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Literatura de Aeroporto

Vinte e cinco anos. Esse foi o tempo que Rafael esperou por este momento – o momento de saber, enfim, como terminava a sua série de livros favorita. Atrasos, divisão de volumes, mesmo acidentes e problemas de saúde do autor, e o medo constante de que ele nunca completasse a história… Passou por tudo isso e algo mais, mas agora enfim a jornada chegava ao fim. Pouco menos de cinquenta páginas restavam – cinquenta páginas em que tudo se revelava, os verdadeiros vilões mostravam a sua cara, e as pontas soltas de sete volumes passados se encontravam e começavam a se fechar. O grande mistério que rondava os protagonistas desde o primeiro livro estava a ponto de ser desvendado; bastava virar mais uma página, ler mais uma frase. O vilão riu sadicamente… Assim ela começava, no exato instante em que o avião em que Rafael voltava para casa após um feriado prolongado se chocava contra oceano.

Celular

– Alô? – e o avião explodiu.

Epifania (4)

Sentava e lia uma revista econômica estrangeira, qualquer coisa sobre a crise do Euro e as fraudes na última eleição russa. Entre um gole e outro de água mineral sem gás, suspirava um tédio contagioso. Então, não mais que de repente, como que por mágica, se deu conta: era tudo tão óbvio! Fazia sentido agora, quando via por este ângulo. As coisas, o mundo, a vida… Tudo tinha o seu lugar, e ele agora o percebia. Como fora tão tolo até então? Estava tudo na sua cara, o tempo todo, bem embaixo do seu nariz!

Pensava já em tudo o que faria com esse conhecimento, as pessoas para quem o revelaria, os próximos níveis de iluminação que atingiria, quando as máscaras de oxigênio caíram do compartimento sobre a sua cabeça, e o avião em que viajava seguiu em queda livre até o oceano.

Última Mensagem

– Senhores passageiros, aqui é o capitão Tárcio da Silva Pinto do vôo 3666 com destino a Porto Alegre, e eu gostaria de informá-los da situação da aeronave. Neste momento nos encontramos em direção à serra catarinense. O choque deve acontecer aproximadamente às dezessete horas e quarenta e cinco minutos, horário local. O tempo está nublado e a temperatura ambiente é de vinte e dois graus centígrados. O motor direito do avião não está funcionando, o que explica a leve turbulência que os senhores devem estar sentindo. A asa esquerda foi perdida quando o motor explodiu, aqueles que estiveram com a janela deste lado aberta poderão ver as chamas ainda acesas, e o leme e as rodas traseiras caíram quando os parafusos se desprenderam. Neste instante as aeromoças devem estar percorrendo o corredor para servir aqueles que desejarem uma última refeição. Lembramos mais uma vez que não serão permitidas transferências da classe econômica para a primeira classe. Agradecemos a preferência, e desejamos a todos uma boa morte.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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