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A Balada de Halo Jones

BaladaHaloJonesAntes da Liga Extraordinária, de Watchmen, de V de Vingança e todas aquelas séries pela qual Alan Moore é mais conhecido, havia Halo Jones. A Balada de Halo Jones é uma das obras-primas cult do mago dos quadrinhos britânicos, uma das histórias que o lançou ao estrelato originalmente na Inglaterra, inspirando de peças de teatro até bandas de rock, antes da consagração definitiva que viria no mercado norte-americano.

A história se passa no século 50 – um futuro tão absurdamente distante que é difícil até de ser concebido amplamente. Tudo o que conhecemos da Terra dessa época é o Aro, uma grande colônia sobre o oceano que abriga desempregados e outros excluídos sociais, sustentados por uma ajuda financeira concedida pelo governo. É um ambiente perigoso, onde uma simples visita ao mercado envolve tensão e planejamento quase a nível militar; e é onde vive Halo Jones, a personagem principal, que leva uma vida entediada e sufocante até que, após uma série de acontecimentos chocantes no seu círculo de amigos, decide fugir para longe – apenas para longe.

Um dos grandes méritos da história, principalmente nas duas primeiras partes, é pegar esse cenário futurista e caótico, com suas modas exóticas e gírias esquisitas, e tratá-lo como um ambiente absolutamente normal, habitado por pessoas normais. Halo é exatamente o tipo de garota comum que você encontraria num bar ou shopping center; possui amigos comuns, interesses comuns, paixões comuns por astros de bandas de rock. A identificação com ela e com seus dilemas, assim, é bastante profunda, e faz com que a história toda seja bastante envolvente. E se a própria Halo já não é cativante o bastante, o tempo todo encontramos novos personagens interessantes, de Rodice, a melhor amiga que fica para trás nesse desespero da protagonista por fugir para longe, até à não-entidade sem nome na qual ninguém consegue prestar atenção, responsável por alguns dos momentos mais emocionalmente intensos e dramáticos do roteiro.

A narrativa é muito influenciada pelo formato original da história, em capítulos semanais de cerca de cinco páginas cada publicadas na revista de quadrinhos de ficção científica 2000 A.D. Ela acaba lembrando bastante uma telenovela, em que o enredo é contado em passagens curtas, sempre com um cliffhanger na última cena para fisgar o leitor para o próximo episódio. Para os fãs do autor, é bastante interessante ver como ele se adapta a esta limitação, e começa a desenvolver as técnicas arrojadas de narrativa pela qual ficaria famoso no futuro.

Talvez por focar tanto nessas questões mais cotidianas, no entanto, as duas primeiras partes também são um pouco mais vagarosas, construindo sem muita pressa, em paralelo ao plano principal, elementos e situações que só serão profundamente explorados mais adiante; talvez seja um pouco difícil mesmo apreciá-las se não se estiver disposto a entrar no clima e se deixar levar pela ambientação, como eu geralmente estou. Mas então chegamos no Livro Três, e o enredo dá uma virada total no clima e na temática, quando Halo se alista para a guerra na nebulosa da Tarântula. Mais do que apenas pelo ambiente neurótico e caótico com que é representada a zona de conflito – que encontra a metáfora perfeita nos efeitos da gravidade gigante de um dos planetas sobre o tempo, fazendo meses passarem em poucos minutos -, é toda a identificação com a personagem construída nas partes anteriores que torna marcante a transformação e degradação pela qual ela passa nesse ambiente. O efeito dramático, além da óbvia analogia com a situação dos veteranos da Guerra do Vietnã, é bastante eficiente, chocando e provocando reflexões a respeito por dias depois da leitura.

Na soma final, eu pessoalmente considero A Balada de Halo Jones uma obra-prima; talvez seja mesmo a minha história preferida de Alan Moore (talvez empatado com Promethea). Ela consegue mesmo estar à frente do seu tempo em muitos aspectos – em tempos em que a representatividade dos sexos em diferentes mídias é tão discutida, é bastante contundente encontrar uma história de ficção científica em quadrinhos de três décadas atrás que tem uma mulher não-sexualizada como protagonista. O único ponto que talvez não tenha envelhecido tão bem é a arte de Ian Gibson, que não é exatamente feia, mas também parece um tanto datada comparada ao trabalho de artistas mais modernos. Mas é muito bom ver ela ganhando finalmente uma edição digna nas mãos da Mythos, com capa dura, papel especial e galeria de capas no final (apesar dela estar incompleta, apenas com as capas da 2000 A.D., sem incluir capas das edições encadernadas), visto que a edição anterior, da (felizmente) finada Pandora Books, era bastante mal produzida. Apenas senti falta das introduções do autor para cada ato da história.

Mesmo assim, recomendo muito.

The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier

Não tenho estado exatamente muito empolgado com a última saga da Liga Extraordinária. O que antes era um mashup muito bem cuidado e divertido, mas sem por isso deixar de ser sério e sombrio, de obras literárias dos dois últimos séculos parece ter virado uma ode ao misticismo proferido pelo Alan Moore na sua vida particular, enquanto os protagonistas cada vez mais se afastam das suas personas originais e se tornam personagens completamente diferentes. No meio disso tudo, referências que precisam ser decifradas, para não terem problemas legais por estarem ainda fora de domínio público, tiram um pouco da graça da idéia original. Certamente há quem esteja achando ela interessante, é claro, mas à parte por polêmicas gratuitas, não vejo muito aonde ele quer chegar.

Em todo caso, entre as duas obras-primas originais e o seu momento jumping the shark, temos The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier. Este volume intermediário não pode ser lançado fora dos Estados Unidos por problemas legais, já que faz alusões diversas a personagens que ainda estão sob as leis de direitos autorais, fora o fato de o próprio Moore ter rompido relações com a DC Comics, que comprou a editora Wildstorm que publicava as histórias do grupo. Em certo sentido, pode-se dizer que ele faz a passagem de um momento para o outro: as referências ao mundo literário ainda estão no centro da narrativa, se estendendo até meados do século passado e incluindo até mesmo alguns elementos do cinema e dos quadrinhos, e eventualmente terminam por levar à salada indistinguível de personagens obscuros que a série se tornou nos últimos volumes.

Destaco, no entanto, que ela realmente vai muito além disso na sua proposta. Todo o livro é um exemplo único de design e composição, praticamente um experimento multimídia literário. A base do enredo é o dossiê negro do título, que os protagonistas Allain Quatermain Jr. e Mina Harker roubam da ala secreta do Museu Britânico. Ele reconta a história das Ligas reunidas pelo Império Britânico desde o século XVII até o fim da Segunda Guerra Mundial através de colagens de publicações e memorandos secretos, o que serve de deixa para que Moore explore referências e estilos: há desde romances ilustrados a peças shakespeareanas, passando por uma bíblia de Tijuana e mesmo um trecho de um romance beatnik.

A maior parte do volume é composto por estes documentos, enquanto o enredo da história em quadrinhos em si, que envolve a fuga dos dois protagonistas do Reino Unido, fica em geral em segundo plano. Pode-se dizer, assim, que ele funciona na verdade como uma espécie de livro de apoio para a série, delineando detalhes do cenário e personagens secundários que não são propriamente desenvolvidos pelas outras histórias. A forma indireta como tais elementos são apresentados, no entanto, em geral impede que estas apresentações fiquem maçantes, muito embora certos trechos possam ser realmente difíceis de superar.

Se passando na década de 1950, a história também tenta ambientar os personagens com relação às referências da época. Há espaço para James Bond e os Vingadores (não, não os da Marvel), muito embora eles não sejam referidos diretamente pelos seus nomes – num truque para tentar escapar dos direitos autorais, aparentemente sem sucesso, eles são referidos sempre por apelidos ou alcunhas menos conhecidas. O partido Ingsoc de 1984 também possui uma participação importante entre outras referências mais obscuras, bem como Orlando, personagem de Virginia Woolf que também foi bastante descaracterizado da sua persona e história originais (e agora que eu já li o livro eu posso falar isso =P).

Uma última surpresa ainda é guardada para o fim da história: toda a seqüência final é apresentada em três dimensões, para ser vista através de um par de óculos 3D destacáveis nas páginas centrais! É um espetáculo visual à parte, com direito mesmo a alguns truques curiosos de ilusões óticas. Acredito que o momento mais marcante, no entanto, seja o discurso do Duque Próspero de Milão, personagem de Shakespeare transformado aqui no líder precursor da Liga, que encerra o livro destacando o objetivo da série como um todo: o de ser uma homenagem à ficção e à imaginação, nos lembrando da importância que eles possuem para a alma humana e o nosso próprio avanço enquanto civilização. Ou, como ele mesmo diz, se nós somos meras fantasias, o que dizer de vocês, que roubam a sua substância de nós? Não apenas vocês, mas toda a humanidade no seu progresso emula as fábulas. Ou de onde viriam os seus foguetes e submarinos se não do Náutilus, da carvorita? (…) Duas mãos ilustrantes, cada uma desenha a outra: as fantasias que você criou criam você.

The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier, enfim, é uma experiência de leitura única e envolvente, e poderia ter sido um fim bastante digno para a série. Ele já começa a demonstrar alguns dos vícios que os volumes seguintes aprofundariam, mas no geral, por todo maravilhamento do seu experimento narrativo, bem como pelo seu discurso em favor da ficção e da imaginação, é certamente uma leitura que vale a pena.

A Liga Extraordinária – Século: 1969

A Liga Extraordinária – Século: 1969 é a segunda parte da nova aventura do super grupo criado por Alan Moore e ilustrado por Kevin O”Neill com personagens clássicos da literatura universal, ambientada agora nos loucos anos 1960, quase sessenta anos depois do primeiro capítulo da história. Como comentário inicial, achei muito interessante a idéia de contar a trama ao longo de todo o século XX e começo do XXI (se eu peguei as referências corretamente, acredito que a terceira parte deva acontecer em 2009), retratando assim a vida da Liga em diversos momentos culturais da história recente, e tendo que lidar com problemas e situações próprias em cada um deles. É bem bacana tentar reconhecer todas as referências ao longo do roteiro, um atrativo à parte para a leitura além da simples fruição da história.

Mesmo assim, no entanto, é difícil não achar que há alguma coisa faltando, ou talvez mesmo sobrando, neste último volume. O mote da Liga originalmente era o de contar uma história de super-heróis com personagens clássicos da literatura do século XIX, e as duas primeiras histórias do grupo cumpriram ele excepcionalmente bem, não só montando um super grupo bastante funcional como também fundamentando as próprias tramas em enredos clássicos de Arthur Conan Doyle, Júlio Verne e H. G. Wells. E é justamente esse espírito que a série parece ter perdido, na minha opinião – há lá a dose obrigatória referências literárias e culturais, muito bem, mas elas parecem um tanto deslocadas e perdidas frente à ode ao estranho, o oculto e a magia que Moore parece querer realizar.

Os próprios personagens ilustram isso muito bem. Até achei a Mina Harker bem adaptada e interessante, mostrada como tentando se atualizar constantemente aos novos costumes para lidar com a recém adquirida imortalidade; e o Orlando, vá lá, também cumpre bem o seu papel. Mas o Alain Quatermain parece ter perdido completamente a razão de ser, e foi totalmente descaracterizado da sua persona original, do intrépido aventureiro viciado em ópio. Isso colabora bastante para a impressão de que o mote original da série foi abandonado, e eles se tornaram apenas mais um grupo genérico de investigadores do oculto e do sobrenatural.

As referências culturais atualizadas também têm a sua dose de questões particulares. Muitas delas, em especial as que envolvem o mundo da música, precisaram mesmo ser ficcionalizadas, por não se tratar mais de personagens de domínio público, mas sim de pessoas bastante conhecidas do mundo do entretenimento – me refiro em especial a banda Orquestra Púrpura, cuja inspiração deve ficar bastante óbvia durante a leitura para qualquer um que conheça um mínimo de história do rock. As que acabam se salvando mais são justamente as que não têm importância maior para a trama, e estão lá apenas para fazer um comentário rápido ou piada de humor negro com algum personagem conhecido.

A arte de Kevin O’Neill, enfim, também não colabora em nada para melhorar a impressão final. Tenho amigos que já não gostavam muito dela em primeiro lugar, mas a mim, pessoalmente, ela nunca incomodou, e a achava até bem legal nos primeiros volumes. Neste, no entanto, ele parece preguiçoso e desleixado ao desenhar, resultando em traços tortos e muitas vezes simplesmente feios mesmo.

No fim, em todo caso, não vou dizer que seja um lançamento simplesmente ruim. A história em si até é bem bacana, tem boas reviravoltas e momentos, e tietes do Alan Moore devem gostar dela de qualquer forma. Me pergunto se não seria mais interessante, ao invés de descontextualizar completamente os personagens da Liga original, criar versões atualizadas do grupo com personagens literários de cada época; mas, enfim, não fui eu que a escrevi, e é injusto também querer julgar os autores apenas pelo que a série poderia ter sido, e não pelo que de fato foi.

Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

Entrei em contato pela primeira vez com o intrigante trabalho do Dr. Thackery T. Lambshead através de alguns escritos do Dr. China Miéville, onde constava o seu relato bastante curioso a respeito da Praga de Buscard, retirado do famoso Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas. Tendo meu interesse despertado, busquei saber mais a respeito, mas à época o volume era disponível apenas em poucas e esparsas cópias britânicas e norte-americanas, de forma que não obtive sucesso em adquiri-lo.

Recentemente, no entanto, através da intervenção de uma conhecida a quem sou por isso muito grato, soube que era iminente o lançamento de uma edição portuguesa da importante obra, de forma que fui atrás de informações. Descobrindo também que estavam atrás de relatos de terras lusófonas para adicionar ao material original, prontamente preparei um pequeno artigo a respeito do Cancro de Meme, esta odiosa doença que há anos tem ocupado minhas pesquisas. Para minha surpresa, o relato foi considerado digno de ser incluído junto aos demais, e assim me uni a nomes como o dos Drs. Alan Moore, Neil Gaiman, Michael Moorcock e outros nesta belíssima edição da editora lusitana Saída de Emergência.

Deixo, portanto, minhas sinceras recomendações a respeito deste lançamento, para aqueles que por ventura forem capazes de adquirir livros de além-mar.

V de Vingança

Sou HQéfilo assumido, quem me conhece sabe disso, mas admito que tenho algumas manchas vergonhosas no meu currículo como tal; por exemplo, não achar Preacher lá essas coisas, ou ser fã do Jim Lee. Mais do que isso, no entanto, a minha grande vergonha talvez seja nunca ter lido algumas obras consideradas fundamentais dos quadrinhos em língua inglesa, como O Cavaleiro das Trevas do Frank Miller, por exemplo, e algumas das obras clássicas do Alan MooreWatchmen eu só fui ler recentemente, alguns meses antes do lançamento do filme; e V de Vingança eu ainda estou por ler. Portanto, é importante ressaltar que escrevo essa resenha como um simples fã de HQ que viu o filme dos irmãos Wachowski quando ele saiu nos cinemas, tempos atrás, e não como um daqueles chatos que acusam de heresia qualquer mínima omissão ou alteração da obra original. E já adianto o veredicto: é ótimo.

O filme retrata um futuro sombrio em uma Inglaterra dominada por um governo fascista que inibe os cidadãos de sua liberdade – apesar de pregar que não -, e onde um terrorista com uma máscara de Guy Fawkes (revoltoso que tentou explodir a sede do parlamento britânico no século XVII), assumindo a alcunha de V, decide pôr em prática seu plano para derrubar os governantes autoritários e trazer o caos a essa ordem social opressiva. A história é apresentada sob dois pontos de vista: o de Evey, uma jovem que é salva por V e acaba se envolvendo com o seu projeto de atentado; e o de Finch, inspetor de polícia encarregado de investigar e desmascarar o terrorista, além de membro do partido governista. É intercalando a história dos dois que a trama maior arquitetada pelo anti-herói, bem como o seu passado, vai se revelando ao público, até atingir o clímax épico e apoteótico.

Muitos dos méritos do filme se devem, sem dúvida, à Natalie Portman e Stephen Rea, responsáveis por interpretar os dois personagens citados acima. Ambos conseguem segurar bem o roteiro pesado, sem comprometimentos. Hugo Weaving no papel de V também está ótimo, apesar da máscara que parece tornar tudo um pouco caricato demais. A maioria dos outros atores também está perfeita, mesmo aqueles com menor tempo de tela – desde o chanceler interpretado por John Hurt até o genérico de Jô Soares interpretado por Stephen Fry.

Quanto aos problemas, o primeiro a se destacar é o fato de que ele não é tanto um filme de ação como eu esperava que fosse. V é um filme político, calcado mais na sua trama subversiva do que em cenas de ação e aventura, que são bastante escassas – mas isso não chega a ser um defeito, na verdade, uma vez que o clima constantamente tenso e a fotografia sombria das ruas substitui bem a ação, e também parece ser esse o teor original da HQ. Há ainda algumas soluções do roteiro que parecem um pouco forçadas, apesar de estarem bem amarradas com a trama geral, e um diálogo melodramático-sentimentalóide totalmente descartável próximo ao fim, que acredito não estar na história original.

O ponto que mais gera alguma discussão, no entanto, é o teor político da trama: V pode facilmente ser acusado de fazer apologia ao terrorismo, até porque realmente faz. No entanto, por mais complicado que seja tratar de um tema assim na atual conjuntura de algumas situações (que são até citadas ao longo do filme), a questão é que ele levanta pontos pertinentes ao debate, e, de uma forma ou de outra, a história se encarrega de discutir muito bem o ponto de vista que defende, vendo seus pontos positivos e negativos, e apresentando argumentos e contra-argumentos. No fim, quer você concorde com ele ou não, o fato é que V de Vingança realmente faz você refletir, e é fácil se pegar revendo mentalmente seus momentos mais polêmicos mesmo anos depois de assisti-lo.

Watchmen

watchmen-posterWatchmen, não deve ser novidade para a maioria, é a adaptação da premiada série em quadrinhos escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons. A obra original é considerada um marco da sua mídia e do seu gênero, e não exatamente sem razão – é de fato uma obra ímpar, uma desconstrução crítica e aprofundada da figura do super-herói mascarado, tema que depois acabaria se tornando praticamente um chavão em histórias posteriores, e com diversas camadas e elementos narrativos que nada devem em qualidade literária a qualquer grande nome do romance em prosa. Adaptar para o cinema uma obra dessa importância, assim, é com certeza um feito corajoso, e nisso ao menos o diretor Zack Snyder merece algum crédito. Já quanto ao resto do filme, nem tanto assim.

Esteticamente, é inegável que ele possui uma série de bons méritos. Toda a indumentária dos personagens principais, por exemplo, em geral ficaram bem bacanas, e isso sem deixarem de ser fiéis às originais, o que é um feito e tanto se considerarmos a quantidade de colantes coloridos – a exceção mais notável talvez seja a do Coruja, que teve que ser redesenhada para se tornar viável em um filme com atores reais, mas isso nem de longe é um ponto negativo. A seqüência dos créditos iniciais, em que a história dos vigilantes do passado é mostrada em uma série de cenas que parecem fotos em movimento, com The Times They Are A-Changin’, do Bob Dylan, tocando ao fundo, também ficou ótima, além de bastante tocante. Aliás, toda a seleção de músicas pop da trilha incidental em geral é bem bacana, com destaque para The Sound of Silence, do Simon & Garfunkel, durante o enterro do Comediante, e a genial citação a Apocalipse Now.

Esse cuidado estético, no entanto, não deixa também de passar do ponto em alguns momentos, às vezes beirando mesmo o obsessivo. Acho que os casos mais notáveis são as cenas de ação, que sofrem com um excesso de pose, violência gore e câmera lenta, remetendo à experiência do diretor com 300 – exceto que, o que no filme sobre os espartanos funcionava bem devido às cenas de ação serem realmente o elemento principal (bom, talvez depois das frases de efeito do Leônidas, mas elas têm uma importância bem próxima), em Watchmen acaba contrastando muito com o lado mais dramático da história. No fim, ela acaba se perdendo entre suas pretensões, sem se decidir se quer ser uma história de ação estetizante e caricata, à lá Sin City, ou um drama sobre pessoas fantasiadas combatendo o crime.

E acontece que esse era justamente o ponto fundamental da série original – mais do que as fantasias coloridas e planos mirabolantes fazendo críticas genéricas ao momento político, era o desenvolvimento humano dos personagens, sobre o que faz uma pessoa comum dedicar a sua vida ao combate ao crime sem receber nada em troca, muitas vezes nem ao menos reconhecimento, que se destacava. Não dá pra dizer que o filme não tenta focar esse lado, valorizando os diálogos e os relacionamentos entre os protagonistas; no entanto, o que nos quadrinhos é feito de forma genial, com uma riqueza de recursos que vão desde a narrativa fragmentada, com diversas mudanças no tempo e no foco narrativo, até a inclusão de apêndices com entrevistas fictícias e outros textos relacionados aos personagens, nem sempre pode ser passado com o mesmo efeito para a narrativa do cinema. Isso acaba deixando o diretor em um dilema: por um lado ele quer, e efetivamente tenta, se manter o mais fiel possível ao material original, muitas vezes fazendo questão de usar cenas, enquadramentos e diálogos rigorosamente iguais; por outro, se ele se mantém fiel demais, o público comum, aquele que não deve acompanhar os lançamentos e campanhas paralelas ao filme, não vai entender a história, e assim é necessário modificar textos, incluir informações fora de contexto em diálogos, e mesmo cortar algumas cenas que teriam um impacto dramático mais marcante em prol de cenas ação, para não deixar o desenvolvimento cansativo demais – o próprio desfecho, aliás, teve que ser mudado da versão original justamente porque ele não seria entendido sem toda essa informação extra que os quadrinhos transmitem em paralelo à trama principal.

O desenvolvimento de alguns personagens sofre bastante com estas mudanças. O caso mais emblemático acredito que seja o do Ozymandias, que tem pouco tempo de tela e acaba tendo que explicar suas motivações e expressar sua personalidade de forma um tanto apressada. O Roscharch também teve seu momento de protagonismo particular bastante reduzido, mas, como o roteiro parte justamente dos seus monólogos internos, acaba não sofrendo tanto com isso. O Dr. Manhattan tem mais tempo de tela, mas no fim tem uma presença meio ambígua – é um pouco estranho ver alguns diálogos de conteúdo tão passional, como o que ele trava com a Espectral em Marte, serem ditos sem qualquer emoção; não posso dizer que isso seja um defeito, já que é um elemento importante da personalidade do personagem, mas é diferente ler um diálogo assim em uma HQ e ouvi-la no cinema, e não consigo deixar de achar estranho de qualquer jeito. A grande exceção, e o personagem que facilmente mais se destaca, é o Comediante, talvez justamente por estar onipresente em meio aos devaneios e pensamentos dos demais personagens sem nunca aparecer de fato para se justificar, e com isso acaba despertando alguma coisa de simpatia a seu respeito, por mais que, em um primeiro momento, devesse acontecer justamente o oposto.

Enfim, não sei dizer se eu não estou sendo excessivamente chato pelo fato de a obra original ser de uma importância tão grande, e de eu, ao menos, considerá-la tão genial. Watchmen certamente não vai ser para o cinema de super-heróis o que foi para os quadrinhos – se fosse chutar, eu diria que esse papel cabe a O Cavaleiro das Trevas, provavelmente -, e é um pouco isso que acaba deixando a experiência toda um pouco frustrante – afinal, não haveria outra razão para justificar a produção, e a impressão final que fica é mesmo a de um exercício vazio de estilo e virtuosismo. Isso fica mais visível principalmente se a compararmos com outra obra do Alan Moore levada para o cinema não muito tempo atrás, e que foi adaptada de forma brilhante para um contexto e temas mais contemporâneos – V de Vingança, dirigida e produzida pelos irmãos Wachowsky. Imagino se não teria sido mais interessante se um caminho semelhante fosse seguido, aproveitando que as histórias de super-heróis atualmente estão tão em evidência no cinema como sempre foram nos quadrinhos – mas aí eu também estou divagando, e não seria justo julgar o filme apenas em cima desta possibilidade, entre todas as outras que ele poderia seguir. No fim, até acredito ser possível que quem for capaz de se desligar disso tudo acabe encontrando um filme interessante e divertido, o que, na pior das hipóteses, ele não chega a deixar de ser.


Sob um céu de blues...

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