sobrenaturais do seu smartphone do que com uma Walther P99,  e meramente pensar em perder todo o seu orçamento em um jogo de cartas é o suficiente para lhe dar náuseas. É um James Bond às avessas, enfim, e é assim que deverá sobreviver a um enredo de ação envolvente com tensão em crescendo, levando a um clímax explosivo que não deve nada a qualquer superprodução hollywoodiana.

Como no primeiro volume, este também fecha com uma história curta e um pequeno ensaio sobre a literatura de espionagem. O primeiro é um conto chamado Pimpf, em que Bob deverá usar os seus conhecimentos ocultos em uma arena perigosa e incomum: um jogo de RPG eletrônico on-line. E o segundo se chama The Golden Age of Spying, e versa um pouco sobre aquele que é inegavelmente o mais famoso espião da literatura (e que eu acredito que não preciso nomear, certo?) – incluindo uma pequena e muito elucidativa entrevista com Ernst Stavro Blofeld, líder da S.P.E.C.T.R.E. e principal antagonista de Bond nos filmes e livros, que se mostra como um homem à frente do seu tempo, um empresário filantrópico lutando pela liberdade em um mundo dominado pelo socialismo velado do estado de bem-estar social.

Na soma final, The Jennifer Morgue é um ótimo livro, com uma história de ação que não deve nada aos melhores Bond movies, e que ao mesmo tempo faz uma sátira muito divertida a todos eles, com um ou dois momentos momentos mesmo que me fizeram rir em voz alta. Recomendo bastante para quem se interessar por tudo isso.

007 Quantum of Solace

Eu costumo falar bastante da Grande Roda da Cultura Pop, em que o populacho de hoje se torna o cult de amanhã e o nostálgico de depois de amanhã, geralmente me referindo à música, mais especificamente à relação muito suspeita que existe entre o blues e o rock. A idéia, no entanto, é aplicável a quase qualquer mídia – você pode vê-la na literatura, por exemplo, onde Charles Dickens, José de Alencar e outros cultos que hoje se deve ler obrigatoriamente na escola começaram como o equivalente do século XIX da novela das oito; e também no cinema, onde talvez o melhor exemplo sejam os westerns que começaram como a matiné dos anos 40, passaram pelo declínio e o revival nos anos 60, e hoje já são quase um gênero de cinema de arte.

E também o cinema de ação, vejam só, dá sinais de estar sujeito aos efeitos da Roda. É algo que eu comento há algum tempo já, quando falo com alguns amigos, por exemplo, sobre a carreira ignorada do Stallone nas últimas década, com ótimos filmes que ninguém viu como Shade ou O Implacável; e até o Oscar já foi dado recentemente para Os Infiltrados, que nada mais é do que um filme de ação policial, baseado, inclusive, em um filme de ação chinês (que é muito mais sério e violento, aliás, do que a comédia que acabou virando a versão americana graças ao Jack Nicholson). E, claro, nem preciso citar a maravilhosa trilogia Bourne, que redefiniu todos os paradigmas do cinema de ação recente.

A questão é que cinema de ação já deixou há algum tempo de ser apenas sobre heróis transbordando testosterona passando por explosões e tiroteios em roteiros decorativos indisfarçadamente reacionários e conservadores. Não, ele hoje quer ser sério e crítico; quer falar de política e posar de inteligente, e não apenas divertir acerebradamente. O que não é necessariamente ruim, claro, apesar de ser curioso – vide aí os últimos filmes do James Bond, justamente um dos pilares do cinema de ação de entretenimento.

Esqueça a canastrice do Sean Connery, as piadinhas do Roger Moore, a impassividade do Pierce Brosnan; o Bond de Daniel Craig em Quantum of Solace, como já em Casino Royale, quer mesmo é ser Jason Bourne. Quer usar roupas casuais e ter combates corporais e perseguições à pé em ambientes urbanos com enquadramentos de câmera impessoais, enquanto se vira praticamente sozinho contra conspirações institucionais internacionais. Os magnatas megalomaníacos com um satélite de raio da morte e um plano de dominação mundial dão lugar a traficantes de armas e filantropos sem carisma com pouco tempo de tela, e Bond girls chegam mesmo a ser dispensadas sem sequer aquela tórrida noite com o herói. O novo Bond sequer se dá ao luxo de se apresentar aos inimigos com o famoso Bond, James Bond.

É um pouco estranho ver um James Bond com tanta personalidade, não exatamente no bom sentido. Não é mais o espião impassivo que todos aprendemos a invejar, que troca de mulheres como quem troca de bebida e acaba com os planos de um milionário megalomaníaco por mês; ele agora chora por amores passados, e os adversários que enfrenta não passam capangas de alguma sombra maior que nunca aparece de fato. Ou, pelo menos, não até o próximo filme, já que agora eles têm uma certa continuidade, não sendo apenas episódios fechados.

Mas, claro, para alguém que não se importe com este não ser o Bond de sempre, ele também tem lá as suas virtudes – é brutal e violento como nenhum outro antes, e sobrevive a algumas cenas de ação e explosões até empolgantes (ou talvez seja só a minha queda conhecida por cenas de combates aéreos), ainda que o roteiro em si seja bem menos inteligente do que pretende. O novo James Bond, enfim, pode não ser o melhor deles, mas também não é necessariamente ruim – é certamente diferente, mas um James Bond mesmo assim.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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