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Revolução (?)

No dia 30 de março, os generais se reuniram para um conselho de guerra. A situação chegara ao limite: era preciso tomar uma atitude, antes que o povo o fizesse. As ruas seriam tomadas de qualquer forma, fosse por descamisados enfurecidos ou tanques de guerra.

No dia 31, começaram os movimentos. O quarto exército se reuniu com o primeiro, e juntos se dirigiram à capital. Antes de chegar, no entanto, foram confrontados pelo segundo – mas, após confabularem, seus líderes decidiram aderir à revolta. O terceiro exército permanecia em silêncio no sul do país, supostamente fiel ao presidente.

Entraram na capital no dia seguinte. A população amedrontada se recolheu em suas casas, deixando as ruas vazias para o desfile das tropas; apenas alguns poucos valentes saíram e as desafiaram, atirando ovos, tomates e outras frutas. De dentro do palácio do governo o presidente observava, apreensivo, de uma das janelas, enquanto os exércitos se reuniam à sua frente em formação de batalha.

Um dos generais tomou a dianteira e chamou um soldado para hastear a bandeira da revolução, enquanto todos os demais batiam continência. Ela tremulava com o vento, formando ondulações em sua forma retangular e comprida; tinha um fundo negro, e era preenchida por grandes letras brancas que diziam: hah! Primeiro de abril!

Emergência

O alarme da emergência tocou. Médicos, residentes e enfermeiros correram para o quarto do paciente, que estava tendo uma convulsão. Era um velho senhor de setenta anos, internado dias antes devido a uma forte gripe que o seu desgastado organismo não era mais capaz de vencer sozinho. O monitor cardíaco indicava uma parada; estavam a ponto de perdê-lo. Todos agiram com pressa – correram atrás de drogas analgésicas, prepararam as seringas e o soro, buscaram o desfibrilador. Subitamente, no entanto, a convulsão passou, e tudo voltou ao estado anterior, como se nunca tivesse acontecido.

Já mais calmo, mas ainda intrigado, o médico responsável retirou uma amostra de sangue do paciente e a enviou para o laboratório, para descobrir o que havia acontecido. Algumas horas depois, o residente responsável pelo exame o chamou até lá.

– Acho que você vai querer ver isso. – disse, traindo uma expressão de espanto.

O médico se aproximou do microscópio com relutância, observando o que ele revelava sobre a amostra em exame. Afastou o olho, sacodiu a cabeça, e olhou de novo; o afastou mais uma vez, esfregou-o bem com o peito da mão, e olhou ainda outra vez. E nas três vezes, viu exatamente a mesma cena: uma longa linha de vírus de gripe posicionados lado a lado, exibindo um cartaz montado com pedaços de glóbulos vermelhos e plaquetas, onde se liam as palavras Primeiro de Abril! Hahah!

1º de Abril

E pensar que o dia havia começado tão bem. Tudo corria como planejado – seria esse o ano em que ele enfim venceria Pablo, e aplicaria a pegadinha de primeiro de Abril do século. Foram semanas de cuidado e preparação, um grande investimento de tempo, dinheiro e favores de amigos, e uma organização e realização impecáveis até o fim, com todo o esmero de que precisava para funcionar. Exceto que, é claro, não funcionou, e agora ele olhava para o cartaz dizendo “Peguei você!” em letras garrafais à sua frente, enquanto torcia para que a corda que o prendia ao teto não arrebentasse antes do zoológico abrir e um funcionário aparecer para tirá-lo da jaula dos jacarés.


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