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Neon Azul

Neon Azul é um livro de Eric Novello, escritor carioca radicado em São Paulo, lançado pela Editora Draco durante a última Fantasticon. E é também o nome da boate onde se passa a maior parte das suas histórias, um inferninho típico das grandes cidades, onde florescem todos os vícios e acontecimentos da vida noturna.

Como anuncia já na capa, trata-se de um romance fix-up, o que quer dizer que ele não possui uma única trama que se desenvolve com início, meio e fim, mas sim uma série de contos que podem ser lidos de forma indepente ou entendidos como partes de uma história maior. Mesmo a ordem de leitura não é muito importante: a sequência do livro não é cronológica, há idas e vindas no tempo, e um conto no final pode estar acontecendo simultaneamente com um dos primeiros. Há diversos personagens recorrentes, que são coadjuvantes em algumas histórias e viram protagonistas em outras, quando você então compreende seus comentários e atitudes; tudo formando um grande mosaico que é o Neon Azul sob a sombra do Homem, o seu misterioso proprietário, que realiza os desejos daqueles dispostos a pagar o seu preço.

Não é um livro 100% perfeito, claro. Há alguns deslizes menores na escrita, e nem todas as histórias têm um final satisfatório. Mesmo quando isso acontece, no entanto, a viagem até lá vale a leitura – é um pouco como uma apresentação de jazz, repleta de improvisações e desvios, onde o tema de fundo é apenas uma ambientação para os músicos (ou personagens) brilharem, e onde a soma das partes muitas vezes é menos importante do que as atuações individuais. A presença do fantástico, em algumas histórias de forma mais sutil do que em outras, colabora para criar um clima surreal, próximo de um realismo mágico – é um mundo que você conhece bem, e, se já tiver frequentado algum dos bares da vida, talvez até reconheça os personagens, mesmo que estejam escondidos atrás de assassinos seriais e prostitutas; mas é ao mesmo tempo mais do que isso, um mundo de fantasia e magia, de viagens através de espelhos e demônios presos em garrafas, que pouco ou nada deve àqueles habitados por elfos e dragões.

Neon Azul, enfim, é um dos lançamentos mais interessantes do ano, ao menos entre os que eu li. É um livro que você terá vontade de ler mais de uma vez, seja pelo cenário e situações surreais, seja para desvendar e montar o quebra-cabeças que é a boate do título. Uma recomendação fácil.

A Vida Como Ela Poderia Ser

Sexta-feira, 19 horas, no bar com amigos. Ele está sentado, calmo, bebendo – muito -, como de praxe. De repente, percebe: uma moça o está observando. Ou será que não? Deve ser a minha imaginação, pensa, ela deve estar só olhando em volta, ou para alguém atrás de mim. E continua a conversa com os amigos.

Mas olha de novo, e ela ainda tem os olhos na sua direção. São bonitos, escuros; combinam com a pele e os cabelos morenos, e o sorriso tímido que ela tenta esconder quando vê que foi percebida. Mas será que era ele mesmo que ela estava olhando? Não tinha certeza. Podia ser qualquer um na mesa, exceto que nenhum outro parecia perceber. Podia ser qualquer um em volta, mas, olhando em volta, também não parecia haver nenhum outro virado para lá.

Perdido no pensamento, um amigo chama a sua atenção, e ele volta pra conversa. Futebol. Time na zona de rebaixamento, o rival quase líder do campeonato, o craque perto de ser vendido para a Europa… E ela continua olhando. Se ela realmente estivesse olhando para mim…, pensa, olhando para os seios que o decote do vestido não tenta esconder e para as coxas perfeitas. Um gole de cerveja vem, outro vai, e ela continua olhando. Vou falar com ela!, decide.

Não vai. Ela não podia estar olhando pra ele, podia? Era bom demais pra ser verdade. Ele não era tudo aquilo, não merecia tanto.

Mas se fosse verdade, ah… Ela seria a mulher da vida dele. Gostaria das mesmas coisas, das mesmas histórias de fantasia, dos mesmos filmes de aventura. O sexo seria fantástico. Ela faria tudo para ele, e ele tudo para ela, é claro. Se fizesse questão, até casariam. Faria uma música em homenagem a ela na banda de blues que queria montar há anos com o primo. Teriam três filhos, dois rapazes e a caçula. Tudo que precisava era falar com ela.

E vai falar, finalmente decide – mas não pode mais, pois ela já não está lá.

É, devia ser só a imaginação.

Entre-Goles

Sentou no bar, e olhou em volta. As pessoas, os sons, os movimentos formavam uma atmosfera vertiginosa – um grande redemoinho de vivacidade da qual ele era o centro, envolto por tudo mas intocado, imune aos seus efeitos.

No tempo em que nada nos dividia, – cantava uma banda. – havia motivos pra tudo, tudo era motivo pra mais.

Ele ouvia, parado, olhando para todo lugar, mas enxergando um lugar-nenhum.

Era perfeita simetria: éramos duas metades iguais.

Entre um gole e outro da mesma bebida, ele percebeu: aquilo era ele, aquele era ele. Sem ninguém, sem nada; sem destino ou ponto de partida, sem solidão ou companhia.

Ele era nada.

Ele era ninguém.

Bebeu outro gole, e olhou para o mesmo nenhum lugar.

Bola 8 na Caçapa

Tac-tac-tac! As bolas batem-se, batem nas bordas de madeira e caem nas caçapas.

– Bela jogada. – a admiração era genuína: três bolas numa tacada só.

– Obrigado. – sabia que havia sido mais sorte do que técnica, mas apreciou o elogio.

Silêncio. Olharam a mesa, agora com mais calma.

– Tu encaçapou a bola preta.

– Pois é.

Silêncio, de novo.

– Perdeu.

– Pois é. – e uma vez mais, silêncio. – Vou lá pegar outra cerveja.

A Bohemian Despair

Último gole,
Copo na mesa,
Garrafa vazia.


Sob um céu de blues...

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